Síndrome do Nariz Vazio (SNV): relato da paciente Emmanuelle Almeida

Meu nome é Emmanuelle Almeida. Sou administradora, casada e tenho dois filhos, o mais velho com 16 anos e o caçula com 4 anos.

Em 2020, época da pandemia, descobri uma gravidez aos 42 anos. Uma surpresa para todos, embora uma novidade muito bem vinda. Desde o inicio foi uma gestação difícil, com risco de pré eclampsia, pressão alta e dispneia do sono, pois desenvolvi uma rinite gestacional severa, que me fazia passar muito mal sem respirar nem dormir. Nunca tive problemas respiratórios antes, foi tudo por conta dos hormônios da gravidez. Eu não podia usar descongestionante, pois, devido à pressão alta, não era indicado.

A dificuldade para respirar estava tão incômoda que procurei um otorrinolaringologista em busca de algum alívio. Ele então passou um corticoide oral, que não resolveu. Perguntei se haveria mais alguma opção. Ele respondeu que poderia fazer uma cauterização nos cornetos nasais apenas para murcha-los um pouco. Eu fiquei con medo, perguntei se não seria arriscado fazer na gestação, uma vez que a anatomia nasal estava toda alterada devido ao hormônios. Perguntei também dos perigos da anestesia nessa condição e do pós operatório. Ele disse que não teria problema nenhum, que poderia fazer com anestesia apenas local, que o pós operatório era muito tranquilo e que eu já sairia respirando bem melhor do próprio hospital. Não aceitei de imediato, fiquei de pensar e dar uma reposta. Meu marido sempre me acompanhava em todas as consultas e presenciou tudo o que foi conversado.

Como continuava passando mal, sem dormir direito, acabei aceitando fazer a tal cauterização. Uma vez que o médico afirmava que era tudo muito rápido e tranquilo. Fui submetida ao procedimento no dia 3 de novembro de 2020, aos cinco meses de gravidez.

Na primeira semana já notava que tinha algo errado. Sentia muita dor e a dificuldade de respirar estava maior. O médico só sabia dizer que estava tudo bem. Após um mês da cirurgia não havia melhora alguma e as dores só pioravam cada vez mais. O médico veio dizer que meu problema era porque eu pensava demais e que eu tinha que ir a uma psiquiatra para tomar remédio para ansiedade. Procurei, então, outro otorrino, que disse que meus cornetos tinham ficado “no osso” (palavras dele) e que tinha uma infecção, que precisava tomar antibiótico. Tudo isso ainda na gravidez…

Se antes eu não conseguia dormir bem, agora eu não conseguia dormir de jeito nenhum, com uma queimadura aberta em carne viva dentro do meu rosto. Respirava brasa e gritava de dor! Tive que tomar antibiótico novamente por conta de outra infecção e também corticoide injetável, pois estava tendo contrações antes do tempo.

Quando meu filho nasceu eu mal podia enxerga-lo, pois a lesão nasal comprometeu também meus olhos, devido à proximidade. Foram meses de luta, sem conseguir cuidar direito do meu filho recém nascido. Minha mãe é falecida ha muitos anos e não tenho irmãs. Familiares ajudaram financeiramente para contratarmos duas pessoas: uma para cuidar da casa e outra para cuidar do bebê. Minha sogra também teve que vir de longe. Tudo isso em meio à pandemia…

Foi uma peregrinação por diversos otorrinos. Nenhum sabia o que fazer. Finalmente (e já sem esperanças), fui a um médico que foi o único capaz de dar o diagnóstico correto: Síndrome do Nariz Vazio. Chorei no consultório, pois, enfim, encontrei um profissional que sabia o que estava falando. Ele me mostrou com detalhes, tanto nos exames de imagem, como na vídeo endoscopia nasal, que não tinha como eu respirar bem, uma vez que boa parte dos meus cornetos nasais haviam sido amputados.

A Síndrome do Nariz Vazio (SNV) é uma condição iatrogênica grave, frequentemente subdiagnosticada, que afeta pacientes submetidos a cirurgias nasais como turbinectomia ou turbinoplastia, especialmente quando realizadas de forma excessiva ou agressiva. Esses procedimentos removem parcial ou totalmente os cornetos nasais — estruturas fundamentais para o bom funcionamento da respiração, pois umidificam filtram e aquecem o ar inspirado.

O paradoxo da SNV é cruel: mesmo com as vias aéreas amplas, os pacientes sentem que não conseguem respirar. Esse fenômeno decorre da perda da função sensorial e aerodinâmica da mucosa nasal, gerando sintomas como sensação constante de sufocamento, nariz seco e ardente, dor crônica, cefaleias, insônia, ansiedade, depressão e queda drástica na qualidade de vida. Muitos relatam viver com uma angústia respiratória permanente que beira o insuportável.

Infelizmente, a SNV ainda é negada por grande parte da comunidade médica, o que amplia o sofrimento dos pacientes. Por falta de reconhecimento, muitos portadores são tratados como hipocondríacos ou ansiosos, quando, na verdade, estão vivendo um colapso funcional e sensorial do sistema respiratório.

Por isso, é urgente promover o reconhecimento da SNV como uma condição séria de saúde pública. Reivindicamos investimentos em pesquisas regenerativas com células-tronco, biomateriais e bioengenharia, criação de protocolos clínicos para diagnóstico precoce, campanhas de conscientização sobre os riscos da turbinectomia agressiva e oferta de suporte psicológico e social aos afetados.

A negligência em torno da SNV tem custado vidas. Já perdemos pacientes ao suicídio, sufocados por um sofrimento que permanece invisível aos olhos da sociedade e dos próprios profissionais de saúde.

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Publicação sugerida pela colaboradora da Revista Consciência, autora Maria Amália Guimarães (meliaguima@gmail.com).

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