TCI leva apoio emocional a alunos universitários

Por Fabiola Tavares

Implantada na Universidade de Brasília (UnB) no ano passado como forma de promover a saúde emocional de estudantes, professores e servidores, a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) cresceu em números e ganhou novo status dentro desse espaço acadêmico, na pandemia de Covid-19. Antes, as rodas de TCI eram presenciais e aconteciam em três campi da UnB, reunindo, em média, 15 pessoas. Hoje, a média de adeptos das rodas virtuais, realizadas desde o final de março com uso da plataforma Zoom por causa do distanciamento social, é de 60 pessoas. E de um projeto setorial, a TCI passou a disciplina para os alunos de graduação, no semestre iniciado em agosto. São três turmas semanais, com cem vagas cada uma delas e o estudante matriculado ganha dois créditos no seu curso. As rodas on-line também são abertas para a participação da comunidade externa.

A oferta de terapia comunitária integrativa na UnB é uma iniciativa da Diretoria de Atenção à Saúde da Comunidade Universitária (Dasu), que em 2019 procurou a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, preocupada com os casos de suicídio e de tentativas de suicídio registrados na universidade, de acordo com a referência técnica em TCI da secretaria, Doralice Oliveira. Foi essa mesma diretoria que criou o Subcomitê Psicossocial de Enfrentamento à Covid-19 e incluiu a terapia comunitária integrativa no subgrupo de prevenção e promoção à saúde. “Além do conhecimento formal é fundamental que a formação acadêmica seja acompanhada de apoio emocional na elaboração de um novo papel social”, afirma Doralice, destacando a importância da criação dessa disciplina. Ela coordena os trabalhos da TCI na universidade

Cada roda on-line dura cerca de duas horas, assim como eram as rodas presenciais, e segue as mesmas etapas destas. Primeiro acontece o acolhimento, em seguida são apresentadas as regras da terapia comunitária, depois feita uma dinâmica de grupo e, por último, os participantes dizem sobre o que desejam falar, listam de três a cinco desses interesses e escolhem um deles para abordar. Nessa última etapa pode acontecer de o terapeuta comunitário levar um tema já definido. Por exemplo, o que tenho aprendido sobre meus relacionamentos nesse momento de pandemia.

Preocupação com o futuro; a incerteza de quanto tempo vai durar o isolamento; a sensação de impotência e de ansiedade pelas pessoas fragilizadas; a frustação por terem parado suas atividades e o medo de contaminar seus parentes eram os sentimentos mais apresentados pelos participantes logo quando a TCI on-line teve início na universidade. Mas também surgiam questões que eram apresentadas antes da pandemia, como a cobrança por produzir mais e o tempo despendido com a internet. Atualmente, algumas das principais preocupações são: dificuldade de administrar tempo, perfeccionismo, auto cobrança exacerbada e relações tóxicas.

Segundo Doralice, que atua com mais cinco terapeutas comunitários – três deles voluntários – os participantes relatam sentir-se melhor com a TCI, pois percebem que outras pessoas estão vivendo sentimentos semelhantes aos seus. E que, mesmo a roda terapêutica sendo virtual, sentem-se seguros e acolhidos, pretendendo continuar na TCI após o fim da pandemia.

João Victor Freitas, 21 anos, estudante de pedagogia, conheceu a terapia comunitária integrativa na pandemia e diz que ela está ajudando-o a ficar calmo com o momento e consigo mesmo. “Tinha hora que ficava ansioso e nervoso. Descontava nos outros. A terapia comunitária trouxe a perspectiva de que não estou só, o problema não é só meu”, conta ele, que destacou características que considera positivas da TCI em relação a psicoterapia de grupo. “Ela é horizontal. A psicoterapia traça um caminho para você chegar. Na TCI a gente fala no eu e não tem conselhos. Fora que é democrático. Todos podem falar. Posso dizer o que estou sentindo.”

Para o estudante George Luiz Caetano, 28 anos, que passou a fazer a TCI em agosto, essa terapia está ajudando-o a resignificar algumas questões que o incomodavam desde que cursava sua primeira graduação – ele é formado em pedagogia – como ouvir que lá estava porque não conseguiu passar em outro curso de maior concorrência. Além disso, esses incômodos foram somados a outros quando passou a estudar medicina, como a concorrência e as cobranças existentes no curso.

“Percebo com a ajuda da TCI como retraí energias e estava carregando bagagens que não preciso carregar. Ela tem me permitido ser um auto gerenciador das minhas emoções”, afirma Caetano. O contato dele com a terapia comunitária despertou seu desejo de conhecer as práticas integrativas e complementares em saúde, como o reiki, e o levou a descobrir mais sobre a história de sua família. Uma das suas avós era benzedeira, uma bisavó parteira e o avô atuava com ervas medicinais.  “A TCI tem sido transformadora em minha vida e está resignificando minha formação médica”.

Cada grupo on-line tem um aluno bolsista da Dasu que faz registro das falas dos participantes, anotando os temas abordados e as superações de cada um deles. Com isso estão sendo criados indicadores, que mostrarão se o tipo de ajuda necessitada pelo participante foi compreendido e se foi o primeiro encontro na TCI, entre outros pontos. Os grupos também estão no Whatsapp, onde podem continuar dialogando e trocando apoio.

Fonte: ObservaPICS

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