
“A Folia de Reis é um movimento muito forte. Apesar dos problemas, as pessoas se unem para não perder essa cultura. A resistência cultural é uma boa definição para essa exposição”, afirma Emrah Kartal, jornalista turco que retratou a típica manifestação cultural do Cariri, no sul do Ceará. Além das fotos e vídeos registrados por ele, há também músicas, esculturas e artesanatos da região na exposição multimídia “Terreiro em Movimento”, inaugurada sexta-feira (9), no Rio de Janeiro.
Sua visão artística sobre a Folia de Reis ficará dois meses no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, bairro cultural carioca, e segue para a Universidade Técnica do Oriente Médio, em Ankara, Turquia. Na programação também está previsto apresentações em Fortaleza, Juazeiro do Norte e São Paulo. A mostra apresenta ao público das capitais histórias do interior do país, de lugares de onde muitos brasileiros partiram para as grandes cidades, levando a reflexão sobre o nosso patrimônio cultural, que também será difundido no exterior.
Elementos de Outros Países

Kartal é também sociólogo e veio concluir sua tese de mestrado sobre povos no Brasil. Em Juazeiro do Norte, no Ceará, onde ficou três meses, se encantou com o ritual e as emoções transmitidas nas manifestações populares. Ao perceber a tradição daquela cultura nas ruas, viu também elementos de outros países nas músicas, danças, cores e roupas. Buscando retratar esse folclore, ele, que é integrante do Partido Comunista turco, assume um olhar político e espera apresentar uma analogia à resistência cultural de outros países.
“A Folia de Reis faz parte de um projeto grande sobre povos no Brasil que têm origem no outro lado do mundo, mas que existem na cultura brasileira. Todos conhecem o Oriente Médio, por exemplo, com guerras, mas nós também gostamos de manifestar nossa cultura, brincadeiras, músicas e danças. Aqui o povo é muito alegre, há motivação de brincar, velhos com crianças. Eles têm problemas, o bairro João Cabral é de subúrbio, as pessoas são trabalhadoras, mas muitas não têm empregos. Então todas as gerações estão tentando viver da sua cultura. Criaram associações para fazer um trabalho coletivo e dividir o que eles ganham”, explica.
Folia de Reis e Juazeiro do Norte

A Folia dos Reis é uma das manifestações populares mais ricas do folclore brasileiro. De origem portuguesa, a festa é ligada às comemorações do culto católico do Natal. Apresenta um caráter profano-religioso, entre 24 de dezembro e 6 de janeiro, quando se realizam as reverências ao nascimento de Jesus Cristo. Seu nome tem origem na passagem bíblica que se refere à visitação dos três Reis Magos ao menino Jesus.
Organizada por mestres, que são responsáveis por manter viva a tradição, a manifestação popular conta também com palhaços, reis magos, coro, dentre outras características representadas pela população local. Tudo é regido segundo os costumes passados de geração a geração. No dia 6 de janeiro dezenas de grupos saem às áreas urbanas de forma espontânea, contagiando as ruas em ritmo de festa e percorrendo as casas pedindo presentes para o menino Jesus. Em Juazeiro do Norte, espécie de local sagrado, terra de Padre Cícero, o artista teve a oportunidade de vivenciar a passagem de homens, mulheres e crianças vestidas de reis, rainhas e príncipes pelas ruas. Em romaria atravessando ruas, praças e igrejas, ele observou rituais dos diversos folguedos, como as bandas cabaçais, os grupos de Reisados, Guerreiros, Lapinhas, Maneiro-Paú e tantos outros que representam a história oral deste local.
Folclore e indústria cultural
Idealizadora e produtora do projeto, Beth Fernandes é nascida e criada no Ceará e veio para o Rio de Janeiro se formar em produção cultural na UFF para se profissionalizar e capacitar os agentes culturais de sua região. Ela conta que sempre busca enaltecer a cultura e identidade cearense, pois respira essas manifestações desde quando criança trabalhava como camelô e observava as romarias no Cariri. Fernandes chamou Emrah Kartak para colocar em prática seu projeto, que foi contemplado no edital de audiovisual da prefeitura do Rio, realizado em 2011.
“A Folia de Reis é um movimento muito rico na região do Cariri, no Ceará. Eu me criei vendo esses folguedos que estão inseridos nesse universo da tradição. E vejo que é um produto cultural em potencial, então resolvi fazer esse trabalho porque conheço grupos e sei que o movimento artístico lá é muito organizado. Porém, o pessoal da cultura popular não tem ferramentas e conhecimento para se inserir nesse universo de mercado e valores que regem a economia da cultura”, afirma a produtora cultural, que durante três meses deu oficinas de produção cultural a cinco grupos locais e entrevistou mestres na região.
Linha Tênue
Para ela, no entanto, há uma linha muito tênue na relação do mercado com as raízes culturais. A própria palavra cachê mexe muito com os grupos da tradição regional, e com a aparição nos últimos 12 anos de centros culturais, mostras e festivais, os artistas estão passando por um processo de adaptação. Os agentes são deslocados de seu habitat natural e têm regras a atender nos contratos, como a fixação de horários, locais e datas para os eventos, mas sabem jogar com o sistema da indústria cultural. Beth acredita que essa formatação do mercado é limitadora, mas os mestres não são bobos e sabem conservar suas raízes.
“Um mestre diz que para conhecer o Reisado você tem que ficar 3 dias e 3 noites acompanhando as histórias. Isso ele faz no terreiro da casa dele, por isso que a gente trás isso para a exposição: a rua, a frente da casa, a terra. Eles estão além do mercado, dão a volta por cima no sentido de se adaptar para ganhar dinheiro porque precisam. Mas dizem que se quer conhecê-los de verdade é preciso ir no terreiro deles. Isso não está barrando a manifestação espontânea dos grupos, eles continuam fazendo suas terreiradas, dá para conciliar no sentido da consciência deles. Eles vão para poder dialogar e não ficar fora desse universo, nos novos meios de mídia e comunicação, porque são artistas”, concluiu Beth Fernandes.
Serviço:
Quanto: entrada franca
Exposição Multimídia Terreiro em Movimento
Local: Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, Rua Monte Alegre 306, Santa Teresa-RJ
Data: 09 de março a 06 de maio de 2012
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h
Mais informações no telefone (21) 2215-0618
Ficha Técnica:
Proponente: Associação Gira Mundo
Artista: Emrah Kartal
Curadoria: Leonardo Guelman
Concepção e realização artística: Emrah Kartal
Montagem de infra-estrutura e artística: Anderson Barroso
Coordenação de Produção: Elizabeth Fernandes
Produção Executiva: Eduardo Lopes
(*) Matéria publicada originalmente na página da Caros Amigos.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/
