Sobre mídia e política

1) O povo do Rio de Janeiro possuía um metrô, construído com o seu dinheiro e inaugurado em 1979. Quase vinte anos depois, em 1997, ele foi privatizado na crista da onda neoliberal. Hoje pertence a uma empresa operada pelo grupo do banqueiro Daniel Dantas. Devido à má administração, a concessionária está em litígio com o governo do Estado.
1.1) O governo do Estado pertence ao povo do Rio de Janeiro, que vota em seus representantes. Para enfrentar o litígio com o governo do Estado, Daniel Dantas contratou a esposa do governador Sérgio Cabral, a advogada Adriana Ancelmo. Sobre o evidente conflito de interesses – que as corporações de mídia ainda não viram –, o mandato do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) fez um programa de TV de 30 segundos, que vinha sendo inserido no espaço da “propaganda eleitoral gratuita”. O PMDB entrou com ação e a Justiça, acredite, retirou o programa do ar. Fica a pergunta: a quem, de fato, pertence o governo do Estado do Rio de Janeiro?
2) Converso com uma médica sanitarista e ela me conta a seguinte história: um jovem de 19 anos sente uma dor abdominal intensa e vai para o hospital. É atendido pelo médico plantonista às 21h. Toda a ficha é preenchida corretamente, todo o atendimento é feito dentro das normas e o diagnóstico é cirúrgico. E urgente. No entanto, às 15h do dia seguinte o garoto segue sem ter sido operado. A médica sanitarista vai cobrar o colega: “Meu amigo, esse garoto vai morrer se não for operado! Não basta seguir o protocolo, tu tens que te interessar!”.
2.2) Assisto ao filme argentino “O segredo dos seus olhos”. É inteligente, denso, instigante. Vale a pena ver. Trata de um assassinato que só é desvendado em razão da obstinação do companheiro da vítima.
2.3) Repare que nos dois casos há algo em comum: o procedimento estritamente profissional é correto, mas não suficiente para garantir o resultado esperado. O fator decisivo, em ambos os casos, é o interesse em resolver o caso. O que me lembra que o jornalista mesmo, aquele que vai além da técnica, é um combatente, conforme nosso juramento profissional: “A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade”.
3) A revista Caros Amigos lança, nesta semana, edição especial sobre direita brasileira. São nove tópicos: Política, Economia, Direitos Humanos, Cultura, Mídia, Movimentos Sociais, Educação, Judiciário e Repressão. Segue o editorial nos itens abaixo:
3.1) A direita brasileira continua muito atuante, tem uma agenda própria e articula ataques em várias frentes contra o que pode ameaçar seus interesses. O oligopólio da mídia neoliberal-burguesa expressa exatamente o que quer e o que faz a direita, que atua nas instituições públicas, nos poderes da República, nos bastidores da política e da economia. A direita cuida especialmente da defesa do capital, das vantagens econômicas do empresariado, dos privilégios patrimoniais das elites e do poder político das oligarquias.
 
3.2) Desde o final do ano passado a direita brasileira cerrou fileiras para enterrar de vez o esclarecimento dos crimes praticados pelo Estado na ditadura militar (1964-1985), em especial o que foi suscitado pelo 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos, lançado em dezembro, e que levou o presidente da República a fazer alterações ao gosto dos setores mais reacionários. A direita não quer saber de Comissão da Verdade e da Justiça, não quer passar a limpo a história da prisão, tortura, morte e desaparecimento de opositores políticos.
 
3.3) A direita ataca as propostas de democracia participativa, tudo o que possa aperfeiçoar o sistema representativo e assegurar ao povo o papel de sujeito da história. A direita critica a realização de conferências nacionais que possibilitam a formulação de políticas públicas, assim como as propostas de plebiscitos e referendos para as grandes definições nacionais.
 
