Sob o céu de Aldebarã

A poluição luminosa da cidade me roubara o céu de estrelas da minha infância. Desde então, tornar a vê-lo ficou cada vez mais raro. E um desses momentos mágicos e raros ocorreu durante as festas juninas deste ano, enquanto hospedado no sítio de uma amiga no sertão paraibano de Teixeira. Passageiro agora das noites claras e frias do Sertão, avistei de novo a Via Láctea atravessando o céu do meu passado, com sua faixa esbranquiçada de estrelas e nebulosas. E eles estavam lá, com seu costumeiro brilho: o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e as constelações de Centauro, Sagitário e Escorpião.

Alegrei meu coração
Em terras de São Francisco
Ao chegar, no toca-disco
Soou “Naquele São João”.
Deslizei pelo salão
O semblante já risonho
Se outrora estive tristonho
Minh’alma agora está sã,
Dalvinha, a anfitriã
Faz dos meus dias um sonho.

A quadrilha me convida
Eu já ouço o rebulício
O som do Trio Maurício
Conheço pela batida.
Vou pegar uma bebida
Sem ela eu me indisponho…
É um desejo medonho
Uma ânsia temporã,
Dalvinha, a anfitriã
Faz dos meus dias um sonho.

O pensamento mais leve
E de coração aberto
Com meus amigos por perto
A tristeza não se atreve.
Mas se vier, seja breve
Que logo me recomponho
Com Jo-ão, Pedro e Totonho
E o brilho de Aldebarã,
Dalvinha, a anfitriã
Faz dos meus dias um sonho.

À noite olho para o céu
Extasiado ao vê-las
Eu sou poeira de estrelas
Chovendo sobre Bornéu.
Quando acordo ouço o xexéu
Ao ouvi-lo então componho
Mais um poema bisonho
Criado assim, no afã,
Dalvinha, a anfitriã
Faz dos meus dias um sonho.

Martim Assueros
Sítio São Francisco, São João de 2025

Foto: Espaço-Tempo

 

Um comentário sobre “Sob o céu de Aldebarã”

  1. Que belo e tocante relato! Seu poema cheira a fogueira, a milho assado e a orvalho da madrugada sertaneja, embalado pelo forró. Parabéns por essa inspiração tão genuína e por nos lembrar que o maior espetáculo da Terra (e do céu) ainda está nas coisas simples e autênticas.

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