Tornar nossa fé profética e assumir o martírio

Tornar nossa fé profética e assumir o martírio

Neste 2º domingo da Quaresma (ano B), o evangelho de Marcos (9, 2- 10) nos traz de novo a cena que se chama  a “transfiguração” de Jesus. Marcos conta essa cena no contexto do caminho de Jesus para a sua cruz. O texto começa dizendo claramente: “Seis dias depois…”. Depois de que? Seis dias depois do dia no qual Jesus adverte aos discípulos que o seu caminho era o enfrentamento às autoridades de Jerusalém e a cruz. Os discípulos o reconheciam como consagrado de Deus (Cristo), mas não aceitavam que ele caminhasse para a cruz.

A cultura judaica popular tinha uma compreensão sobre o Messias como alguém que vinha restaurar a realeza de Israel, purificar o templo e renovar a aliança de Deus com o seu povo. No entanto, Jesus se negava a ser rei ou chefe. Não queria purificar o templo e sim abolir (Chegou a dizer: Destruam esse templo e eu refarei outro – se referindo ao templo do seu corpo). E quanto a Deus, vivia uma relação com Deus muito diferente de tudo o que os discípulos e discípulas podiam compreender.

A comunidade de Marcos continuava com o mesmo problema. Para muitos cristãos, a fé era reduzida ao religioso. E queriam uma religião de milagres. Ainda 70 anos depois da Páscoa de Jesus, muitos na comunidade cristã se identificavam com o estilo de fé de Pedro. Querem Jesus como um líder que realizaria sua missão pela vitória contra os adversários e pela vitória do poder religioso. Jesus rejeitava isso como tentação. e disse a todos: “Quem não assumir como caminho a Cruz não pode ser meu discípulo”.

Ao dizer isso, não estava pedindo a ninguém para gostar de sofrer. Não disse que Deus gosta de nos ver sofrer. Advertia que deveria cumprir sua missão não como Messias ou filho de Deus e sim como simples homem, servo sofredor, cuja solidariedade ao destino dos mais pobres e explorados o levaria a sofrer o castigo que o império dava aos servos rebeldes (a cruz).

Hoje ainda existem cristãos que querem viver uma espiritualidade que separa a fé do compromisso social. Chegam a pensar que a Campanha da Fraternidade prejudica a Quaresma, ao trazer os problemas sociais e políticos como assuntos que nos desafiam no caminho da conversão.

Marcos conta esta cena da transfiguração para responder aos problemas da comunidade cristã da época. É um problema fundamental que existe até hoje na Igreja. Quem é Deus para nós e como vemos o Cristo.

Durante cinco séculos, a maioria dos cristãos na Igreja achou normal usar o nome de Jesus para conquistar povos e colonizar. Hoje temos dificuldade de compreender como padres, bispos e pastores, mesmo pessoas santas, conviveram com a escravidão negra e indígena. Provavelmente, no futuro uma geração diferente da nossa vai ter dificuldade de compreender como nós, cristãos de hoje, aceitamos conviver com essas imensas desigualdades sociais, com o racismo estrutural da sociedade, com a violência em todas as suas formas. Até hoje, muita gente acha que isso não tem nada a ver com a fé.

Jesus chamou os três amigos mais íntimos para fazer deles testemunhas da transfiguração. A cena é impressionante. Jesus leva a um alto monte Pedro e os dois irmãos, filhos de Zebedeu. Eram os três apóstolos mais claramente identificados com uma Igreja judaica e uma esperança messiânica de tipo popular judaica. Enquanto eles estão no monte com Jesus, conforme Marcos, embaixo da montanha, os outros discípulos discutem com os escribas (professores da Lei) e não podem curar um menino surdo-mudo que um pai, pobre e angustiado veio pedir que curassem (Mc 9, 14 ss).

