Tecendo saberes em busca de uma sociabilidade alternativa

Tecendo saberes em busca de uma sociabilidade alternativa

 

Introdução

 

Impera a sociabilidade de mercado, assumindo por vezes ares de eternidade, principalmente quando considerada sob a ótica da globalização dita neoliberal. Seus sinais invadem todas as esferas do cotidiano: da economia à política; da mídia às artes; da subjetividade às experiências religiosas… Seus frutos são inconfundíveis. É possível escapar a toda essa rede de valores tão profusa quanto extensamente disseminados em todos os quadrantes do mundo? Diante dessa grade de valores, que atitude assumir? De acomodação, sob o pretexto de que é inútil qualquer esboço de reação alternativa? Ou de resistência, levando em conta que se trata de um fato histórico-cultural, e portanto mutável? Nesta última hipótese, que saberes são capazes de inspirar elementos de superação desse quadro, a curto, médio e longo prazos?

No cenário das relações produtivas, a exacerbada concentração de riquezas diretamente responsável pelo crescente empobrecimento de maiorias, nos países periféricos, e de expressivos segmentos em países centrais do Capitalismo, forçados que se sentem a sobreviver, não raro, em condições de barbárie (desemprego estrutural, agricultores sem terra, falta de moradias dignas, expansão das doenças da pobreza, analfabetismo, violência seletiva principalmente contra os pobres, justiça venal…).

A coisa não é menos grave no plano político. Reforça-se, a cada período eleitoral, uma cultura política condenada a reforçar uma concepção, digamos, esquizofrênica de Democracia, cujas práticas contradizem claramente o discurso ortodoxo. Sucumbe-se ao mais deslavado pragmatismo, indutor por excelência do discurso da racionalidade cínica: exacerbação das técnicas de marketing (o problema não é ser, é (a)parecer), a consagração do continuísmo pelo abusivo recurso à auto-reprodução dos mandatos (para que serve o mecanismo da reeleição?), o aliancismo, práticas clientelísticas que, a despeito da sofisticação das máscaras, deixariam envergonhados coronéis de antanho…

No campo da mídia, salvo exceções (que não infirmam a regra), as práticas dominantes consolidam o reino da opressão de minorias sobre maiorias, por meio da inculcação de valores ditados pelo pragmatismo, critério maior ao qual se subordina sua opção por uma programação de baixo nível, freqüentemente apelativa a sentimentos que, para dizer o mínimo, não fazem justiça à dignidade do Ser Humano.

Por outro lado, essa sociabilidade reinante, por mais soberana que se pretenda, não consegue anular a irrupção de práticas que se colocam nas antípodas dos interesses e práticas dominantes. É possível observar-se, com efeito, a emergência de fecundas experiências apontando para um horizonte de sociabilidade alternativa. O propósito deste artigo é, fundamentalmente, contribuir, modestamente que seja, com o esforço de visibilização de sinais dessa rede de resistências moleculares. Para tanto, buscamos distribuir nossa reflexão nos seguintes tópicos, enunciados de forma interrogativa:

– Quais os frutos dominantes da sociabilidade hoje em curso?

– Que valores fundamentais inspiram a sociabilidade de mercado?

– Estamos todos condenados a sucumbir frente à avalanche dessa grade de valores?

– Que práticas e valores podem inspirar a germinação de saberes voltados para uma sociabilidade alternativa?

 

  1. – Quais os frutos mais característicos da sociabilidade hoje em curso?

 

Simplesmente avassaladora é a nossa tendência ao instituído, à lei do menor esforço: “Vamos deixar as coisas como estão, para ver como é que ficam… E mesmo sentindo que ficam piores, de tão acostumados que estamos à rotina, não ousamos sequer considerar a possibilidade de que elas podem ser diferentes, e positivamente diferentes. Ou – o que resulta no mesmo – quando admitimos essa hipótese, logo atribuímos a outrem (o partido, o sindicato, a igreja…) a tarefa de tentar. Abdicamos do nosso próprio protagonismo, e, assim procedendo, reforçamos objetivamente a situação.

