Unidade para derrotar a extrema direita

Ilustra: Claudius

BANCADA PROGRESSISTA NO CONGRESSO / O desafio da nossa geração está nítido: precisamos barrar o avanço da extrema direita e derrotar o fascismo no Brasil e no mundo.

Por Camila de Caso e Ligia Toneto / Le Monde Diplomatique Brasil, 6 de março de 2026

O ano de 2026 foi aberto com grandes desafios para o campo democrático popular. A extrema direita avança no mundo com uma violência simbólica e material que há poucos anos parecia impensável. Donald Trump apresenta seu projeto de reorganização da geopolítica avançando sobre a América Latina. O fascismo não é um fantasma do passado, é uma força viva que ameaça direitos, liberdades e a própria democracia.

No Brasil, apesar da prisão de Jair Bolsonaro e dos generais envolvidos na tentativa de golpe de Estado e assassinato do Presidente e Vice-Presidente da República do 8 de janeiro 2023, a extrema direita segue sendo uma relevante força de organização e mobilização social. Figuras como Nikolas Ferreira, que surgem das redes sociais, crescem como lideranças nacionais. O nome de Flávio Bolsonaro, ao ser indicado como o candidato deste campo, já aparece nas pesquisas, repetindo a polarização de 2022 como candidato do bolsonarismo para 2026.

Não podemos deixar que o ciclo de retomada da democracia e dos direitos sociais iniciado pelo terceiro mandato de Lula seja revertido. Recuperamos e aperfeiçoamos programas como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Farmácia Popular, e criamos muitos outros como o Pé de Meia, o Agora Tem Especialistas, o CEP para todos, o Desenrola e o Gás do Povo. Aprovamos a maior Reforma da Renda da história, colocando pela primeira vez os super-ricos para pagarem impostos. Deixamos de bater recorde de desemprego para bater recorde de geração de empregos. Descongelamos o salário-mínimo e alcançamos o maior rendimento médio real da série histórica. Revertemos o ciclo de crescimento das desigualdades para atingir a menor desigualdade da história.

O desafio da nossa geração está nítido: precisamos barrar o avanço da extrema direita e derrotar o fascismo no Brasil e no mundo. Mais do que reeleger Lula, precisamos mudar a correlação de forças do Congresso Nacional. Para isso, acreditamos que um passo é indispensável, a construção de uma Federação de esquerda que una o campo democrático popular e consiga eleger mais parlamentares em todo Brasil.

Temos olhado atentamente para os números que explicam a correlação de forças no Congresso Nacional. Os dados são implacáveis: o bloco do Centrão (União, PP, PSD, Republicanos, MDB e federação PSDB-Cidadania) soma 276 deputados. A extrema direita organizada no PL tem 87 deputados. Do lado do campo progressista, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) tem 80 deputados, e a Federação PSOL-Rede tem 15. Somados, chegamos a 95 parlamentares, uma bancada expressiva, mas ainda insuficiente para pautar a agenda de transformações que o povo brasileiro demanda e que o presidente Lula precisa implementar em seu quarto mandato.

É por isso que defendemos a unidade da esquerda em uma única federação, para termos uma ferramenta política com capacidade de alterar a correlação de forças no Congresso e permitir governabilidade como força majoritária. Queremos aprofundar a unidade que o campo progressista vem construindo desde as lutas contra o golpe de 2016. Será fundamental para conquistarmos pautas estruturantes como o fim da jornada 6×1, uma tributação justa que faça os super-ricos pagarem mais, e a regulação das Big Techs para conter a avalanche de desinformação que fortalece o fascismo.

Precisamos nos unir para enfrentar a extrema direta de forma organizada e cotidiana. O bolsonarismo não tira férias. Nossos partidos se uniram em momentos cruciais da história recente, agora propomos ir além porque os desafios se avolumam. Uma federação do nosso campo é capaz de aumentar nossas bancadas e dar um passo além no processo de convergência programática, respeitando as nossas saudáveis diferenças.

O sistema eleitoral brasileiro é cruel com a fragmentação. As chamadas “sobras eleitorais”, as cadeiras não preenchidas na primeira distribuição, são disputadas por partidos que atingem determinados patamares de votação. Com a federação, somamos votos em todos os estados, aumentamos o quociente partidário e podemos eleger parlamentares do nosso campo em estados que não temos nenhum. Não podemos correr o risco de eleger Lula e não eleger bancada, deixando o presidente refém de um Congresso dominado pelo Centrão e pela extrema direita. Precisamos de mais deputadas e deputados comprometidos com a classe trabalhadora, com o feminismo, com o antirracismo e com a pauta ambiental.

Não é por menos que o Centrão também tem se organizado em federações competitivas para ocupar o Congresso. Com isso, amplia sua força para aprofundar o processo de apropriação do orçamento público por emendas parlamentares, retirando a transparência e a aplicação estratégica dos recursos, além de tornar a disputa política profundamente desequilibrada. A esquerda também precisa se organizar em conjunto para ampliar nossa força para implementar projetos que ampliem direitos. Construir uma federação de esquerda é sinalizar para os movimentos sociais e para a sociedade a disposição de colocar os interesses do povo brasileiro acima das diferenças partidárias.

O momento exige grandeza política, a história nos mostra que não podemos menosprezar o fascismo. Enquanto escrevemos, novos episódios de violência política e avanço reacionário se acumulam no noticiário internacional e nacional. Nossa geração será julgada pela capacidade de responder a esse desafio com coragem e unidade.

Defendemos a federação de esquerda porque acreditamos que é o caminho mais consistente para derrotar o bolsonarismo, ampliar a bancada progressista no Congresso, dar governabilidade ao presidente Lula e, principalmente, avançar nos direitos do povo brasileiro e na defesa da nossa soberania nacional. Que possamos, a partir da unidade, consolidar a retomada da democracia brasileira.

 

Camila de Caso é economista e membra da Executiva Nacional do PSOL.

Ligia Toneto é economista e membra da Direção Nacional do PT.

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