Aquele Jesus que se revelou a eles como pobre, impotente e candidato a morrer na cruz, Pedro, Tiago e João o veem envolvido da presença divina. Por estarem ainda muito presos à cultura religiosa, Pedro propõe construir três tendas, como era costume na festa litúrgica das Tendas e ficarem ali no monte em uma espécie de êxtase carismático. Não lhes importavam os outros do grupo lá embaixo em conflito com os religiosos e incapazes de curar. Mas, Jesus os levou para o monte afim de lhes revelar qual era o projeto divino. Que carinho e cuidado com seus amigos mais íntimos. O fato deles verem ao lado de Jesus, as figuras de Moisés e Elias é muito significativo. Mostra que eles devem ver a experiência de Jesus como a Bíblia conta o que aconteceu a Moisés e a Elias. Em relação à experiência de  Moisés na montanha, os discípulos ouviam na escritura uma história complicada. Conforme o livro do Êxodo, depois que o povo adora o bezerro de ouro, Moisés quebra as tábuas da aliança e, em conflito com o povo, sobe de novo ao monte. Deus o manda descer e retomar o trabalho de organização do povo e da caminhada. Em relação ao profeta Elias, o livro dos Reis conta que o profeta tinha matado os profetas de Baal em nome de Deus. Tinha ameaçado de morte ao rei Acab em nome do poder de Deus. Quando a rainha Jesabel decidiu matá-lo, o profeta descobriu que Deus não iria salvá-lo. Resolveu fugir. Exatamente quando estava ameaçado de morte e rejeitado pelos poderosos, ele sobe o mesmo monte de Moisés.

Ambas experiências eram de fracasso e ruptura com um tipo de visão de Deus: a idolatria do bezerro de ouro no caso de Moisés e a visão de um Deus poderoso e guerreiro no caso de Elias que chamava Deus: o Deus dos exércitos. E ali no monte, Deus só se revelou a ele quando o profeta conseguiu ver a presença divina no silêncio de uma brisa da tarde.

No contexto do evangelho, os discípulos também eram testemunhas de um fracasso de Jesus na Galileia. Também estavam em conflito com ele porque não aceitavam que Deus pudesse deixar que o seu Messias fosse ameaçado de morte e não se fizesse nada para impedir a sua morte. No alto do monte, Deus tinha revelado a Elias que o profeta teria de se despir do poder, de qualquer instinto de violência e tinha de mudar a própria forma de ver Deus para cumprir a missão social e política a qual Deus o enviava. Do mesmo modo, agora, ali no monte da transfiguração, Jesus retoma essas experiências. Ali, aos três discípulos renitentes e teimosos em permanecer em uma religião ligada a milagres e ao poder, Deus declara: Este é o meu Filho amado. Escutem-no. E pronto. Assim, Deus confirma e revalida a palavra que Jesus tinha dito sobre o caminho da cruz como sendo o único caminho necessário de fé e de missão que ele aceita viver.

O Cristianismo tradicional interpretou isso no sentido sacrificial. Jesus precisava morrer para cumprir um sacrifício oferecido a Deus. Isso significa que não se conseguiu sair do plano da religião tradicional e se substituiu simplesmente o Judaísmo rabínico do templo e da sinagoga pelo Cristianismo das catedrais e do direito canônico. A transfiguração de Jesus propõe outro caminho de fé. Não este da religião sacrificial e cultual.

Hoje a nossa fé está desfigurada pela incoerência e separação entre fé e vida. Ser testemunhas da transfiguração é aceitar contemplar a luz divina presente nas relações ecumênicas e caminho da unidade. É ver a glória de Deus presente na figura do Cristo que enfrenta os professores da Lei e os religiosos do templo, assim como os governadores do império de hoje. É passar de uma religião predominantemente institucional para uma fé profética e livre.

Atualmente, um desafio para a fé é não permitir que o nome de Jesus seja usado para legitimar a iniquidade. A transfiguração de Jesus mostra Jesus rodeado das figuras da tradição judaica. Hoje, a transfiguração de Jesus no Monte Pascal brasileiro o revela rodeado de figuras como o Zumbi dos Palmares, Marielle Franco e Mãe Stella de Oxossi, só para dizer alguns nomes. Há poucos dias, em Porto Velho, faleceu de Covid o índio Aruká Juma, o último remanescente do povo Juma. Nos anos 60, ele foi sobrevivente de um massacre. Agora não resistiu ao vírus da Covid e do ódio e desprezo com o qual o atual desgoverno brasileiro trata os povos indígenas. É preciso vê-lo como se fosse um Moisés ou Elias trazendo a antiga aliança junto com Jesus na transfiguração para transfigurar nossa forma de viver a fé e o compromisso com a vida. É preciso sermos testemunhas de uma espiritualidade profética como transfiguração de um Cristianismo que sem isso afugenta a juventude mais crítica e mais independente e que não aceita mais crer porque a autoridade mandou. A transfiguração revela que só podemos atingir a intimidade de Deus no cuidado uns dos outros e da mãe Terra e no tratamento das chagas dolorosas que ferem a vida humana hoje. Como o apóstolo Paulo escreveu: “Ele transformará os nossos frágeis corpos mortais para serem semelhantes ao seu corpo glorioso” (Fl 3, 21).

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