Situação que não cessa de se agravar, sob vários aspectos das relações do cotidiano. Entra governo, sai governo, e, a despeito do nosso pesado investimento na militância partidária, não apenas não evitamos a concentração de renda, de terras, de riquezas, como somos forçados a reconhecer que ela vem se agravando. O considerável aumento do número de eleitos por partidos de esquerda, a conquista de milhares de vereadores, centenas de prefeitos e vice-prefeitos, em torno de uma centena de deputados federais, um número expressivo de senadores e alguns governadores, várias dezenas de deputados estaduais, a própria eleição do Presidente da República têm logrado resultados muito aquém do esperado, considerados até decepcionantes.

Decepcionantes quando se parte para uma sincera avaliação da relação custo-benefício, sob a ótica das classes populares. O investimento maciço na máquina partidária e no processo eleitoral, a cada dois anos, implica elevados custos em dinheiro, em tempo, em energia, não raro em inversão de prioridades (por exemplo, a sangria que representa para as lutas sociais o crescente distanciamento de militantes qualificados, que agora passam a priorizar a máquina partidária…). E o quê dizer dos freqüentes tropeços ético-políticos? O que isso representa enquanto pedagogia de trabalho com as classes populares? Nos anos 80, o número de militantes qualificados atuando nas bases podia-se contar aos milhares. À medida que eles e elas foram sendo recrutados para a máquina partidária, para os espaços governamentais (ministérios, secretarias estaduais, secretarias municipais…) e parlamentares, nessa mesma proporção podia-se observar o abandono parcial ou completo das trincheiras cotidianas dos movimentos socais populares. Os propósitos instituintes foram cedendo lugar, cada vez mais, à sedução do poder, aos espaços palacianos.

Mais: todo esse exército de militantes e seus aliados, instalados em postos-chave da máquina governamental e parlamentar teve que assistir, com o único direito de espernear e vota não, a todo um rosário de leis ditadas, na prática, pelo FMI, pelo Banco Mundial e similares, com o claro propósito de apagar do texto constitucional expressivos direitos duramente conquistados; teve que assistir ao desmonte e sucateamento de serviços públicos essenciais à maioria da população.

Desde o Governo Collor de Mello, passando pelos dois governos de FHC, quantos projetos de lei foram aprovados, no Senado, na Câmara dos Deputados Federais, nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras Municipais, todos ou quase todos contrários aos interesses populares? Mesmo votando contra, como negar que a participação dos representantes de esquerda termina objetivamente legitimando esse processo, por lhe conferir ares democráticos, difundidos aos quatro ventos, com desastradas conseqüências político-pedagógicas para as classes populares?

 

  1. Que valores fundamentais inspiram a sociabilidade de mercado?

 

Um balanço sereno da relação custo-benefício – recurso aliás tão caro à lógica de mercado (recurso que, no presente artigo, assume uma ótica invertida, pois a avaliação se quer a partir da visão das classes populares) – redundaria, sob vários aspectos, estupidamente prejudicial às classes populares. Aqui tratamos de realçar um desses aspectos: a grade de valores própria da visão de mercado.

A ideologia do mercado é inimiga do diferente, enquanto diferente. Pode até tolerar valores outros, desde que lhe sejam afins ou complementares, e não colidam com os seus. Na lógica do mercado, outro, sim, mas só se for extensão de “mim”, minha imagem e semelhança. Em sua fase mais exacerbada, como a do Capitalismo dito neoliberal, só se admite a difusão de “minha” palavra, da palavra do “meu” grupo, de minha classe. Os “outros” são meros ouvintes e consumidores de “minhas” idéias.

Talvez ainda mais do que em outras fases (por exemplo, na Social-Democracia), o Capitalismo em sua fase atual, dita de globalização neoliberal, confere completa razão ao velho dito marxiano, de que numa sociedade de classes, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Para isso, lhe é essencial centrar fogo na figura do chefe ou de seu preposto, ao mesmo tempo que trata de detonar (ainda que nem sempre consiga…) os ensaios de construção coletiva, de reduzir a pó o protagonismo de sujeitos plurais (a menos que se trate de sujeitos plurais aliados às forças dominantes….). Atomizada, qualquer sociedade acaba perdendo de vista suas esperanças de mudança. Monopolizar o exercício do poder passa, então, a ser uma eficaz estratégia de manutenção (e, se possível, de perpetuação) do poder da classe dominante.

