“Somos cada vez mais agredidos simplesmente porque somos diferentes”

“A ONU tem 350 resoluções e até hoje não conseguiu resolver o conflito. Se em 63 anos não houve avanços, e sim retrocessos, algo tem que romper com esse ciclo”, afirma o embaixador. Foto: Unic-Brasil.

No último dia 29 ocorreu o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, e o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (Unic-Brasil) realizou na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) um debate com o embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Al Zeben. Antes do debate ele apresentou um vídeo denunciando que os muros de mais de 8 metros construídos nos territórios palestinos, destruindo mais de 108 mil árvores, chegarão a mais de 700 km reduzindo o território palestino para 11% do acordo original junto aos assentamentos. Em entrevista ao Fazendo Media, Zeben critica as ocupações militares israelenses, com mais de 640 barreiras militares, e ao apontar uma crise humanitária compara a situação da Palestina com o apartheid instalado na África do Sul no século passado.
Eu gostaria que você começasse falando sobre a Palestina, as dificuldades que são enfrentadas no país…
A Palestina é um território com uma ocupação militar israelense com controle total de Israel. É constituída por dois territórios: a faixa de Gaza, que está sob o bloqueio israelense completo; há mais de três anos o Hamas ganhou as eleições. E o território da Cisjordânia, que é praticamente a maior parte do território, também está totalmente ocupada. A única diferença é que Gaza está sob o bloqueio, então não entra mercadorias, alimentos, a não ser os mais elementares.
E isso afeta de que forma o povo palestino no dia a dia?
Isso obviamente está criando uma crise humanitária na Faixa de Gaza. Faz quase dois anos, desde que Israel fez aquele ataque genocida contra o seu território, onde morreram mais de 1.400 palestinos, a grande maioria mulheres, meninos, jovens e idosos. A ocupação é a causa fundamental de toda a nossa desgraça palestina, ela significa falta de movimento, falta de liberdade, falta de território, falta de estado. Nós não conseguimos construir nosso estado precisamente pela ocupação, e a ocupação tem várias manifestações: a mais grave é a militar. Pela força militar obrigam a população a um estado de estilo específico de vida, onde são privados de suas liberdades mais elementares. Não podem sair de um lugar para outro sem passar por dois ou três controles militares. Você pode imaginar um território de 6 mil km², tem mais de 600 barreiras militares.
Sob influência também da ONU?
Não, estou falando dentro do território palestino, ocupações de Israel. Ninguém opera no território a não ser a ocupação militar israelense. É algo semelhante a aquele regime dos anos 70, do apartheid, da segregação racial, da África do Sul. Onde os colonos, invasores do território palestino, foram transportados pelo governo de Israel para ocupar posições e criar pequenas cidades e aldeias. Eles praticamente mantém, com o apoio do exército, o povo palestino como cidadãos de segunda categoria. É muito semelhante, muito válida a comparação entre a situação da Palestina e a situação da África do Sul nos anos 70. Chegou um momento em que a comunidade internacional disse chega, e esperamos que esse momento também aconteça na Palestina. Que a comunidade internacional diga chega de ocupação, discriminação, de orpressão a um povo que merece ter a sua liberdade e independência.
Um ponto que é difícil de se tratar é o radicalismo, como você vê essa questão?
Existe uma lei física que dá para aplicar também no social: cada ação tem uma reação equivalente e contrária. Se tem muito radicalismo é porque tem muito radicalismo do outro lado. Eu acho que o maior radicalismo que existe na região é a ocupação. Um ocupante priva você do seu direito e então você reage com a mesma intensidade, pode não ser com os mesmos meios, para fazer valer os seus direitos. O maior problema nosso é o radicalismo israelense originário que causou todos os nossos problemas até o dia de hoje. Que nos privou de todos os nossos direitos até o dia de hoje. Se não tivesse a ocupação não existiria Hamas, Jihad islâmico, não existiria nem sequer a OLP ou o Al Fatah. Não era necessário, existiriam outros partidos tipo o PT, PSDB, PMDB aqui no Brasil, com características específicas sócio políticas e econômicas. Só que lá é uma nação que trata de oprimir a outra nação, e cada nação tem as suas manifestações políticas. Por um lado a ocupação israelense tem seu radicalismo através do exército,dos colonos, e da política de segregação racial. E nós temos nossa reação através de movimento político militares de resistência, que eu acho normal. Se querem cessar a violência tem que cessar a ocupação. Na medida em que vai diminuindo a intensidade da ocupação até chegar o seu fim, o radicalismo chegará ao seu fim.
E os conflitos internos na Palestina, qual a sua visão?
Nós estamos há três anos tentando chegar a um acordo com o movimento islâmico Hamas, que está controlando a Faixa de Gaza. Esperamos que muito em breve, com a ajuda dos nossos irmãos, especialmente o governo do Egito, consigamos consertar e assinar aquele acordo chamado iniciativa egípcia. Eu acho que avançamos bastante nesse sentido, esta tem sido uma das partes mais dolorosas para o povo palestino durante esses 63 anos de luta. Porque esse comportamento e esse conflito são alheios às nossas tradições de luta, e esperamos muito em breve poder consertar e alcançar um acordo definitivo sobre a base de respeito à nossa tradição de luta palestina.
