“Trabalhadores do Brasil, vocês existem e são valiosos” é a tônica do fim do bolsonarismo

Por Lívio Pereira*

Se a crise era e ainda é estética, pois ela não acabou totalmente, parte da sua transformação, uma parte significativa eu diria, é também estética.

Por isso, nada mais revolucionário simbolicamente do que a subida da rampa do Palácio do Planalto ser feita por quem foi, com a representatividade que foi feita: Francisco, uma criança negra moradora de periferia em São Paulo e filho de militantes das causas sociais; Raoni Metuktire, cacique e uma das mais importantes lideranças de preservação dos povos e da floresta amazônicas; Aline Sousa, uma mulher negra e representante do Movimento Nacional de Catadoras; Jucimara dos Santos, uma cozinheira que colaborou na cozinha da ocupação Lula Livre por dez meses; Weslley Rocha, metalúrgico do ABC e educador físico formado com auxílio do FIES; Flávio Pereira, um artesão de 50 anos; Ivan Baron, que é influenciador digital anticapitalista e pessoa com deficiência; e Murilo Jesus, professor e pesquisador. Além de Janja, que é cientista social; de Lula, primeiro operário presidente do Brasil e eleito pela terceira vez; e Resistência, a cadela adotada pelo casal durante o acampamento em Curitiba.

Essa seleção de representantes do povo brasileiro, somadas a história e trajetória de Lula e do Partido dos Trabalhadores não é uma escolha qualquer. Essa é talvez a ação simbólica e política mais importante realizada pós ditadura em nosso país. Mesmo que seja só uma pequena amostra da cultura e história do Brasil, tem uma força que ainda levaremos um tempo para entender em toda sua completude.

A cena desse recorte de Brasil ocupando a rampa do Palácio do Planalto com as cerca de 200 mil pessoas atrás, assistindo e dando apoio, se emocionando e lembrando dos duros dias de campanha contra o ódio, mentira e violência, que a partir dali começavam a ficar para trás, poderia muito bem ser uma cena pós-revolução social, com o povo tomando o poder, como o foi em tantos outros processos revolucionários mundo a fora, basta olhar os relatos. Mas claro que não quero romantizar a cena, tornar o governo que se inicia imune a críticas e tensionamentos por parte dessa mesma classe trabalhadora que elegeu Lula mais uma vez, mas demonstrar a força que essa cena tem, inclusive mostrando o quanto a atuação desse mesmo povo no processo político foi essencial para essa vitória, reconhecendo a participação da classe organizada, mas também das camadas populares dispersas.

O retorno do Ministério da Cultura com Margareth Menezes e a criação dos Ministérios dos Direitos Humanos e Cidadania com Silvio Almeida, da Igualdade Racial com Anielle Franco, da Mulher com Cida Gonçalves e dos Povos Indígenas com Sônia Guajajara, todas essas representações fortes, política e tecnicamente, são uma outra ação importante nessa disputa simbólica das narrativas de país, sociedade, cultura e desenvolvimento que estamos cotidianamente travando.

Basta olhar a posse de vários desses Ministérios. As apresentações, as escolhas para seus secretariados, as palavras ditas em seus discursos que marcarão a história do Brasil e da América Latina. São passos que antes, os governos do PT não conseguiram dar, mas que agora se fincam força no território do poder.

A imagem dos povos indígenas e seus aliados retomando a Funai, entoando suas palavras, danças e ritos de luta. O ajuntamento de vários povos originários assumindo os rumos de sua história na marra contra os que queriam lhes exterminar, que não descansaram em momento algum durante esses seis anos de caos gerados pelo golpe na Dilma, que ocuparam Brasília, resistiram ao garimpo, ao Sales, ao Bolsonaro e toda turma deles.

O discurso do Silvio Almeida trazendo um ditado Iorubá sobre Esù, relembrando da luta por memória, verdade e justiça, falando de sua historicidade e ancestralidade negra com toda sua luta, citando nominalmente Luiz Gama, Luísa Mahin e mais um tanto de importantes nomes negros da história brasileira, todas as ditas minorias políticas e reafirmando “vocês existem e são valiosos para nós”.

O discurso de Nísia Trindade, Ministra da Saúde, que começa orientando o uso de máscara e relembrando para o povo completar seu esquema vacinal contra a Covid. Comemora o Dia do Sanitarista, importantes figuras na construção da saúde coletiva. Afirmando que a democracia é um elemento essencial da saúde da população. Que cumprimentou a Fiocruz, de onde veio. As universidades, os movimentos populares e os cientistas. Denuncia o obscurantismo e convoca as lideranças religiosas para construírem uma outra relação com a ciência, citando Paulo Freire e os valores emancipatórios de sua pedagogia.

Ou ainda o discurso de Margareth Menezes, Ministra da Cultura, que coloca os trabalhadores da arte e da cultura no centro, retoma sua história afro-indígena como artista. Pede benção aos seus pais e ao povo brasileiro. Fala da riqueza do Brasil, do litoral ao sertão, de norte a sul, das múltiplas expressões de nossa brasilidade. O MinC foi extinto por quem quer um país silenciado e acrítico, mas com sua recriação e com a escolha de Margareth, que representa tanta coisa para nosso setor, temos mais uma importante força que se soma aos trabalhadores que, mesmo com todos os percalços da pandemia e com a política de extinção e silenciamento da arte e cultura brasileira conduzidos pelo governo Bolsonaro, a filha do milico, o secretário pró nazismo e aquele outro saído da malhação, resistiram e seguem resistindo, que lutaram pelas Leis de emergência cultural, que ajudaram uns aos outros, que seguiram fazendo arte e pensando um Brasil novo. Relembrou Paulo Gustavo e Aldir Blanc e as leis que levam seu nomes graças ao congressistas progressistas que se somaram aos trabalhadores do setor.

Eu poderia falar tanto sobre diversos momentos desses primeiros dias de governo Lula que são símbolos importantes na reconstrução do país estética, ética e politicamente e no sentido da construção de força social para uma nova sociabilidade em nosso Brasil. Com tantos ministros e ministras que vem do meio do povo, com falas e ações tão potentes, com respaldo popular nesses momentos todos, com o retorno da esperança, sobretudo, porque fiquei sem palavras durante os últimos meses de 2022, que essa coluna se silenciou, mas retorno em 2023, no primeiro sextou do ano, sob um governo progressista, democrático e eleito pelo povo, no dia de Reis, com os brincantes ocupando as ruas do meu Ceará, cheio de esperança e ânimo.

Toda ação para emancipação ética, estética e política do povo é importante. Toda disputa ideológica, eleitoral, sociocultural e política é importante e devemos tomar posição. Toda ação individual vinculada a uma ação coletiva é um passo para o Brasil que queremos. Esse é o meu compromisso e o que verão nessa coluna em 2023. Feliz ano novo a todas, todes e todos! Nós existimos e somos valiosos.

*Trabalhador da cultura e militante social, escreve para o BdF há mais de um ano.

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Francisco Barbosa

Fonte: Brasil de Fato

 

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