Chega mesmo a passar idéia de que o preposto tem voz própria. Age de modo autônomo, ainda que por trás esteja refém de decisões “superiores”… Ou não é assim que agem as superpotências e seus organismos multilaterias (FMI, Banco Mundial e cia.)?

Nessa esteira, a concorrência passa a ser um instrumento eficaz, uma moeda valiosa, à medida que consegue semear a cizânia entre os “outros”. A velha máxima das classes dominantes de todos os tempos – “Dívide et ímpera!”, a do dividir para reinar…

E a saída para as classes dominantes termina sendo o apelo ao imobilismo, que lhes favorece sobremaneira.

Por uma infeliz combinação de motivações exógenas e endógenas, temos sido historicamente educados a não encarar propositivamente os desafios das mudanças sociais, mesmo quando reconhecemos não estar sendo favorecidos pelo status quo.

Somos herdeiros de uma tradição sócio-cultural que nos tem tornado reféns desta secular sociabilidade imperante. Ainda criança/adolescente, a esboçar algum gesto que fuja às regras dessa sociabilidade, logo nos deparamos com a intervenção dos nossos pais, a nos ministrarem “corretivos” e advertências, do tipo: “Aqui foi sempre assim. Os meus avós assim agiam, e assim ensinaram aos meus pais. Eu também faço o mesmo com você. Seu dever é respeitar nossos costumes.”

E desses costumes fazem parte atitudes como: não duvidar nem questionar os ensinamentos dos mais velhos; não desobedecer, em hipótese alguma, às ordens dos pais; menino não se envolver em brincadeiras de meninas (e vice-versa); desconfiar e manter distância de pessoas estranhas; homem não deve chorar; pertencem às mulheres gestos de meiguice, de sensibilidade mais refinada; lugar de menina é em casa; se for menino, pode brincar na rua; (apenas) a mulher tem que ser fiel ao homem; a honra do homem só se lava com sangue (indução à vingança do macho traído); não se deve envolver em problemas dos outros, cada qual resolva os seus; a pobreza é um problema que sempre existiu, e ninguém vai dar jeito; é dever dos políticos fazer favor para se elegerem; política é negócio de rico, pobre que se mete em política está de olho em dinheiro, o rico, não, porque já tem; o brasileiro é um povo pacífico… A lista parece interminável.

A despeito de muita coisa estar mudando, a esse respeito, não se deve descartar esses e outros exemplos como página virada. Muita coisa ainda se vè, se ouve, se sente, por aí… Coisa que, às vezes, nem se diz, mas a prática fala mais forte. E boa parte de nós não só incorpora esses valores, como também passa a reproduzi-los, ainda que nem sempre de forma consciente ou de modo disfarçável. Não poucos de nós, mesmo percebendo o equívoco, têm dificuldade de superar tais contradições.

Constrange-nos registrar situações esdrúxulas em que, por um lado, jovens e adultos perdem a vida por razões fúteis de cenas de ciúme e por atitudes possessivas extremadas, enquanto, por outro lado, poucos estão dispostos a correr risco – nem sequer de perder o emprego – de enfrentar coletivamente situações de evidente injustiça social.

Por outro lado, cumpre enfrentar a questão de se examinar se isso é mesmo da “natureza” de nossa sociedade, ou se tal “naturalização” tem caráter ideológico. É o de que trataremos, em seguida.

 

  1. Estamos mesmo condenados a sucumbir frente à avalanche dessa grade de valores?

 

As mudanças a que assistimos são avassaladoras, em todas as esferas da vida e da sociedade. Não se trata de atribuir a tendência à mudança apenas às sociedades contemporâneas. Sendo as relações sociais fundamentalmente históricas, estão todas as sociedades (as de ontem como as de hoje, a do Brasil como as da África) sujeitas a mudança. O que se deve discutir é, sim, o caráter, é a intensidade, é o ritmo dessas mudanças, nenhuma das sociedades escapando, porém, à dialética da mudança.

