Sem teto fazem festa e mostram que vieram para ficar

Prédio ocupado por sem tetos na Avenida Ipiranga, 925, centro de São Paulo. Foto: Jadson Oliveira.

Não só de lutas e dificuldades vivem os sem-teto paulistanos: na terça-feira, 12, Dia da Criança, os ocupantes do número 925 da tradicional Avenida Ipiranga – pertinho do conhecido Bar Brahma, Esquina da MPB – fizeram uma animada e farta comemoração para suas 297 crianças. E também, claro, para os pais, avós e irmãos, que, no total, formam um “acampamento” de 1.200 pessoas no prédio velho de 15 andares em pleno Centro Velho da cidade (elas tinham sido despejadas de terreno localizado no Jardim Limoeiro – São Matheus).
As 297 crianças do "acampamento" tiveram um dia especial. Foto: Jadson Oliveira.

Estão ali desde a madrugada de 3 para 4 de outubro, quando famílias organizadas pelos movimentos dos sem-teto ocuparam (de surpresa, óbvio) quatro prédios abandonados no centro de São Paulo. E bote “organizadas” nisso: a festa e a vida no dia-a-dia da nova comunidade mostram que eles estão dispostos e estruturados para ficar ali mais seis meses, um ano, dois anos, enquanto durar a negociação com a prefeitura e o governo do estado.
Dona Maria, coordenadora do Terra de Nossa Gente (TNG), movimento filiado à Frente de Luta por Moradia (FLM). Foto: Jadson Oliveira.

Os números e avaliação são de Maria do Planalto, 52 anos, profissão diarista, coordenadora geral do Terra de Nossa Gente (TNG), movimento de sem-teto filiado à Frente de Luta por Moradia (FLM), que comandou a ocupação dos quatro prédios (ou “invasão”, termo geralmente utilizado para demonstrar condenação ao ato). É a “dona Maria”, que dirige os festejos e é consultada a todo instante por um e outro, ou uma e outra, já que a presença das mulheres é bem marcante (um mendigo invade a festa, que é no passeio em frente ao prédio, pedindo alguma coisa para comer: “dona Maria, dona Maria, ele tá querendo comer…”, ela enche um pratinho com biscoitos e resolve o problema: “dê a ele, dê a ele”). E enquanto administra a distribuição de frutas, doces, salgados, pipoca e brinquedos, dona Maria informa sobre a organização da luta:
“O pagamento que tenho é a alegria de ver os companheiros pegar a chave”
O TNG atua há 11 anos e tem 3.800 famílias cadastradas – moram em áreas e/ou barracos de alguma forma precários, sob riscos, em encostas, brejos, vítimas preferenciais das chuvas, etc. O sonho maior na cabeça: ter uma moradia mais digna. Sua base, onde, digamos, tem a retaguarda montada é a Zona Leste. É lá, na Fazenda da Juta, que dona Maria mora, depois de 23 anos na luta dos sem-teto, 13 anos depois de ter conseguido sua casa: “Consegui minha casa e continuei na luta para ajudar os outros, não ganho nada, o pagamento que tenho é a alegria de ver os companheiros e companheiras pegar a chave”. (Ela é mineira de nascimento, foi trazida para cá com dois anos, tem segundo grau, casada, três filhas e duas netas).
Distribuição de presentes doados por fábrica da Zona Leste. Foto: Jadson Oliveira.

A festa das crianças, por exemplo, foi feita basicamente com doações arrecadadas na Zona Leste, os brinquedos foram doados por uma fábrica lá da Zona Leste, onde trabalha um dos agora moradores da Ipiranga. A alimentação do dia-a-dia vem também de doações de ocupantes que trabalham, de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos, inclusive de moradores e comerciantes do centro. Dona Maria conta que foram recebidos com simpatia pela gente da área.
“Aqui não tem partido nem crença religiosa, só o povo de luta”
Horário das refeições: café da manhã, da tarde, almoço e jantar. Foto: Jadson Oliveira.

E fala da organização: horários para café da manhâ, almoço e jantar; todos têm tarefas nas diversas equipes: de limpeza, de mercadão (pedir frutas e verduras), portaria, olhar as crianças (tem a “escolinha”, um salão meio abafado para entreter a criançada, não há aulas propriamente ditas), equipe de manutenção (tem sempre algo para consertar num prédio velho e abandonado), de cozinha e de segurança, cuja principal preocupação é com as crianças, mas eles mesmos procuram resolver os “casos de polícia”.
“Na portaria – continua dona Maria – é anotado todo mundo que sai e que entra. Aqui não entra alcoolizado, se aparecer algum drogado é expulso. Aqui não tem partido político, não tem crença religiosa, não tem essas distinções, só o povo de luta”.
Uma das paredes internas do salão usado como "escolinha". Foto: Jadson Oliveira.

