Trabalhador humanitário da ONU passa três meses acorrentado a uma árvore no Sudão

Militar da reserva, o húngaro Istvan Papp frisa que nenhum treinamento é suficiente para uma situação como essa, na qual morrer é tão difícil quanto ficar vivo. Do site da ONU Brasil, tradução de Damaris Giuliana.

Istvan Papp no aeroporto de El Fashe, apór ser libertado (Foto: Reuters/Mohamed Nureldin Abdallah)

O húngaro Istvan Papp, de 55 anos, estava acostumado a trabalhar em locais afastados e perigosos. Ao longo dos 31 anos que passou nas Forças Armadas, assim como na reserva, ele serviu em várias operações de paz – não só da ONU – no Iraque, Irã, Península do Sinai (Egito), Moçambique, República Democrática do Congo e Nepal.

Supervisor do programa de desarmamento, desmobilização e reintegração de ex-combatentes da Missão das Nações Unidas e da União Africana em Darfur (UNAMID), há um ano e meio ele seguia a rotina de telefonar para a família todas as noites quando voltava para casa, onde morava com mais quatro colegas, em El Fasher, capital de Darfur do Norte, no Sudão. Não foi assim em 7 de outubro do ano passado.

“Eu estava no corredor, em frente ao meu quarto, quando vi alguém no hall com uma metralhadora atirando na gente. Obrigaram-nos a ir para um quarto e nos amarraram”, lembra. Papp frisa que, apesar de todo o treinamento, nada prepara alguém para esse tipo de circunstância. “Você não acredita que está acontecendo com você. Não cai a ficha”, explica.

Uma coronhada nos rins o fez se dar conta da seriedade da situação. Ele e um colega sérvio foram levados por homens armados para um veículo da ONU estacionado na frente da casa. O sérvio escapou do veículo destravado, mas Papp ficou no porta-malas do 4WD, amarrado. Os demais colegas também escaparam de outro carro.

O veículo com Papp foi abandonado na cidade e ele, colocado em outros dois carros até chegar à fronteira, a cerca de 400 quilômetros de El Fasher. Depois de dois dias, os sequestradores ligaram para uma rádio independente para dar a prova de que Papp estava vivo. Pediram resgate de um milhão de dólares – contudo, a Polícia da ONU não paga resgates e, a princípio, a segurança dos trabalhadores humanitários é responsabilidade das autoridades locais.

Depois de dez dias, sabendo que Papp era militar da reserva, resolveram acorrentá-lo a uma árvore. Mudavam a cada três dias e ele voltava a ser preso. Avaliando a região onde estavam e o armamento dos sequestradores, Papp sabia do risco de uma operação de resgate. “Dormiam como qualquer pessoa porque os camelos eram os guardiões naturais. Você não pode enganá-los. Se qualquer um quisesse se aproximar de nós, eles avisariam, fariam barulho.”

Papp recebeu um cobertor. Comia e bebia as mesmas coisas que os sequestradores e teve a roupa trocada por trajes típicos. “Eles me perguntaram quanto eu calçava. Respondi 42/43. Você não vai acreditar no que fizeram: trouxeram o pé esquerdo 43 e o direito 42. Foi engraçado.”

Depois de 50 dias, os raptores cortaram o contato dele com a ONU. Em 5 de janeiro, ele foi levado para o topo de uma montanha perto da capital do país, Cartum, e entregue às autoridades. Já sob os cuidados da UNAMID, encontrou-se com o Vice-Presidente sudanês, Ali Osman Taha, e foi examinado por médicos. No dia seguinte, viajou ao Cairo, capital do Egito, com o Embaixador húngaro e seguiu com escolta até Budapeste. “Sou um militar, mas tinha lágrimas nos meus olhos quando pisei em solo húngaro”, conta. Também foi recebido pelo Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, em Nova York.

Depois de descansar, foi enviado para a Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Frequentemente, o perguntam como é ser um herói. “Não sou herói. Sou um trabalhador humanitário que teve a sorte de ter um bom time de negociadores”, afirma. “Meu trabalho foi ficar vivo. O resto, graças a Deus, foi feito pelos outros. Não é fácil ficar vivo, mas também não é fácil morrer daquele jeito.”

(Original aqui)

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