“Um Laptop por Criança”: o que esse projeto implica?

Especialistas debatem pensamento, infra-estrutura e mudanças no processo de aprendizagem a partir do projeto que visa introduzir laptops nas escolas brasileiras. Por Raquel Moraes, professora da UnB e editora de Educação da Revista Consciência.net

Foi noticiado pela Assessoria de Imprensa do Ministério de Ciência e Tecnologia, MCT em 06/07/2007, que o professor titular de Ciência da Computação da USP Waldemar Setzer proferiria palestra avaliativa sobre o projeto “Um Laptop por Criança” no encontro anual da SBPC. O texto na íntegra pode ser lido aqui.

Fervoroso crítico do uso das tecnologias na educação desde os anos 80, sobretudo o computador e a televisão, Setzer argumenta que “o pensamento e a linguagem formais impostas pelo computador são impróprias para crianças e jovens, prejudicando um desenvolvimento intelectual harmônico com o resto de seu desenvolvimento”.

Uma posição oposta a do professor Setzer é encontrada na professora da URGS Léa Fagundes. Sobre o programa do laptop, em entrevista para Verônica Couto da revista Rede, Fagundes argumenta que: O XO é a máquina das crianças, porque são elas que programam. E o XO cria um ambiente natural de expressão da comunicação. Tem a câmera fotográfica, os fones, as crianças se comunicam conversando na tela. Conectam-se pela internet wireless. Além disso, tem uma coisa maravilhosa, que é a rede Mesh. Quando eu uso a internet nos PCs tradicionais, a comunicação e a interação ficam forçadas. Não é um ambiente para três, quatro pessoas colaborarem para gerar um produto”.

Analisando o projeto Um Laptop por Criança, o professor da Faculdade de Educação da UERJ Marco Silva, analisa que “um dos maiores problemas das escolas públicas espalhadas por este imenso país é, certamente, a precariedade ou falta da infra-estrutura física – falta carteira, falta banheiro, falta material escolar, falta lousa, falta telhado, falta porta, falta bebedouro, falta merenda, falta esporte, etc.. Porém, existe um outro problema seríssimo, talvez anterior a esse e que, por ser menos material, não é tão enfatizado: a falta de formação continuada do professor”.

Neste contexto, o programa “um computador para cada criança”, sozinho, é uma iniciativa absolutamente inconseqüente, esdrúxula, improvisada, disparatada e politiqueira. Claro que o acesso das crianças a laptops online pode representar uma oportunidade ímpar de inclusão digital e de alfabetização digital. Isso, na sociedade da informação, significa inclusão social, ou inclusão cibercultural, se houver conexão com a internet, o que significará também oportunidade de formação da cibercidadania. Isto é, no contexto cultural, econômico e político marcado pela crescente presença do computador eda internet, a expressão da cidadania poderá ser dinamizada a partir, por exemplo, de um portal da cidade com diversas informações sobre serviços públicos com chats, blogs e fóruns de debates abertos a todos e todas, propiciando a participação política do cidadão na cibercidade que disponibilizará à população não mais somente orelhões, mas terminais de livre acesso à internet e ao ciberespaço. É função da escola educar para a cibercidadania”.

Contextualizando politicamente o programa, o educador espanhol da Uned, Roberto Aparici, pondera em portunhol que “o laptop de Negroponte tem um sistema para funcionar sem eletricidade mas é necessário ter um servidor perto ou um satélite para fazer a conexão a Internet. A Índia, o principal cliente de Negroponte, desistiu da compra e o Chile não aceitou o convite de comprar a laptop de “100 dólares”. O preço vai ser 175 dólares, sem contar os gastos de manuntenção, disponibilidades técnicas etc”.