É fato, por conseguinte, que as últimas décadas vêm sendo palco de mudanças atípicas, em relação à natureza das alterações produzidas em sociedades de outros períodos históricos. No caso das mais recentes transformações, elas vêm se caracterizando, entre outros aspectos, pela sua profundidade (atingindo de modo extraordinário as mais diferentes esferas da realidade humana e social), pela sua extensão (com amplo alcance territorial ou mesmo mundial), pela sua intensidade do seu ritmo (mudanças que alcançam uma velocidade inusitada). Exemplos disso podem ser mencionados copiosamente. Contentemo-nos, aqui, porém, com o que se passa mais enfaticamente na esfera da cultura, e mais precisamente, no plano dos paradigmas e dos valores. Não raro, aqui se escuta falar na ocorrência de uma “revolução”.

Por outro lado, até por se tratar de fenômeno atípico (do ponto de vista dos aspectos assinalados), essa irrupção de “novos” valores vem acompanhada de não poucos equívocos, dos quais os setores dominantes têm se valido abusivamente, sob a complacência e cumplicidade de representantes das forças que, até há pouco, se reclamavam alternativas ao establishment, seja no âmbito político-partidário, sindical, acadêmico, eclesial, não escapando sequer representantes de movimentos sociais populares.

Para tentar justificar suas novas opções, tais representantes tecem uma multiplicidade de sedutores argumentos. Por exemplo, no campo político-partidário, dão a entender que a onda neoliberal veio para ficar, não tem retorno; as forças do trabalho se acham irremediavelmente diluídas, não contam com a mínima chance de retomar seu lugar; o paradigma marxiano se acha esgotado, já não responde minimamente aos atuais desafios. Diante disso, só resta a alternativa de “dialogar” com os novos paradigmas, e tentar tirar o máximo de proveito…

Na prática, é o que se tem visto ao longo das décadas iniciadas com os governos Thatcher/Reagan, sobretudo a partir dos anos 80.

Para as classes populares, as conseqüências têm sido (e vão continuar ainda por um longo período) desastradas. No âmbito da militância, vai ter lugar uma crescente onda de distanciamento e abandono dos movimentos populares e das lutas sociais por parte de militantes qualificados, em troca de postos nos espaços governamentais e parlamentares (gabinetes partidários, câmaras de vereadores, secretarias municipais, secretarias estaduais, espaços no Congresso Nacional. Onda que seduziu milhares de militantes qualificados.

Neles e nelas as mudanças se dão progressivamente, dos discursos às atitudes. Passam a fazer uso de um novo universo vocabular, agora recheado de palavras-chave como “negociação”, “parceria”, “ação propositiva”, passando, ao mesmo tempo, a apresentar atitudes de crescente conciliação interclassista, condenação de atitudes reivindicativas ou de luta, incorporação de uma postura irenista, ou seja, de paz incondicional, bem ao modo da onda que se convencionou chamar “Lulinha paz e amor”.

O lado cínico dessa postura vem por conta de um discurso que teima em passar uma imagem de fidelidade ao passado: “Mudamos, sim, mas não mudamos de lado”, frase emblemática não raro usada pelo atual presidente do PT.

A ordem agora é negociar, é fazer aliança pouco importando com quem. Há de se reconhecer, ao menos num ponto, sua comprovada eficácia: nos embates eleitorais, terreno no qual também se tem aproximado consideravelmente dos demais “partidos da ordem”. Basta conferir o significativo crescimento do número de seus vereadores, prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores…

Mas, a que preço? Abandono das práticas e dos princípios elementares de seus textos fundantes (Manifesto, Estatuto, Programa…); desmantelamento da organização em núcleos; distanciamento das lutas sociais; abandono do processo de formação classista; progressivo afrouxamento dos critérios de filiação partidária; abandono dos critérios essenciais na definição e celebração de alianças; afrouxamento dos critérios de organização democrática dos comitês eleitorais; sustentação financeira a cargo dos parlamentares e executivos eleitos; distanciamento das bases partidárias em proveito de pequenos grupos que, na prática, monopolizam as decisões do Partido, entre outras.

