
Por Antônio da Silva Câmara*
Prefácio ao livro recém-lançado de Caique Carvalho
1.
Neste livro sobre a música sertaneja, na sua versão mais recente – o sertanejo universitário –, Caique Carvalho realiza uma análise no âmbito da sociologia da arte em interlocução com outras áreas da sociologia e da história.
Buscando manter-se fiel ao método de compreender a arte, tanto no seu aspecto estético – forma e conteúdo –, quanto no seu aspecto externo, busca compreender eventos históricos e mudanças sociais de ordem estrutural no processo de modernização capitalista do país que incidem tanto na produção e na reprodução da arte musical (acentuando o papel das gravadoras), como na reprodução ideológica. Permitindo, assim, visualizar as variações de forma e conteúdo da música sertaneja ao longo do século XX, e particularmente do sertanejo universitário.
Assim temos a reconstrução da trajetória da música caipira no início do século XX e a sua indissociabilidade com a música sertaneja em um primeiro período. O autor acentua a visibilidade da música popular por volta dos anos 1930, decorrente da profissionalização do rádio que passou a ser patrocinado por empresas capitalistas, permitindo, desta maneira, a comercialização ampliada da cultura. Neste período, as emissoras de rádio contratam um corpo regular de artistas, dentre eles os cantores de música caipira.
Aqui eu gostaria de acentuar como a relação de subsunção do imaginário rural às expectativas do mundo urbano já aparecia de modo consistente. Pois esse tipo de música voltava-se inicialmente para o próprio meio urbano, visando as levas de migrantes que chegavam às grandes capitais, o que não impedia a sua propagação pelo interior do país através das ondas curtas das emissoras de rádio.
Este traço modernizante, qual seja o da apropriação da música “tradicional” cantada no interior do país, modificada e divulgada pelos artistas caipiras e sertanejos, será também encontrada em outros gêneros musicais, como acentua o autor. E arrisco afirmar que o mesmo ocorre no âmbito do cinema, primeiro com a reprodução e heroificação do cangaceiro, depois com a apropriação crítica das lutas sociais do Nordeste pelo cinema novo.
2.
Mas, retornando ao fluxo da música sertaneja, destaca-se na investigação a percepção de que um ciclo inicial no qual música caipira e sertaneja formavam um todo indiferenciado sofrerá abalo significativo a partir dos anos 1950, quando a música sertaneja rompe com a “música de raiz”, adotando sonoridades externas, sobretudo da América Latina, sofrendo influência dos boleros.
Novamente as tramas internas e externas são importantes para compreender a arte, pois, do ponto de vista estético, penso que se tratava de certo esgotamento tanto temático quanto formal da música caipira, de forma similar ao que aconteceu com o samba no Brasil que, nessa época, sofreu concorrência dos boleros e sambas-canções, que por sua vez, serão substituídos pela Bossa-Nova reivindicada por seu criador como uma nova forma de cantar o samba.
Do ponto de vista externo, estávamos vivendo um novo período de modernização com as promessas de desenvolvimento industrial e construção de uma soberania política efetiva. Ao mesmo tempo, as relações do Brasil com outros países e, em particular com os EUA, intensificavam-se. Logo, tanto as mudanças efetivas na estrutura produtiva quanto os discursos ideológicos relativos a um novo Brasil prevaleciam, e de modo peculiar, atingiam a produção e reprodução musical. Em um terceiro momento, situado por volta dos anos 1980, emerge um novo subgênero musical, qual seja o sertanejo romântico, afastando-se ainda mais da música caipira e adotando sonoridades oriundas da música country norte-americana.
Investigando um novo e quarto momento, a pesquisa apresentará sua originalidade. Numa análise arguta, o autor percebe quanto a música popular pode afastar-se de sua origem e modernizar-se em concomitância com a própria sociedade o que implica em consequências marcantes para a sua construção melódica e seu conteúdo.
Afastando-se de posições maniqueístas, Caique Carvalho verifica como tal procedimento estaria enquadrado no que Theodor Adorno denominou de “indústria cultural”, e compreende os aspectos negativos destacados pelo autor na apropriação e transformação da cultura no que hoje se entende como “globalização”. No entanto, percebe criticamente que, ao lado destes aspectos, é inevitável observar, também, como a música, e sobretudo a sertaneja universitária, pode revelar, de modo mediado, a sociedade na qual se encontra. Por isso, constatar os aspectos levantados por Theodor Adorno não pode nos impedir de avançar na compreensão das contradições internas da arte e de sua inserção no mundo.
