
Por Fundação Banco do Brasil – Transforma! Rede de Tecnologias Sociais
“Resumo: Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma tecnologia social (1) que promove fortalecimento de laços comunitários e saúde mental coletiva, partilhando experiências, histórias de vida e emoções para copping do sofrimento psíquico. Baseia-se em princípios de inclusão, participação, solidariedade e autonomia e é aplicada em comunidades que enfrentam desafios psico-socioeconômicos. A TCI empodera indivíduos em comunidades, incentivando a construção e fortalecimento de vínculos e cooperação mútua com a valorização dos recursos culturais para o enfrentamento das vulnerabilidades. Ela é uma ferramenta poderosa para resiliência e resgate da autoestima, contribuindo para fortalecimento do tecido social.
Objetivo
A TCI busca fortalecer os laços sociais e de solidariedade entre os membros da comunidade, facilitando a criação de redes de apoio, resiliência e promoção da saúde mental coletiva. Além disso, impulsiona o empoderamento comunitário, oportunizando que a coletividade se torne agente de mudança, encorajando a participação ativa e o envolvimento das pessoas nos processos de tomada de decisão.
Problema Solucionado
A TCI nasceu há 37 anos do desejo de 2 irmãos idealistas – Adalberto e Airton Barreto – e abriu portas para se tornar um movimento social, em 1986, com a maior comunidade da época do Ceará- a favela do Pirambu. O cenário era de ausência de políticas públicas, num contexto de alta vulnerabilidade marcado por restrição dos direitos humanos: saúde, moradia, segurança pública, acesso ao emprego e renda, bens e serviços, com elevado estigma social.
Assim sendo, a TCI pode ser implantada para: Promover desenvolvimento da autoconsciência, impulsionando para que a pessoa consiga perceber seu lugar no mundo e ampliando o senso de solidariedade na busca de soluções para questões sociocomunitárias; Criar oportunidades para pessoas se conectarem, compartilharem experiências e construírem vínculos significativos; Favorecer autocuidado, promoção da saúde, alívio do sofrimento além de ser coadjuvante no tratamento convencional dos transtornos mentais leves e moderados; Reduzir violência e criminalidade,Fortalecer laços sociais saudáveis e promove mediação de conflitos e cultura para a paz; Minimizar estigma e discriminação, promovendo empatia e respeito as diferenças.
Descrição
A TCI foi reconhecida pelo Centro Colaborador de Medicinas Tradicionais Integrativas e Complementares da Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma ferramenta de fortalecimento do autocuidado e promoção da saúde mental mundial. Concomitantemente, foi constituída uma comissão de sistematização da TCI, que pretende publicar o Guia de Sistematização em 2024, com extensa divulgação nacional e internacional. O documento do convite está em anexo (campo 9). O reconhecimento internacional se pauta na relevância, sustentabilidade, replicabilidade e interculturalidade entre saberes promovida pela TCI. Com a pandemia de COVID-19, os encontros passaram a ser virtuais, conduzidos por terapeutas comunitários capacitados por Polos de Formação reconhecidos pela Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (ABRATECOM).
A metodologia da TCI segue seis etapas: acolhimento, escolha da inquietação, contextualização, partilha de experiências e finalização. A etapa do acolhimento tem por objetivo criar ambiente seguro, confiável e circular. Nesta etapa explica-se o que é a TCI, convida o grupo para celebrar a vida e propõe dinâmica de aquecimento para integrar o grupo.
As regras da TCI são compartilhadas nesse momento: fazer silêncio; falar na primeira pessoa; não julgar, não dar conselhos, não analisar, não interpretar; regra da cultura. Na escolha da inquietação, tem como objetivo a escolha da inquietação que será aprofundada na roda. Para isso, deve-se apresentar as inquietações, restituição, identificação, votação e agradecimento. Na contextualização, tem como fim colher informações a respeito da inquietação trazida pelo protagonista.
Seu desenvolvimento é feito por meio de perguntas feitas ao protagonista pelos participantes da roda e pelo TC. Na partilha de experiências, os participantes são convidados a compartilharem suas estratégias de enfrentamento, a partir de perguntas como Quem viveu algo parecido e o que fez para superar? No encerramento, é um momento especial de ampliação do significado das experiências vividas e de renovação.