Atitude, diga-se de passagem, não exclusiva do PT. Seus

aliados históricos não fazem diferente. Inclusive os que ainda se pretendem “comunistas” cuidam de cimentar bem essa tendência, sempre que possível. Às vezes, isso resulta diferente do planejado, como no caso dos deputados e senadora recentemente expulsos do PT. “No PT há ampla liberdade de circulação de opiniões, contanto que se acate a posição da maioria. Falar, pode, divergir também, à vontade, contanto que, na hora do voto, se vote a favor da posição do Partido…” Neste particular, uma das conseqüências é o favorecimento de uma atitude esquizofrênica, estimulando os militantes e dirigentes a sentir uma coisa, pensar uma segunda e fazer uma terceira… Um claro desserviço à coerência ético-política, à medida que se impõe aos filiados uma obediência incondicional às decisões do Partido. Isso, no plano da ética, é sempre trágico, pois, como adverte Giuglio Girardi, toda obediência incondicional a quem quer que seja, torna-se um ato imoral.

Por outro lado, se é verdade que, seja no plano político-partidário, sindical, acadêmico, eclesial ou outro, uma grande parte de pessoas e grupos que antes apresentavam um comportamento típico do que se convenciona chamar de esquerda, hoje se distancia a olhos vistos dessa grade de valores, moldando-se objetivamente aos valores do mercado (ainda que aos mesmos se declarem contrários), não se deve perder de vista um número expressivo de pessoas e alguns grupos que, a despeito de suas próprias limitações, teimam em continuar apostando, na prática e no discurso, numa perspectiva de alternatividade.

 

  1. Que práticas e valores podem inspirar a germinação de saberes voltados para uma sociabilidade alternativa?

 

O fato de estarmos acostumados a navegar no curso das águas que fluem na superfície do cotidiano dificilmente nos propicia acompanhar o que se passa nas correntezas subterrâneas. Isso tem implicações múltiplas. Uma delas mexe com nossas esperanças. Como rarissimamente temos contato com experiências de outro caráter, termina firmando-se em nós a tendência de que as coisas não podem ser diferentes. Ou, mesmo que em nós continue ardendo alguma centelha utópica, não consegue firmar-se no terreno da prática, seja por estarmos relativamente isolados, seja por não contarmos com um clima que nos encoraje a tentar, a ousar, a ir além do instituído, além de uma momentânea indignação, que acaba sendo uma indignação estéril.

À medida, porém, que ousamos chegar perto de experiências alternativas, ainda que moleculares, aquela chama utópica volta a arder de modo não apenas crítico, mas crítico-propositivo, impulsionando-nos a encampar ações grávidas de alternatividade, ainda que se trate de “pequenas” iniciativas, nos mais distintos campos de atuação que as relações do cotidiano nos oportunizam.

A seguir, tratamos de elencar algumas situações concretas que, bem aproveitadas, podem suscitar em nós elementos de reencantamento pela incessante busca de pistas de alternatividade, nas relações do cotidiano.

Ao enfatizarmos aqui situações mais diretamente voltadas à esfera cultural – e mais expressamente a dos valores, em direção a uma cultura política alternativa -, lembramos os laços orgânicos que unem todas as esferas da realidade humana e social, de modo que experiências em qualquer uma dessas esferas implica sempre, de algum modo, interfaces e distintas formas de interação com outras.

Manter o rumo do Projeto implica recuperar, de forma atualizada, o horizonte da classe trabalhadora e da ampla massa dos excluídos – Por outro lado, se esse é o quadro que campeia, não se deve perder de vista que sempre houve, sempre há e sempre haverá quem faça diferente, quem tenha outras apostas. Se ousarmos ensaiar mergulhos nas “correntezas subterrâneas”, vamos verificar experiências alternativas, apontando para uma cultura política alternativa.

Assim agindo, vamos encontrar pequenos grupos e pessoas honradas que teimam em ter uma prática e uma concepção alternativas de se fazer política, a começar por não perderem de vista o rumo maior da caminhada, o compromisso irrenunciável e inegociável com a classe dos-que-vivem-do-trabalho (da qual fazem parte necessariamente, além do contingente cada vez mais reduzido de trabalhadores do setor formal, toda a massa dos excluídos: trabalhadores e trabalhadoras do setor informal, desempregados e desempregadas, os trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, as populações sem-teto ou morando em condições sub-humanas, pessoas portadoras de deficiência, crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas idosas das classes populares, mulheres vítimas da marginalização, moradores e moradoras de rua, presos…), para quem não há partido que consiga substituir a classe trabalhadora. Não adianta que o partido cresça, sem que a classe trabalhadora não seja, ao mesmo tempo, protagonista, gestora e beneficiária desse crescimento.