E as negociações com as autoridades? Ela responde que a próxima audiência com representantes da prefeitura e do governo está marcada para segunda-feira, dia 18. Há 53 prédios em São Paulo ocupados e/ou sendo objeto de negociação com os diversos movimentos por moradia, conforme informações da coordenadora do TNG (há outras entidades envolvidas, como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, MTST, Movimento dos Sem-Teto do Centro, MSTC, e o Movimento Nacional da População de Rua, MNPR). Eles reivindicam ficar onde estão ou adquirir casas decentes em outro local e por preço e condições viáveis, de acordo com a renda pequena das famílias. (No caso do número 925 da Ipiranga, o imóvel é do grupo Camargo Corrêa).
“Só pode ser assim, sem luta não há vitória”
Suely Guimarães, 51 anos, seis filhos, paulista de Santo André, tem o curso fundamental incompleto: “Estou aqui porque fui despejada há um ano de um terreno que a gente ocupava no bairro de São Matheus, fui morar com minha família no Viaduto do Chá, acampamos em frente da prefeitura. Estou num quarto com adultos e menores, ao todo 20 pessoas. Nós não temos onde morar, então a gente ocupa. Estou desempregada e doente, trabalhava de diarista, mas não tenho mais habilidade nos braços, tive um derrame, AVC (acidente vascular cerebral), um ano sem trabalhar, vivo de doações, de ajuda dos filhos, não tenho marido, já tive, graças a Deus não tenho mais. Acho certo a ocupação do prédio porque é do governo, nosso governo tem de dar moradia e a gente não quer de graça, quer pagar de maneira que seja possível, de acordo com o que ganhamos, temos que negociar. Não tenho medo de nada, só do castigo de Deus, somos corajosos. É preciso pressionar pra ver se os governantes fazem alguma coisa por nós. Se pudesse ficar aqui na Avenida Ipiranga seria ótimo, mas sei que o que podemos conseguir é alguma coisa longe, eles jogam a gente lá pra dentro do mato. Confio nos dirigentes do movimento, participo há três anos. Só pode ser assim, sem luta não há vitória, ficar pedindo a deputado, a político, não adianta”.
“Somos da periferia, eles (o governo) não vão até lá”
Vanderlan Nascimento de Souza, 30 anos, casado, duas filhas de 9 e 11 anos, baiano de Camaçari, veio criança com uma tia, disse que estudou só um ano, mas sabe ler e escrever: “Estou num quarto no primeiro andar, um vão de 3 metros por 5 metros, com um banheiro, são 16 pessoas entre crianças e adultos. Morava numa área precária, com muita lama e muito rato, tinha o risco da fiação, era um terreno ocupado da Eletropaulo, debaixo da torre, tinha ordem de despejo, estava há cinco anos lá, tinha um barraco de madeirit e lona. Quero uma moradia que seja digna, o governo prometeu e tem que cumprir, disseram que tinha casa pra gente, tem família aí no prédio com nove filhos. A prioridade hoje é conseguir casa pra minha família, a ocupação do prédio é a maneira de chegar até eles (o governo, as autoridades), pra eles enxergar a gente. Somos da periferia, eles não vão até lá, nós temos de chegar até eles. Quando a gente compra um pão, a gente tá pagando imposto e imposto é pra ajudar a comunidade. Não, não penso em voltar pra Bahia, não tenho nada lá, não tenho parente lá, meu parente é Jesus”.
“Não somos desocupados, somos necessitados”
Ana Amélia, 44 anos, casada, quatro filhos, uma das quatro mulheres encarregadas da “escolinha”, nasceu no Piauí: “Eu morava na Zona Leste, numa área de risco, sofria muito nas enchentes. Às vezes chamam a gente de desocupados, não somos desocupados, somos necessitados, é coisa diferente. Se tivéssemos condições, a gente não estava aqui, temos que lutar aqui. Eu fiz inscrição na CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), já faz seis anos e até hoje nada. Eu trabalhava em oficina de costura, mas fiquei doente, já fiz tratamento em oito especialidades, cardiologia, neurologia, psiquiatria… estou encostada no INSS há quatro anos, ganho salário mínimo, tenho dois meses sem receber porque estou dependendo da perícia. Meu marido não tem emprego fixo, faz um serviço aqui outro ali de ajudante de pedreiro”.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em São Paulo. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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