Tea Party tupiniquim

Pergunto-me se chegará a hora de ganhar força no Brasil um movimento político à la Tea Party, dos EUA, cujo líder é a ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, conhecida por ser radicalmente contra o aborto, opor-se ao casamento gay e ser a favor da exploração das reservas petrolíferas americanas localizadas em áreas de proteção ambiental, como as do próprio Alaska. (Nas últimas semanas, Palin vem, inclusive, sendo atacada por parte da opinião pública em função de um ataque sofrido pela deputada federal americana Gabrielle Giffords no último dia 9. Ela foi baleada por um jovem de 22 anos que, para muitos americanos, pode ter sido influenciado pelo radicalismo que tomou conta do ambiente poítico dos EUA. Só para se ter uma ideia, Palin divulgara na internet, antes desse incidente, um mapa do país com alvos sobre alguns de seus colegas opositores que deveriam ser “abatidos” em determinados estados – com a recomendação “não recuem, recarreguem”. Um deles era Gabrielle Giffords…).

Num país – agora falando do Brasil – em que outdoors homofóbicos são instalados em cidades de sua região economicamente mais próspera e de maiores níveis educacionais por religiosos intolerantes; onde um apresentador de TV diz que os ateus são os causadores de todos os problemas mundiais, e que ofende gratuitamente travestis – apenas por serem diferentes daquilo que pensa ser o ideal – bem como outro que incita a violência policial que atinge direta e indiretamente a população mais carente e, contraditoriamente, conseguem a adesão dessa própria gente (o que é expresso nos níveis de audiência de seu programa); onde temas importantes como a discussão sobre o aborto e drogas são deixados no fundo das gavetas de parlamentares em nome da “moralidade”, e apenas usados em ocasiões especiais como armas eleitoreiras, sujas e hipócritas; entre outros acontecimentos embaraçosos para qualquer nação que queira se definir como “desenvolvida”, democrática ou de vanguarda, a formalização de um Tea Party tupiniquim pode ser, talvez, uma questão de tempo.

Se já existem e têm tanta presenca no congresso nacional movimentos como o da Bancada Ruralista, especialista em lobbies que já foram responsáveis pela queda de gente honesta, como Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente), e que agora brindam o povo com um projeto de lei que visa a simplesmente acabar com a já insuficiente e quase sempre desrespeitada preservação dos entornos dos rios, de várzeas e matas siliares; ou como de partidos que insistem em misturar concepções Teo e teleológicas a questões políticas no âmbito de um Estado que, por direito, é laico – a meu ver porque não são capazes de angariar forças por meio de propostas e argumentos relevantes, daí o apelo ao que “Deus” quer/ ordena (o que é sempre uma questão de interpretação…) –, pouco falta para que, no mínimo, uma plataforma política de extrema direita contagie alguns dos partidos existentes. Para que isso ocorresse de fato, bastaria que alguma crise economica ou social mais grave se instalasse no país, abrindo espaço para que a fantasia totalitária começasse a se propagar por aí.

Nada que, no entanto, venha a oferecer, no curto ou médio prazo, riscos da mesma proporção daqueles do caso norteamericano. Lá, ou se é republicano, ou democrata; de extrema direita ou direita; do bem ou do mal, como gostam de interpretar muitos dos eleitores. Aqui, as fronteiras políticas no congresso são mais difusas (e até existe ainda quem se diga “de esquerda”!), de modo que os partidos vêm perdendo cada vez mais identidade – tanto que muitos candidatos pulam de uma coligação a outra sem nenhuma cerimônia, como se estivessem alterando o itinerário de uma de suas viagens internacionais “a trabalho”. Porém, tal advento, ainda fantasioso, seria um alerta; uma comprovação de que o povo – que, no final das contas, é quem apoiaria ou não dito movimento –  ainda precisa ter acesso à melhor educação. Nesse ponto, é importante frisar: não é o caso de os cidadãos apenas aprenderem a ler e escrever os próprios nomes, tampouco tornarem-se aptos a repetir exatamente aquilo que um ou outro autor falou. Trata-se de prover insumos aos indivíduos a fim de torná-los aptos a formar sua própria opinião com base em fontes diversas, as quais, com o passar do tempo, poderão ser selecionadas por eles próprios, à medida que forem adquirindo instrução e interesse para tanto. Npalinão se trata também de ensiná-los a pensar como (pseudo)intelectuais de esquerda, como eu talvez seja tachado com base neste texto. Mas é importante que os brasileiros saibam da existência de visões de mundo que não estão entre as consensualmente aceitas; que se familiarizem com modelos de desconstrução de verdades tidas como absolutas e intocáveis, que  podem oferecer razoáveis bases argumentativas contra determinados entendimentos, sejam estes reducionistas e superficiais, ou não.

A unanimidade é burra, nos lembra Nelson Rodrigues; mas é preciso agregar que a ignorância é puro desconhecimento, o que, por sua vez, é um dos agentes causadores de males como a intolerância e, como numa cadeia ininterrupta, da violência e outras mazelas sociais.

Um comentário sobre “Tea Party tupiniquim”

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