Manter firme o horizonte e os interesses da classe trabalhadora é o que importa. Esse é o rumo, esse é o horizonte. Essa gente aplica magistralmente, em seu dia-a-dia aquela conhecida afirmação da personagem José Dolores, do filme “Queimada”: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”

Nem todo caminho leva a esse rumo – Não basta, é claro, ter presente o rumo. Já sabendo que a recuperação e a manutenção do rumo são passos decisivos para quem se coloca no seguimento das classes populares, importa também adequar ao rumo os caminhos que para ele apontam. Se é certo, por um lado, que há uma pluralidade de caminhos demandando o rumo, também é certo, por outro lado, que nem todo caminho leva à meta desejada.

Na história das principais revoluções populares ou das mudanças sociais dignas desse nome, o protagonismo se deveu fundamentalmente à ação dos movimentos sociais compostos pelos setores dominados. Nunca e em lugar algum, as mudanças substantivas foram protagonizadas pelas classes dominantes. Destas só se deve esperar o empenho pelo continuísmo e pela ampliação e perpetuação de seu domínio.

Ao longo da História, nunca se registrou que alguma classe dominante tenha abdicado do poder, tenha cedido o poder de forma pacífica. Quando eventualmente as classes dominantes ou alguns de seus segmentos se metem em alguma empreitada reformista, só o fazem para livrar sua pele, entregando os anéis para não perderem os dedos… Inclusive a histórica recente do Brasil está cheia desses episódios, aos quais as próprias classes dominantes se apressam em chamar de “revoluções” (a “Revolução de 30”, a “Revolução de 64”…).

Trata-se, porém, de refletir aqui o papel dos protagonistas das classes populares nas transformações sociais, na perspectiva das classes subalternizadas. E, há séculos – embora ainda mais enfaticamente no Capitalismo, em sua atual fase, dita de globalização neoliberal – desse sujeito coletivo participam forças múltiplas, plurais, distintas, mas não antagônicas. Movimentos populares do campo e da cidade, segmentos profissionais, setores organizados da sociedade civil, partidos…

Nos processos revolucionários dos últimos tempos, dentre os protagonistas coube aos partidos operários um papel mais destacado. Pelo fato de se atribuir ao partido a tarefa central de pensar e conduzir todo o processo revolucionário (projeto da nova sociedade, estratégia e táticas de enfrentamento das classes dominantes, tomada do poder, expropriação da propriedade privada, estatização dos bens de produção, reorganização em bases novas dos processos e organização trabalho e definição dos critérios das novas relações sociais), apenas “coadjuvado” por outras forças, permitiu-se o desenvolvimento de um hiato tremendo entre o partido (que, na prática, tudo decide, transformando-se “representante” exclusivo da classe trabalhadora) e as demais forças das classes trabalhadoras. O resultado, sabemos hoje, foi altamente trágico: em nome da classe trabalhadora, um grupo de privilegiados erigiu-se em ditadura sobre o conjunto da classe trabalhadora.

Ou não foi essa a herança do Stalinismo, cujas marcas continuam disseminadas, inclusive, na sociedade brasileira, especialmente nos espaços governamentais? Pois bem, esse caminho não nos serve, simplesmente porque definitivamente não nos leva ao horizonte, ao rumo que desejamos. Pelo contrário!

Não sendo esse o caminho, qual será? Mesmo que não o tenhamos pronto, porque, como bem nos lembra o poeta, “o caminho se faz ao caminhar”, podemos e devemos reconhecer e procurar veredas que apontem numa direção de alternatividade. Como, então, reconhecê-las? A quem busca é sempre possível reconhecer alguns sinais.