3.4) Amarrada aos pontos do Consenso de Washington, mesmo com o fracasso e a crise do neoliberalismo em todo o mundo, notadamente na América Latina, a direita brasileira continua defendendo a privatização de serviços públicos, rodovias, portos, aeroportos, educação e saúde – apesar da péssima prestação de tais serviços pelas empresas privadas.
 
3.5) Ao mesmo tempo rejeita, com muita força, todas as medidas que possam melhorar as condições de vida e trabalho do povo brasileiro. No momento, ataca a redução da jornada de trabalho para 40 horas e a mudança nos critérios das aposentadorias. A direita não tem o menor interesse que os trabalhadores conquistem uma vida com dignidade, que as leis trabalhistas sejam cumpridas.
 
3.6) A direita não se importa com a construção de um País mais justo, que assegure igualdade de oportunidade para todos, que amplie direitos, que trate do bem-estar das pessoas antes do lucro e do sucesso das empresas. Conhecer mais sobre a direita é identificar quem realmente tem prejudicado o Brasil.
4) Luiz Carlos Azenha edita um blog democrático e emplaca uma excelente série na TV Brasil sobre a África, continente raramente visitado pelas corporações de mídia. Hoje, o Globo o ataca na primeira página. Faz todo o sentido.

Um comentário sobre “Sobre mídia e política”

  1. O caso de Daniel Dantas e Marcos Valério parece caracterizar-se como o feitiço que se voltou contra o feiticeiro. Foram buscar financiamento de campanha nas mãos desses caras ao invés de apostar num partido de massas com auto-financiamento…agora, o que era somente pequeno ou médio capital, ganhou espaço e tem uma fome devoradora. Mas é claro que eles sabiam que mais adiante, mais sedo ou mais tarde, levariam uma rasteira qualquer. Esse, também foi o caso das alianças com o Rouberto Jefferson. O que aconteceu? A mídia, que os sustenta, fez, e faz agora a blindagem; seqüestra governos, como é o caso do Rio de Janeiro, e transformou os vilões em heróis Nacional denunciadores do “mensalão”, que sempre houve, mas quem veio da luta junto com os de baixo teve de “pagar o pedágio” e se descaracterizar como referência ética alternativa ao poder corrupto burguês das elites dominantes . Quem se aliou com eles, ficou caracterizado pela mídia terrorista como “do mau”. Esses chefes de quadrilha souberam, em razão das alianças com sociais-democratas, muitas contradições que utilizam hoje como poder. Aliciar até mesmo a mulher do governador, e, através dela, condicionar as decisões governamentais é uma realidade. Esse governador é um cínico e covarde: para não correr o risco de morrer, preferiu ser marionete da direita e sair exterminando a juventude negra e pobre nas favelas. É um assassino alegando “Estado democrático de direito.”
    O pior é que, com o apoio dessa mídia terrorista e oligopolista, tal qual o anterior governador Garotinho, que teve o governo seqüestrado logo após as ameaças de morte ao secretário de segurança Luis Eduardo Soares, com a conseqüente ascensão de um dos quadros da máfia policial Álvaro Lins, Sérgio Cabral, já pretende fazer carreira política, também, porque o seqüestrado passa a usufruir das benesses e as promissoras perspectivas mantendo-se no cativeiro. Talvez, futuramente, como se descobriu recentemente as ligações corruptas do Garotinho com a TV Globo via pai da atriz Débora seco: o testa-de-ferro da mafiosa e terrorista emissora.
    O metrô do rio de Janeiro está insuportável de tanta lotação. O negócio com transporte público para dar lucro é: com um mínimo de investimentos e custos de rodagem transportar o maior número possível de passageiros pagantes. O cálculo está na tal fórmula do IPK = Índice de passageiros por quilômetro (à baixo custo).
    A super-via investiu até em treinamento de pessoal para dar porrada no povo e empurrar para dentro do vagão mesmo que não caiba mais ninguém. É uma mina de dinheiro! Isso é o poder local.

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