Após cada roda, os terapeutas fazem uma apreciação para analisar os resultados e possíveis melhorias. A ABRATECOM – criada em 2004, envolve efetivamente sua comunidade (rede de Polos de Cuidado e Polo de Formação em TCI; terapeutas comunitários em formação e já formados; associados à instituição pessoas interessadas na temática) nas etapas de planejamento, execução, monitoramento e avaliação. Para garantir a participação colaborativa da comunidade na ABRATECOM, esta instituição se organiza: Assembleia geral ordinária e extraordinária (instância máxima); conselho deliberativo e científico (CDC – instância intermediária com representação da rede de terapeutas representantes dos Polos); diretoria executiva e conselho fiscal eleitos na AGO, sendo constituídas por terapeutas comunitários (vinculados ou não a Polos).
As chapas da instituição sempre priorizam a diversidade. Na atual gestão temos mulheres, negras, idosas, homossexuais, indígenas. A ABRATECOM incentiva e valoriza a participação de lideranças comunitárias em sua governança, por meio de bolsas de estudo, redução de taxas na anuidade de associado, inscrição social para participação em congressos.
O planejamento, execução, monitoramento e avaliação da ABRATECOM são realizados por meio de comissões ligadas ao CDC. A cada 2 anos (desde 2003) realiza-se o Congresso Brasileiro/Internacional de TCI para educação permanente e continuada. No SUS, desde 2017, a TCI é uma das 29 Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) e é uma das quatro mais realizadas na Atenção Básica.
Apesar de ser uma PICS recente, comparada a outras (acupuntura, homeopatia), o fato de ser tecnologia leve de cuidado, genuinamente brasileira, coletiva, custo-efetiva, justifica seu crescimento exponencial. Dada esta expansão e capilaridade geográfica e social, desde 2021, a ABRATECOM tem representação titular na Comissão Intersetorial de Promoção, Proteção e Práticas em Saúde e na Comissão de Educação Permanente para o Controle Social do SUS, bem como suplente na comissão de Atenção Básica do Conselho Nacional de Saúde.
Com relação à avaliação e monitoramento, são processos participativos, contínuos, progressivos e permanentes que se dão por parcerias e convênios com universidades públicas (projetos de extensão, pesquisa e formação), instituições (como Ministério da Saúde, Consórcio Acadêmico brasileiro de Saúde Integrativa, Organização Panamericana de Saúde e OMS) e movimentos sociais. Existem mecanismos claros de feedback para monitoramento, através de canais de comunicação direta e acesso a diretoria executiva e do CDC, para a comunidade ter solucionadas suas questões de maneira construtiva e oportuna. Por último, existe transparência nas tomadas de decisão, ética nas relações e processos como na publicização das prestação de contas, destacando os sucessos e os desafios enfrentados pela TCI e ABRATECOM.
Recursos Necessários
Os polos oferecem capacitações para a formação de terapeutas comunitários, onde regulamenta-se por 240h/a, divididas em módulos teóricos (50h/a), vivências práticas (50/a), supervisões (80/a), estágio prático (60/a) {Correspondente a condução 30 rodas de TCI}. Segue-se o livro “TCI: passo a passo” e demais artigos. Para realização de dinâmicas terapêuticas, necessita-se de um espaço amplo com um mínimo de 2m2/pessoa, dispondo de colchonetes, máscaras para os olhos, álcool, óleos essenciais, lanches, mesas, toalhas,multimídia, e demais utensílios administrativos e de almoxarifado; itens esses que dependerão da quantidade de participantes a serem formados, apenas limitando-se ao espaço a ser realizado. Média de preço de capacitação 2 mil reais por pessoa.
Para o desenvolvimento da tecnologia, faz-se necessário um espaço acolhedor e confortável, com um mínimo de 2 terapeutas comunitários por grupo, onde a quantidade de participantes não é limitada, podendo reunir-se 10, 100 pessoas ou mais. Podendo ser aplicado em diversos contextos e públicos, seja escolas, igrejas, instituições, associações, presídios, ruas, parques, unidades de saúde, sem distinção de idade, gênero ou etnia. Como síntese: 4 mil reais para 2 terapeutas comunitários ( com duração de curso de 6 meses aproximadamente) para média de 30 pessoas por roda, 1 vez/semana (33 reais/pessoa) e 1/semana/ano (2 reais/pessoa), ou seja, estratégia extremamente custo-efetiva.
Resultados Alcançados
Atualmente temos 58 Polos de TCI no Mundo, com representação no Brasil (43), Continente Africano, Américas e Europa (15) alinhados com a Agenda 2030 e as ODS (3, 4, 5, 16 e 17). Estima-se a existência de mais de 30 mil Terapeutas Comunitários no Brasil com impacto direto e indireto de milhões de pessoas no Brasil e Mundo, em especial nas regiões e grupos mais vulnerabilizados. Temos ampla experiência em contextos de calamidades e conflitos na luta pelos direitos humanos e saúde.
