
— Reprodução/Novos Negros
De Tia Ciata a Neguinho da Beija Flor, personalidades históricas deixaram um legado que atravessa gerações e permanece vivo na cultura popular brasileira.
Hellen Novais / Alma Preta / 14 de fevereiro de 2026
Muito antes de se consolidar como espetáculo das avenidas, o Carnaval brasileiro foi construído nos quintais, terreiros e ruas dos territórios negros. De origem europeia, a festa ganhou no Brasil novos sentidos, ritmos e formas de expressão, tornando-se uma das maiores manifestações culturais do mundo.
Essa transformação foi conduzida, sobretudo, por pessoas negras que fizeram do samba, do batuque e da organização comunitária instrumentos de resistência, identidade e celebração. Suas trajetórias ajudaram a moldar o Carnaval como o conhecemos hoje, deixando um legado que atravessa gerações e permanece vivo na cultura popular brasileira.
Madrinha Eunice
Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, nasceu em Piracicaba (SP) e foi uma das figuras mais importantes do carnaval paulistano. Em 1937, fundou a Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Escola de Samba Lavapés, a primeira escola de samba da cidade de São Paulo.
Compositora, carnavalesca, mulher de terreiro e ativista do movimento negro, Madrinha Eunice tornou-se uma referência de liderança feminina, mostrando que mulheres podiam ocupar espaços de poder, criação e organização dentro do Carnaval.
A sambista também foi uma defensora dos direitos das crianças, acreditando que elas eram tão importantes quanto qualquer adulto na produção carnavalesca. Em 2022, tornou-se a primeira mulher a receber uma estátua em sua homenagem na cidade de São Paulo, localizada na praça Liberdade-África-Japão, um marco de reconhecimento histórico.
Dona Ivone Lara
Conhecida como a “Dama do Samba”, a carioca nascida em Botafogo (RJ), Ivone Lara da Costa foi cantora, compositora, instrumentista e uma das maiores sambistas da história do Brasil.
Antes da música, sua trajetória começou na área da saúde. Formou-se em enfermagem e assistência social e integrou, nos anos 1940, a equipe da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na humanização do tratamento psiquiátrico. Foi Dona Ivone quem sugeriu o uso da música como forma de cuidado terapêutico.
No Carnaval, fez história ao se tornar a primeira mulher a assinar um samba-enredo, no grupo especial do Carnaval carioca, em 1965, abrindo caminhos para gerações de compositoras. Entre seus maiores clássicos estão “Sonho Meu” e “Alguém Me Avisou”.
Em sua homenagem, foi instituído o Dia Nacional da Mulher Sambista, celebrado em 13 de abril, data de seu nascimento, por meio da Lei nº 14.834/24.
Tia Ciata
Tia Ciata, conhecida como a matriarca do samba, foi uma das figuras centrais da cultura negra no Rio de Janeiro no início do século XX. Baiana, mãe de santo, quituteira e sambista, sua casa na região da Pequena África tornou-se ponto de encontro de músicos, compositores e intelectuais negros.
Foi nesse espaço que o samba urbano carioca se consolidou, a partir do encontro entre o samba de roda da Bahia e a musicalidade do Rio, com nomes como Donga, Pixinguinha e João da Baiana.
Guardião de saberes ancestrais, o quintal de Tia Ciata também funcionava como espaço de resistência contra a perseguição policial, unindo candomblé, música e culinária afro-brasileira. Sua atuação foi fundamental para a preservação do samba e para o fortalecimento das religiões de matriz africana frente à intolerância religiosa.
Dionísio Barbosa
Dionísio Barbosa foi o fundador do primeiro bloco carnavalesco de São Paulo, a Banda Barra Funda, criada em 1914, hoje conhecida como Camisa Verde e Branco. O grupo foi pioneiro nas manifestações carnavalescas que surgiam nas periferias da cidade e desencadeou uma série de iniciativas em outras regiões da cidade.
Nascido em Itirapina, interior paulista, Dionísio era filho de pessoas escravizadas e um dos primeiros negros nascidos livres no Brasil. Incomodado com os corsos da elite branca paulistana (desfiles privados de carros nas ruas centrais), ele criou um Carnaval popular, voltado para a comunidade negra, que valorizava suas tradições culturais e reforçava a identidade coletiva da periferia.
Ele também foi responsável por introduzir o samba rural e o batuque nas manifestações de rua, incorporando ritmos afro-brasileiros que até então eram marginalizados. Com isso, Dionísio ajudou a consolidar o carnaval paulistano como espaço de expressão, resistência e criação cultural da população negra.
Jamelão
Jamelão foi muito mais que um intérprete: foi a própria voz da Estação Primeira de Mangueira. Por mais de meio século, defendeu as cores verde e rosa, tornando-se o intérprete oficial mais longevo da história das escolas de samba.
Nascido no Rio de Janeiro, José Bispo Clementino dos Santos começou sua trajetória como cantor em boates e gafieiras, o que influenciou seu estilo potente, dramático e extremamente preciso em suas apresentações na avenida, marcadas pela vitória de seis Estandartes de Ouro do O GLOBO, sendo o intérprete mais premiado da história do concurso.
Em 2012, foi eleito o maior nome da história das escolas de samba, superando ícones como Cartola, Dona Ivone Lara e Paulo da Portela. Seu canto transformou desfiles em verdadeiras óperas populares, emocionando arquibancadas e fortalecendo o orgulho da cultura negra. Em 2022, recebeu uma grande homenagem da Mangueira ao lado de Cartola e Delegado, reafirmando seu legado eterno no Carnaval brasileiro.
Neguinho da Beija-Flor
Nascido em Nova Iguaçu (RJ), Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho da Beija-Flor, é uma das vozes mais emblemáticas do Carnaval brasileiro. Cantor, compositor e intérprete, foi a voz oficial da Beija-Flor de Nilópolis entre 1976 e 2025, somando quase 50 anos de história com a escola.
Entre as suas contribuições de sucesso, destacam-se as músicas “O Campeão (Meu Time)”, e “Negra Ângela”. Em 2025, realizou seu último desfile na Marquês de Sapucaí, encerrando quase 50 anos de dedicação à agremiação de forma emblemática: campeão do Carnaval com o enredo em homenagem a Laíla, ex-diretor de carnaval da escola.
Ovacionado pelo público, Neguinho se despediu deixando um legado que atravessa gerações e se confunde com a própria história da Beija-Flor e do samba.
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Estudante de Jornalismo na USJT e moradora da periferia da zona sul de São Paulo, atua na comunicação inclusiva e acessível, com foco no jornalismo periférico. Comprometida com a valorização da cultura indígena e com a ampliação do espaço das mulheres na sociedade, também é apaixonada por música e cinema nacional.
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