 

Enfrentando a cilada dos caminhos fáceis e atalhos sedutores – Numa sociedade complicada como a nossa, ninguém está imune de sucumbir à sedução dos atalhos. Numa situação de crise aguda, de desemprego estrutural e crescente compressão salarial, é extremamente difícil, por exemplo, a um jovem das classes populares, resistir aos argumentos do convite feito por um amigo hoje completamente envolvido nos negócios da droga: “Você não aceita por quê? Você desempregado, sua família passando necessidade, quando faz um bico, mal dá para enganar o estômago… Enquanto isso, se você topa essa parada, você vai ganhar num dia o que não consegue arrumar num mês…”

Quem disse que algo semelhante não sucede em outros planos, inclusive no escorregadio terreno político-partidário? “Esse negócio de conscientização e de lutar nas e com as bases não dá em nada. O que é que eu ganho com isso? Já no terreno político-partidário, a história é outra. Como assessor parlamentar de um vereador, pelo menos meu emprego está garantido.” O fato é que, seja por necessidade de sobrevivência ou por re-opção, um número expressivo de militantes foi pouco a pouco refazendo suas escolhas, apegando-se aos aparelhos do Partido ou incursionando, cada vez mais fundamente, pelos cômodos espaços governamentais (parlamento, cargos executivos, instâncias partidárias…).

Como? Mantendo o discurso e mudando a prática. Importa todo empenho em dominar argumentos de auto-justificativa, “provando” que tal escolha é melhor para “todos”. O caminho tem que ser o diálogo com todo o mundo. Pelos caminhos democráticos, pouco a pouco, vamos conquistando espaços, progressivamente, até chegar lá, pouco importando o que seja esse “lá”. Importa mesmo é desenvolver atividades que fortaleçam o espaço partidário, é fazer o Partido crescer. Ou mais do que o Partido: minha candidatura ou o meu candidato. Nem se pergunta se basta o engajamento pelo crescimento do Partido. Automaticamente, o Partido substitui a classe trabalhadora.

 

Buscando e assumindo uma agenda alternativa – Deslumbrados com os atalhos sedutores – e nisso também as classes dominantes são especialistas -, não poucos terminam sucumbindo à agenda da oficialidade, mesmo dizendo-se contra. Como o foco da atenção se resume aos fatos e acontecimentos trazidos pela mídia (que repercute exclusivamente a agenda oficial – esse é o seu papel!) são levados aos mais diferentes ambientes, é “natural” que as ações de resistência se tornem reféns desses espaços.

Resultado: vamos centrando a nossa ação de resistência, em nome das classes populares, de acordo com os pontos de pauta do Governo, do Congresso, dos ministérios, das secretarias estaduais, das prefeituras, secretarias e câmaras municipais, das instâncias judiciais, das forças de repressão, dos partidos convencionais, das altas hierarquias das igrejas, das notícias extremamente seletivas da mídia, em breve: vamos organizando nossas ações em função desse cenário instituído, cedendo às suas determinações. “Ah! Não é bem assim”, pode-se objetar, “no Congresso, votamos sempre contrariamente ao rolo compressor dos setores dominantes. Se atuamos nesses espaços, o fazemos para defender os interesses dos trabalhadores”. Até pode ser. O que questionamos é a eficácia transformadora dessa ação. O que adianta votar “Não” num Congresso cuja quase totalidade é composta por prepostos ou representantes das classes dominantes? Qual foi mesmo o sentido do meu “Não”, por exemplo, ao longo das votações das reformas constitucionais? À parte o sentido ético de minha intenção, em que contribuí efetivamente para mudar o quadro atual? Nesse sentido, não apenas não contribuí efetivamente para as mudanças necessárias, como sem querer (?), terminei legitimando/coonestando o processo “democrático”, ao contar com os votos da oposição simbólica.

Não se trata aqui de negar o papel do partido. Trata-se, isto sim, de não dogmatizar as ações do partido. Afinal, o partido não é o único instrumento de luta da classe trabalhadora. Às vezes, nem mesmo o principal. Às vezes, pode até atrapalhar. Não se trata nem satanizar a atuação partidária nem sacralizá-las. A atuação de um partido não deve ser tomada como um fim em si mesma. Tem que estar voltada para os efetivos interesses da classe trabalhadora. Sua atuação depende, portanto, da conjuntura histórica, que pode favorecer ou pode desaconselhar o recurso a esse instrumento. Estimamos que, na atual conjuntura, a classe trabalhadora tem pouco ou nada a ganhar com a atuação em partidos convencionais.