Segundo Aparici, o laptop de Negroponte apresenta problemas em diferentes dimensões:

  • A compra mínima que exige Negroponte são 1 milhão de laptops. Brasil vai comprar um milhão e depois um outro milhão. O preço da primeira compra vai costar 175 milhões de dólares.
  • A falta de um plano de formação de professores e a falta de conteúdos específicos para crianças.
  • Desenvolvimento de diferentes pedagogias para mudar a estrutura gutemberiana da informação e metodologias transmisivas nas escolas.
  • O Brasil só vai mudar se se faz um forte investimento em educaçao, nao só na compra de artefatos. A compra de laptop não vai mudar as práticas pedagógicas nas escolas. Países como Islândia ou Coréia mudaram seus níves pelo forte investimento para fornecer a escola pública.
  • Não podemos cair nas mesmas críticas que se fizeram com a introdução da tv ou o programa Proinfo. Para mudar é necessario desenvolver uma política de alfabetização digital que não seja semelhante ao plano de Bill Gates onde a gente só aprende a usar programas. O importante e necessário é que nossas crianças possam atuar e pensar com uma tecnologia que está mudando os sistemas de produção.”


Além de não levar em conta a infra-estrutura física e a formação de professores, como tão bem salientado por Marco Silva, o projeto não está acompanhado de um programa de inclusão digital também para esse professor em todos os sentidos: tanto material (o laptop em si) como sua formação continuada.

Na cerimônia de abertura do curso de formação dos tutores do programa da Universidade Aberta do Brasil (UAB), na Faculdade de Educação da UnB em julho de 2007, o secretário de Educação a Distância do MEC Carlos Eduardo Bielschowsky mencionou a intenção do governo de fazer a integração dos programas da Secretaria de Educação a Distância: desde o ProInfo até a UAB, passando pela sua expansão para os municípios, sobretudo onde terão os pólos da UAB. No entanto, sequer foi mencionado o projeto de laptop do próprio Ministério para alunos e professores. O que se pode esperar disso?

Apesar dos argumentos de Fagundes sobre a preferência do governo pelo ClassMate, a mídia já está noticiando a intenção do governo em comprar o modelo XO, do Negroponte, sobre o qual o Aparici tanto critica, enquanto o modelo 100% nacional Cowboy, desenvolvido pela Unesp, nem sequer está sendo avaliado. Isso fere a constituição federal em seu dispositivo de que todos os projetos brasileiros deverão contemplar o desenvolvimento científico-tecnológico nacional, conforme consta no projeto de pesquisa da matemática e mestranda em Educação e Comunicação da Faculdade de Educação da UnB, Cristiane Edna Camboim.

Quanto à utilização dos novos meios de comunicação na educação, é importante lembrar o debate ocorrido entre Paulo Freire e Seymour Papert em novembro de 1995 e registrado pela TV PUC-São Paulo, onde ambos divergem em vários aspectos. Dentre os aspectos divergentes está o lugar dos meios de comunicação no currículo da escola no futuro. Se para Freire seria um instrumento a mais a serviço da libertação dos oprimidos a partir dos temas geradores de um currículo sendo construido na relação dialógica entre professores e aprendizes, para Papert estaria a favor do desenvolvimento cognitivo do indivíduo sem currículo. O debate “O Futuro da Escola e o impacto dos novos meios de comunicação no modelo de escola actual pode ser baixado aqui.

Por fim, com base no artigo 18 da Constituição Federal e parafraseando Paulo Freire, o projeto XO do Negroponte é uma invasão tanto cultural quanto científica, tecnológica e educacional.

O artigo 218 da Constituição Federal coloca que:

  • § 1º A pesquisa científica básica receberá tratamento prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso das ciências.
  • § 2º A pesquisa tecnológica voltar-se-á preponderantemente para a solução dos problemas brasileiros e para o desenvolvimento do sistema produtivo nacional e regional.
  • § 3º O Estado apoiará a formação de recursos humanos nas áreas de ciência, pesquisa e tecnologia, e concederá aos que delas se ocupem meios e condições especiais de trabalho.
  • § 4º A lei apoiará e estimulará as empresas que invistam em pesquisa, criação de tecnologia adequada ao País, formação e aperfeiçoamento de seus recursos humanos e que pratiquem sistemas de remuneração que assegurem ao empregado, desvinculada do salário, participação nos ganhos econômicos resultantes da produtividade de seu trabalho.
  • § 5º É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular parcela de sua receita orçamentária a entidades públicas de fomento ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica.

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