Talvez, seja essa a principal contribuição do livro, pois ao reconstituir a história das gerações da música sertaneja, destaca a contradição entre a “tradição” e o “moderno”, ambos inseridos no processo de modernização capitalista do Brasil. Sem dúvida, o sertanejo universitário, aparece em um novo contexto: o desenvolvimento industrial projetado no passado, concentrou-se em alguns centros urbanos, as lutas sociais por reforma agrária foram derrotadas pelo golpe de Estado de 1964, a perspectiva urbano-industrial presente nos discursos progressistas dos anos 1950 e 1960 foi substituída pela de integração nacional e ocupação efetiva de regiões “subpovoadas”, reservando-se a industrialização para as regiões já integradas à dinâmica capitalista.
Isto implicou em grandes projetos de ocupação das regiões Norte e Centro-Oeste, e no vislumbre de um novo tipo de indústria, qual seja, a agroindústria. O Centro-Oeste brasileiro, será alvo de um brutal processo de ocupação, com novo fluxo de migrantes e de capital com o sucesso das commodities.
3.
A questão urbano-rural reaparece novamente na criação musical, pois os novos artistas identificam-se agora com um Brasil “moderno”. Inverte-se, no entanto, os termos: aparentemente teríamos agora o rural-urbano, pois o dinamismo das forças produtivas estaria ancorado na produção rural industrializada.
Sem entrar nas polêmicas da sociologia do desenvolvimento podemos vislumbrar aqui o lugar do Brasil na divisão internacional do trabalho, durante décadas tentando industrializar-se e afastar-se da exportação de matérias primas, agora impulsionado pela produção agropecuária primária. Mas retornando à nova música sertaneja, o autor acentua como ocorre uma aproximação mais intensa da música de manifestações culturais dos EUA.
Se, como já notado pelo autor, essa interpelação entre culturas distintas e a música já ocorreu em outros momentos, forçoso é reconhecer que jamais com a amplitude vista no sertanejo universitário e na construção de uma cultura específica de certos segmentos de origem rural que, ao mesmo tempo em que advogam e defendem um patriotismo extremo, espelham-se no dinamismo capitalista do campo nos EUA.
Esse último aspecto, novamente nos remete a Theodor Adorno, que criticava a subsunção da arte à ideologia e propunha soluções extremas que não se aplicariam à música popular. No caso do Brasil, e em particular da música sertaneja, a aproximação com os discursos ideológicos é evidente, ainda que voltada para o amor romântico, reproduz anseios conservadores que emergem no Brasil contemporâneo.
Extrapolando a arte, os compositores e cantores aproximam-se de políticos conservadores, que retomam símbolos integralistas, para reconstruir um discurso alinhado com o retrocesso civilizatório visto no mundo em nossos dias. Mesmo não sendo esta a preocupação de Caique Carvalho, sem dúvida ele nos dá elementos para refletir sobre a íntima e perigosa aproximação da arte com a ideologia dominante e, como, independente da vontade de seus criadores ela pode tornar-se um instrumento de manipulação de massas, tal como observado por Walter Benjamin nos anos 1930.
Começamos este prefácio observando a importância de uma investigação no âmbito da sociologia da arte e a interrelação entre os aspectos internos e externos da obra de arte, mas a leitura acurada desta investigação nos levou a outras disciplinas como a história, a economia política, e as sociologias rural e do desenvolvimento.
A força deste livro encontra-se nessa possibilidade de situar um objeto tão específico no escopo de uma discussão mais ampla, partindo da arte e a ela retornando – numa dialética entre determinantes internos e externos – e sobretudo, como esta pode parcialmente ou plenamente ser capturada pela ideologia dominante.
*Antônio da Silva Câmara é professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Referência

Caique Carvalho, Sertanejo universitário, agronegócio e indústria cultural. Rio de Janeiro, Editora Telha, 2026, 102 páginas. [https://shre.ink/7RwM]