Como é o diálogo do governo brasileiro com o palestino?
Eu acho que o clímax dessa relação foi manifestado em novembro no ano passado, quando o presidente Habbas visitou três cidades brasileiras (Salvador, Porto Alegre e Recife) e também quando o presidente Lula visitou a Palestina. Mantemos relações excelentes com o Brasil, praticamente com todos os partidos políticos, tem um consenso aqui no Brasil favorável à justa luta do povo palestino: ao estabelecimento do estado da Palestina lado a lado ao estado de Israel. As relações comerciais são insipientes, porque como já falei estamos sob ocupação e para manter qualquer processo comercial é preciso a minha independência. Se não, todas essas coisas estão se realizando sob a tutela e supervisão do estado de Israel. E isso obviamente incomoda, nossa economia está praticamente à mercê da ocupação israelense.
Se nada entra nem sai, como se faz, por exemplo, a auto sustentação alimentar na Palestina?
Tudo tem que passar pelo lado israelense. Temos produção interna, vamos supor que nós produzimos verduras na parte norte da palestina, em Genin: os caminhões têm que viajar do norte a sul, têm que passar pelos check points, pelas barreiras. Se você vai exportar para a Jordânia tem que passar pelos controles aduaneiros israelenses, então nossa vida, praticamente o ar que respiramos, depende disso. A água que tomamos, a eletricidade, tudo depende da ocupação israelense. Minha água é revendida por uma companhia israelense para nós.
Como você vê a cobertura da mídia internacional sobre a questão palestina? Porque a impressão que dá é de que ela só entra em pauta em momentos críticos…
Sim, senhor acabou de fazer a pergunta e a resposta. Nós sentimos uma desvantagem, quando a situação é tão flagrante que não dá para esconder a mídia faz a cobertura nos primeiros três dias. Se você acompanhou aquela guerra de genocídio em dezembro, no dia 27 de dezembro de 2008, você observa que a intensidade foi diminuindo. Os primeiros cinco dias foram de condenação, depois mais cinco tratando de apaziguar, e depois praticamente condenando a vítima: porque se não foi pelos foguetes do Hamas não teria acontecido. E assim foi depois ao acontecimento.
A mídia neste caso, lamentavelmente, não acompanha. Se tivesse acompanhado, desde 1948 vivemos um genocídio contíonuo, uma limpeza étnica continua, uma discriminação racial, falta de direitos humanos. Se tivesse um acompanhamento da mídia como foi dado na década de 70 na África do Sul, teria acabado o apartheid israelense e teríamos já relações formais com a sociedade israelense. Isso é o que nós pretendemos, nós já reconhecemos Israel, o que falta é que ele nos reconheça. Como vai reconhecer? Com pressões, obviamente. Tem que se convencer de que não podem continuar fazendo o que estão fazendo, temos que pressionar para que eles parem de assassinar, de ocupar, que é o maior flagelo que vivemos no povo palestino. A mídia não está sendo imparcial, pelo contrário, é uma mídia parcializada.
Mas por quê?
Porque as grandes agências e monopólios de mídia estão nas mãos de israelenses ou de judeus, você pode averiguar isso aqui mesmo no Brasil. Então aí está o pecado, isto dá mais agonia, o fato de não acompanhar o que está acontecendo na Palestina é prejudicial tanto para israelenses quanto para palestinos. Porque isso prolonga esta agonia entre os dois povos, quer dizer mais vítimas, mais rancor, mais ódio, e se aplicamos essa lei física vamos precisar de mais tempo para sarar as feridas e os traumas produzidos por essas guerras.
Você citou duas vezes essa última crise. Muito se falou sobre a demora e a forma como os Estados Unidos se manifestou nesse episódio. Como você vê posição dos EUA em relação ao território palestino?
Eu acho que os Estados Unidos é um parceiro que sempre foi favorável ao estado de Israel. Eu não acredito que essa fórmula tenha mudado, só que o mundo está mudando e, portanto, a própria composição nos Estados Unidos vem acompanhando essas mudanças a nível mundial. Sem dúvida a eleição de Obama consideramos um fato talvez revolucionário norteamericano, consequentemente deve haver algumas mudanças relacionadas com o conflito. Os Estados Unidos não podem seguir a qualquer custo apoiando Israel no que está fazendo, isso já seria ir frontalmente contra o mundo. Israel nunca teve a razão, sempre foi um país invasor apoiado pelos Estados Unidos e muitas potências ocidentais. Agora, não haverá solução, pois vivemos num mundo unipolar, na região, sem ter uma intervenção direta, efetiva e ativa e decisiva por parte dos Estados Unidos; neste caso, por seu presidente. Eles estão pressionando, acreditamos que se mantém essas intenções e impressões, e vamos conseguir o que nós sempre desejamos: uma paz justa, duradoura e global.
Eu acho que a causa de muitas instabilidades no mundo têm sido a questão palestina. Por isso é uma necessidade dos Estados Unidos, do ocidente, do oriente, dos países islâmicos, dos países árabes, inclusive latinoamericanos, de intervir e pressionar para que consigamos palestinos e israelenses se aproximarem e superarem os traumas de 63 anos de guerra contínua. Não existe uma solução militar para o conflito.

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