Notícias de Friburgo

No último sábado (22/01), bombeiros ainda retiravam corpos na localidade de Prainha, próxima ao Campo do Coelho, que foi severamente atingida pelas chuvasEstive em Nova Friburgo este fim de semana para distribuir donativos e mapear, junto a psicólogos ligados à Secretaria Municipal de Saúde Mental, regiões que, potencialmente, apresentarão pessoas necessitando atendimento psicológico. O foco de nossa incursão no sábado, 22/01, foi especificamente o Campo do Coelho e redondezas, área severamente afetada pelas chuvas que desencadearam o maior desastre natural do país há cerca de duas semanas.

Colhi, nessa ocasião, algumas informações que podem servir como referência mínima àqueles que ainda pretendem ajudar a cidade por meio de doações. Pelo que notei e, com base em conversas que tive com autoridades e voluntários, agora é o momento de segurar um pouco o envio de donativos pelos seguintes motivos:

1 – Com a expressiva mobilização nacional que se deu em torno da tragédia, a quantidade de donativos já enviados é muito grande e enfrenta problemas logísticos e organizacionais na hora do escoamento, o que sempre dá brechas para desvios e corrupção;

2 – Muitos moradores de Nova Friburgo, bem como das outras cidades atingidas, serão ainda afetados em médio ou até longo prazo. Comerciantes e agricultores que perderam seus negócios, por exemplo, não terão como se sustentar propriamente por algum tempo – pelo menos até recuperarem os meios pelos quais podem exercer suas atividades. Como é natural que a mídia deixe, aos poucos, de destacar a situação da serra fluminense e que os donativos diminuam, é importante que haja reservas para os próximos meses;

3 – Diversos abrigos estão com estoque suficiente de donativos. No Campo do Coelho, por exemplo, há reservas para cerca de duas semanas, informa a responsável por um dos abrigos locais, Elisete Luquez. “Faltam até depósitos para estoque. O momento agora é de cadastrar as famílias pra escoar tudo”, afirma. Informações dão conta de que, nos abrigos do Centro da Cidade, a quantidade de doações é também satisfatória, e que o problema maior é de ordem logística. Por isso, a entrega de donativos diretamente a famílias necessitadas é também uma alternativa a ser considerada.

Assistência psicológica

Além de suprimentos e atendimento médico, é de suma importância que psicólogos se disponham a prestar assistência às pessoas mais afetadas pelas chuvas. Cidadãos que perderam famílias inteiras, além de casa, plantações e negócios, necessitarão desse tipo de ajuda em função do choque sofrido, o qual, possivelmente, provocará seqüelas em termos psicológicos. Quem se interessar em prestar esse serviço, pode enviar um email ao Prof. Raymundo Reis, que coordena uma das equipes de mapeamento da rede social supracitada. O endereço é r.reisneto@gmail.com . O profissional encaminhará as ofertas de assitência à coordenadoria de Saúde Mental do município.

Problemas

Numa região que mais parece ter sido atingida por um terremoto – eu percorri a cidade desde Mury (até esse ponto, quase nenhum arranhão na mata era notado até porque os locais mais afetados foram aquelas das áreas mais baixas, a partir de Mury) até a estrada que leva ao Parque Nacional dos Três Picos, em Teresópolis e, no caminho, acredito ter visto algo entre 50 e 100 deslizamentos, sendo boa parte destes de grande magnitude. Além de lama e poeira, muitas pedras de grande porte, carros e casas destruídos e até cheiro de cadáveres eram recorrentes –, algumas questões problemáticas começam a aparecer em conseqüência da destruição.

– Doenças como leptospirose, além de complicações cardiorrespiratórias já atingem a população, que reclama ainda do fato de animais mortos não terem sido removidos de alguns rios, o que contribui para a contaminação da água;

– Moradores se perguntam também onde estão sendo depositadas a água e lama contaminadas retiradas dos locais atingidos. Lençóis freáticos da região podem estar ameaçados;

– Aliás, o trabalho de remoção do barro e escombros dificulta ainda mais o reconhecimento e a contagem de vítimas, pois as máquinas utilizadas na atividade geralmente trazem consigo pedaços de corpos, e não eles inteiros;

– Falando em corpos, faltam caixões na cidade. Não só porque Nova Friburgo costuma registrar cerca de 150 enterros por mês – e, agora, a previsão é que haja, ao todo, uns 1.500 nos próximos meses – mas em função do fato de que corpos em decomposição exigem caixões grandes (pois ficam inchados), maiores do que os tradicionais. Uma das maiores funerárias da cidade já encomendou mais de 1.000 unidades do Paraná.

Nudec

Certamente que há e aparecerão centenas de outros problemas; os mencionados foram apenas o que apurei em um fim de semana. Outra certeza é que, como se sabe, a tragédia da Região Serrana do Rio poderia ter afetado bem menos gente caso projetos de prevenção como o Núcleo Comunitário de Defesa Civil (Nudec) já tivessem sido implementados nas cidades que foram atingidas. Conversei, em Campo do Coelho, com dois voluntários que atuam pelo Nudec no Rio de Janeiro, avisando pessoalmente comunidades carentes, geralmente em áreas de risco, sobre a iminência de fortes chuvas, o que, muitas vezes, demanda a evacuação do local. Eles me contaram que o projeto, que utiliza o serviço de SMS via celular para obter rapidamente informações meteorológicas, já era para ter sido posto em prática em Nova Friburgo. Segundo os voluntários, processos burocráticos estariam retardando sua implementação.

Um comentário sobre “Notícias de Friburgo”

  1. Olá, também estive em Friburgo esta semana e voltei para o Rio pensando se as autoridades estão informando aos moradores uma forma pouco prejucial de eleminar tantas garrafas plásticas de água, já que a todo momento vi pessoas carregando pelo menos duas delas.
    Esse lixo será mais um descaso que virará problema!

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