Atualmente temos 28 terapeutas comunitários realizando rodas de TCI mediando a guerra entre Ucrânia e Rússia. Nos 35 anos de existência, aconteceram XII Congressos, 35 reuniões do CDC, 3 convênios com o Ministérios da Saúde e Universidade Federal do Ceará, executados pelos polos da ABRATECOM. Foram formados mais de 4000 pessoas no setor público, incluindo agentes comunitários de saúde e população indígena. Somos parte do movimento mundial “The People’s Declaration for Traditional, Complementary and Integrative Healthcare” e fomos signatários de documentos importantes, como “Reimagining mental health systems post COVID-19 (Lancet 2021)”.
Produzimos o protocolo de realização de rodas online em março de 2020 e antes mesmo do primeiro caso de COVID-19 no Brasil já tínhamos agenda diária de realização de rodas de TCI por diferentes Polos, que continuam até hoje. De acordo com os dados, de março de 2020 a agosto de 2023 a ABRATECOM em parcerias realizou 100 rodas de TCI online/mês (1200 rodas/ano) em 16 países, em português, italiano, francês, espanhol e inglês, atingindo 41 mil rodas neste período. Temos parcerias com diversas universidades Nacionais e Internacionais a fim de criar e fortalecer redes para avaliar diferentes contextos da TCI. De 2006 a 2023, foram encontrados em termos quantitativos: 143 artigos publicados, 19 teses de doutorado, e 77 dissertações de mestrado, 17 livros e ebooks. Na publicação “Integrative Community Therapy in the Time of the New Coronavirus Pandemic in Brazil and Latin America”, evidenciou a TCI tornou-se rede de apoio de resgate da esperança, implicando em descobertas de potenciais desconhecidos, de transformações das adversidades da vida, de superação de si próprio.
Outro dado importante é que a ABRATECOM participou da consulta pública para revisão dos Descritores em Ciências da Saúde (BIREME)/OPAS/OMS, em 2022, e conseguimos a aprovação do termo “Terapia Comunitária Integrativa”.
Público atendido
Adolescentes
Afrodescendentes
Crianças
Famílias de baixa renda
Idosos
Lideranças comunitarias
Mulheres
Povos indigenas
Quilombolas.”
Fonte: Fundação Banco do Brasil – Transforma! Rede de Tecnologias Sociais
—
(1) Tecnologia Social
O conceito de Tecnologia Social remete para uma proposta inovadora de desenvolvimento, considerando uma abordagem construtivista na participação coletiva do processo de organização, desenvolvimento e implementação, aliando saber popular, organização social e conhecimento técnico-científico.
Tem como base a disseminação de soluções para problemas voltados a demandas de renda, trabalho, educação, conhecimento, cultura, alimentação, saúde, habitação, recursos hídricos, saneamento básico, energia, ambiente, igualdade de raça e gênero, dentre outras, importando essencialmente que sejam efetivas e reaplicáveis e promovam a inclusão social e a melhoria da qualidade de vida das populações em situação de vulnerabilidade social.
O conceito de Tecnologia Social (TS) estabelece 04 (quatro) dimensões:
- Conhecimento, ciência, tecnologia. TS tem como ponto de partida os problemas sociais; TS é feita com organização e sistematização; TS introduz ou gera inovação nas comunidades.
- Participação, cidadania e democracia. TS enfatiza a cidadania e a participação democrática; TS adota a metodologia participativa nos processos de trabalho; TS impulsiona sua disseminação e reaplicação.
- Educação. TS realiza um processo pedagógico por inteiro; TS se desenvolve num diálogo entre saberes populares e científicos; TS é apropriada pelas comunidades, que ganham autonomia.
- Relevância social. TS é eficaz na solução de problemas sociais; TS tem sustentabilidade ambiental; TS provoca a transformação social. Até 2015, as tecnologias sociais contribuíram, de forma participativa e democrática, com os Objetivos do Milênio (ODM) da Organização das Nações Unidas (ONU). Agora, com Agenda 2030 da ONU e seus 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) (https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030), as tecnologias sociais são importantes instrumentos para a construção de um mundo mais justo, resiliente e sustentável.
Fonte. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações
(2) Visite o site da ABRATECOM https://abratecom.org/ para participar de rodas de TCI on line.