Especialmente em conjunturas com esse perfil, uma pista fecunda é deixarmos um pouco de privilegiar o que anda se passando nas águas que correm na superfície, e voltar-nos com mais empenho para o que anda se passando nas “correntezas subterrâneas”.

 

E o que anda se passando nas “correntezas subterrâneas”? – Nem precisamos abandonar de vez o estamos fazendo. Importa, como primeiro passo, invertermos nossas prioridades do cotidiano, tomando algum tempo para ousar enxergar o que anda se passando noutras passagens (para nós) inéditas ou pouco exploradas.

Não estamos propondo nenhum delírio. Apenas abrirmos os olhos, os ouvidos e o coração a coisas que se passam efetivamente diante de nós ou perto de nós, e que nós não estamos percebendo, limitações nossas.

Que tal considerarmos, na atual conjuntura, o protagonismo dos movimentos sociais do campo? Quem tem chegado mais perto do horizonte que dizemos ser o nosso: as forças de esquerda que atuam exclusivamente na esfera partidária, parlamentar, governamental, ou as forças que atuam nas lutas sociais? Quem protagonizou a conquista de milhares de assentamentos que, se ainda estão longe de ser suficientes, apontam mais de perto para o sonho da Reforma Agrária?

Quem tem investido na formação continuada de seus membros: a esquerda partidária ou a esquerda que vem priorizando as lutas sociais? Quem tem mostrado ações instituintes, mesmo sem apostar em rupturas, no atual quadro sócio-histórico?

Nossa aposta consiste em exercitar um protagonismo classista não mais centrado numa única força (quem quer que ela seja. No caso presente, o partido), mas no efetivo reconhecimento da capacidade criativa e transformadora das mais distintas expressões das forças comprometidas numa transformação social, que respeite o rumo, os caminhos e o jeito de caminhar de seus protagonistas.

Protagonismo tanto mais fecundo quanto construído como expressão viva de saberes e ações de sujeitos plurais de todos-os-que-vivem-do-trabalho e seus demais integrantes (mulheres e homens de todas as idades, de todas as espacialidades, de todas as etnias, de todos os credos, com todas as habilidades artístico-culturais, organizados em movimentos, em sindicatos, em partidos, em inúmeras outras instâncias de base (entidades religiosas, igrejas, escolas, universidades, associações, cooperativas…), caracterizados todos como protagonistas unidos pelo mesmo horizonte de sociabilidade, pelos caminhos que levam a esse rumo, e pelo seu jeito de caminhar.

 

Considerações sinópticas

 

Ao cabo desta breve incursão reflexiva, em busca de saberes que apontem para a construção de uma nova sociabilidade, apesar das dúvidas e incertezas que persistem, emergem pelo menos algumas pistas ou elementos de resposta a algumas das inquietações-chave que tomamos como roteiro de nossa reflexão.

Pelos seus próprios frutos, da sociabilidade que impregna nosso cotidiano e as relações sociais dominantes não se pode esperar senão crescentes manifestações de barbárie, seja no campo das relações de produção, seja no plano das relações de poder (não apenas no âmbito do Estado, mas também nos micro-espaços), seja no terreno das relações culturais (desde a produção da subjetividade à grade de valores dominantes.

Por mais avançado que se ache o processo de putrefação do tecido social, com danos comprometedores (inclusive no plano ético-político), experiências em curso no campo da alternatividade nos restituem a viva esperança de que não se trata de nenhuma fatalidade. Estamos, sim, diante de fatos e situações históricas concretas, ipso facto sujeitas a mudanças.

Neste sentido, se, por um lado, é inútil qualquer esforço voltado a uma pretensa “humanização” desta sociabilidade de mercado, por outro lado, importa ter presente que tais mudanças se situam no campo das possibilidades e não no plano do determinismo, cabendo aos protagonistas a tarefa de assegurar as condições de tais mudanças, no rumo e pelos caminhos que caracterizam o seu projeto de alternatividade.

Seja como for, diante da sociabilidade capitalista, uma coisa é certa: a única atitude digna de seres humanos que se queiram livres, é a de contínuo combate, sob as mais distintas trincheiras.

(julho de 2004)

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