Trabalhadores do jornal a tarde fazem cartas paradas em busca de reajuste salarial

Início da reunião no pátio do prédio. Foto: Jadson Oliveira.

Os trabalhadores de A Tarde, o jornal mais influente da Bahia, iniciaram um processo de curtas interrupções diárias do trabalho em busca de negociação visando reajuste e melhorias salariais. Reivindicam 12% de aumento, a título de recomposição, além de outros benefícios chamados salários indiretos (veja abaixo). O processo iniciou-se na terça-feira, dia 7. Ontem, dia 13, eles pararam das 16:30 horas até 19 horas, aguardando uma negociação que não houve, e hoje está prevista uma paralisação entre 14 e 16 horas, quando decidirão os próximos passos do movimento.
Como estava programado, ontem o pessoal desceu da redação e dos outros setores para o pátio do prédio, situado na região do Iguatemi – atualmente a área mais movimentada da capital baiana – e, logo em seguida, a comissão dos empregados encarregada de negociar com o patrão se juntou aos trabalhadores. Nenhum dirigente da empresa apareceu para negociar. Que fazer? Descaso? Descrença no poder de mobilização dos assalariados envolvidos – 150 jornalistas, 250 pessoas da administração e uns 30 gráficos? Diante de alguma frustração, alguma revolta e muitas dúvidas, especialmente quanto às dificuldades e incertezas de uma greve (já está decretado o estado de greve), decidiram por nova parada de duas horas hoje.
Marjorie Moura, presidente do Sindicato dos ornalistas: processo de desgaste com reajustes ínfimos e/ou não reajuste. Foto: Jadson Oliveira.

Marjorie Moura, 17 anos de repórter e editora substituta do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia desde setembro do ano passado, informou que os trabalhadores vêm de um processo de desgaste ao longo dos últimos anos, com reformas e projetos editoriais que não deram certo e com reajustes ínfimos e/ou não reajuste: em 2009, foi 0%; em 2010, eles conseguiram 5% através de dissídio coletivo, ou seja, pela via judicial; e este ano a direção da empresa quer repetir o 0%. (O salário inicial de repórter está em R$ 2.400,00). A dirigente sindical considera satisfatória a mobilização, mas se mostra prudente sobre os novos passos a serem dados.
De qualquer forma, a reação dos jornalistas e demais categorias dos empregados demonstra que ventos mais frescos sopram no outrora bastião do conservadorismo baiano – o “vespertino” A Tarde (começava a circular no início da tarde, daí o nome), que no próximo ano vai se tornar centenário. É o mais antigo e de maior circulação na Bahia. Ostentou por muito tempo o título de maior jornal do Norte e Nordeste, mas cedeu o posto para o Jornal do Commércio, de Recife/Pernambuco. Hoje é tido como um dos três ou quatro maiores diários da região. O grupo empresarial tem ainda o jornal “popular” Massa! e a rádio A Tarde FM.
Flávio Oliveira (diretor do Sindicato dos Jornalistas), João Mauro, Genivaldo Taquari (presidente do sindicato da área administrativa) e Marjorie Moura. Foto: Jadson Oliveira.

Em fevereiro deste ano esses novos tempos já haviam marcado sua presença. O pessoal da redação se levantou e paralisou os trabalhos para exigir a readmissão do repórter Aguirre Peixoto, cuja demissão foi considerada injustificável pelos colegas. O movimento obteve êxito. Um episódio impensável nas décadas em que a redação era dirigida por Jorge Calmon, tratado com a devida reverência pelos empregados da casa, inclusive os jornalistas, como “doutor Jorge”.
Salários indiretos
De acordo com o blog Pilha Pura, que reproduziu matéria do Blog do Brown, do jornalista José Bonfim, a direção da empresa mantém em 0% o reajuste salarial e oferece os seguintes ganhos indiretos:
* Aumento de R$ 6,50 para R$ 7,00 no valor do tíquete-refeição;
* Acréscimo de R$ 10,00 no valor do auxílio-óculos, atualmente de R$ 150,00;
* Mais R$ 5,00 no valor do auxílio-creche, que passaria de R$ 90,00 para R$ 95,00;
* Descontos no comércio lojista local;
* Compensação do passivo do banco de horas com folgas e com pagamento das horas trabalhadas a partir de 1º de maio de 2011.
E os sindicalistas encarregados da negociação aceitariam considerar tal proposta se fossem incluídos os seguintes itens:
* Oferta de cesta básica mensal no valor de 1/2 salário mínimo;
* Redução do desconto em salário do vale-transporte, passando de 6% para 5%;
* Tíquete-refeição para quem ganha até cinco salários mínimos, sem qüinqüênio;
* Inclusão no acordo coletivo de cláusula de Participação de Resultados e Lucros (PRL);
* Ampliação do prazo do benefício do auxílio-creche, atendendo a crianças de até 9 anos;
* Pagamento parcelado do saldo do Banco de Horas e pagamento de horas-extras;
* Ampliação do tempo de licença-maternidade;
* Ampliação do prazo de estabilidade para quem vai se aposentar, de 24 para 36 meses;
* Redução do valor pago pelo funcionário como co-participação no plano de saúde.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Salvador (BA). Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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