Tá difícil, Freixo…

Assistindo à entrevista do Deputado Estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) no Programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (14/5), o pensamento que mais me vinha à cabeça era: “Putz, não vão deixar esse cara chegar a lugar algum. Já é um milagre ele estar onde está. Aliás, só pode ser obra divina Freixo estar vivo”.

Mas, se estou numa democracia, por que então tamanha descrença na eleição de um político (Freixo irá se candidatar à prefeitura do Rio este ano) que, sem sombra de dúvida, é um dos mais articulados, esforçados, bem intencionados e preparados do país?

Em termos práticos, isso ocorre porque, como se sabe, para ganhar uma eleição é preciso angariar recursos suficientes para garantir espaço na televisão – ainda o principal meio de comunicação de massa no país. E, para isso, é necessário contar com “financiamentos” de empresários (vide o caso da empreiteira Delta, grande financiadora do PT, por exemplo), os quais, claro, exigirão contrapartidas, como o próprio Freixo mencionou em sua entrevista.

Além disso, para se tornar um candidato com reais chances, é imprescindível fazer alianças com outros partidos, que, logicamente, também pedirão algo em troca, como cargos públicos na administração municipal.

Assim, não há como um político, por mais bem intencionado que seja, conseguir por em prática, caso eleito, os planos que tinha em mente, pois, se assim fosse, iria de encontro aos interesses de muitos dos empresários e políticos que o apoiaram.

Ao ser sabatinado no programa da TV Cultura, Freixo bateu tanto em tanta gente, que já deu a entender que não fará alianças político-financeiras com qualquer um, mesmo que isso implique em não vencer as eleições. Por isso mesmo, até agora, só garantiu cerca de um minuto na programação eleitoral.

Ainda por cima, o deputado é notório combatente das milícias, que estão, há tempos, infiltradas no governo e farão de tudo para impedir qualquer tipo de ascensão política de Freixo.

O deputado também enfrentará um ambiente, a princípio, favorável às atuais administrações municipal e estadual, que, por causa de um midiático programa de segurança pública, seguem com altos índices de aprovação por parte da população. Para isso, ainda contam com um espaço de propaganda gratuito na televisão – afinal, não dá para chamar de jornalismo a cobertura dos principais veículos da mídia no Rio nos dias de hoje. O que fazem, me parece, é basicamente jogar a sujeira para baixo do tapete até que a Copa e Olimpíadas aconteçam.

Eu diria que, desde a cinematográfica fuga de bandidos do Alemão, em 2010, tudo o que as principais emissoras de TV e jornais da cidade fazem é levantar o moral do carioca. Não que isso seja ruim; mas tudo tem um limite. Claro que há melhorias urbanas e tal, mas dizer que ocupar 19 favelas em mais de mil, empurrando, irresponsavelmente, a violência para outros bairros da cidade e municípios vizinhos – além de manter a relação autoridades/favela baseada no aparelho repressor do Estado – é a solução, é forçar demais a barra.

Enfim, Freixo terá de enfrentar todos esses desafios, os quais são consequência de um modelo específico de democracia. Com isso, quero dizer que, o que existe no Brasil – assim como em muitos outros lugares do mundo, em diferentes nuances – não é a democracia em sua forma ideal, mas uma espécie de metonímia democrática, isto é, apenas uma parte de um todo.

A cada dois anos, o povo vota e o emocionante exercício democrático é exaltado nas redes de televisão. Os políticos prometem mundos e fundos, nós fingimos que tempos participação política e que fizemos nossa parte e, durante os quatro anos seguintes, sequer lembramos dos políticos em que votamos. E estes seguem ficando mais ricos e poderosos, ao lado de grandes empreiteiras.

Portanto, se fizermos uma análise um pouco mais subjetiva – mas, nem por isso, menos realista –, veremos que os mesmos mecanismos que estão presentes em regimes totalitários também dão as caras em democracias como a brasileira. Eles se expressam no que chamamos, por exemplo, de currais eleitorais, nas indecentes alianças políticas que descaracterizam qualquer programa partidário e nas “parcerias” entre governantes e empresários. E olha que esse é o lado positivo da história. Não vamos nos esquecer dos grupos de extermínio, das milícias, e outras formas de intimidar quem quer que esteja querendo mudar as coisas, radicalizar ou botar a boca no trombone.

Claro que nada do que estou falando é novo. Basta olhar para meados do século passado, quando Theodor Adorno, criador da expressão “indústria cultural”, em seu exílio nos Estados Unidos, apontou diversas similaridades entre o que ocorria no “país da liberdade” e na Alemanha nazista. Mas é bom lembrar, de vez em quando, que isso ocorre bem debaixo de nossos narizes, em um país que é constantemente exaltado (por investidores estrangeiros, principalmente) pela estabilidade de suas instituições e por sua democracia consolidada.

 

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