“Se o Brasil tivesse alguma vez se integrado na América Latina, teria sido um horror para os donos do mundo”

eric_capaEric Nepomuceno é jornalista e escritor, passou por alguns veículos tradicionais e alternativos da imprensa brasileira, há alguns anos colabora para jornais estrangeiros como o Página 12 da Argentina e o espanhol El País. Deu uma enorme contribuição cultural ao Brasil no campo literário, apresentando, através das suas traduções, escritores latinoamericanos do gabarito de Gabriel Garcia Márquez, Eduardo Galeano, Julio Cortázar e Juan Rulfo, dentre outros. Em um papo informal na Cobal do Rio de Janeiro, Eric falou sobre sua trajetória, a imprensa brasileira e o seu livro reportagem que relata o massacre dos camponeses do MST em Eldorado dos Carajás em 1996. A cultura latinoamericana e a conjuntura política na região, também foram analizados na conversa.
Em função da sua experiência, gostaria que você fizesse uma análise da imprensa brasileira hoje.
Eu trabalhei na imprensa cotidiana no Brasil entre 1966, tinha 17 anos quando comecei, até março de 86. Eu não estudei jornalismo, sou extremamente crítico dos cursos de jornalismo. Não conheço nenhum bom jornalista por causa do curso, eu conheço vários bons jornalistas de gerações mais jovens que a minha apesar do curso. A minha carreira na imprensa brasileira se deu em três veículos, meu começo foi de garoto, de muito freelancer no finzinho da Última Hora; numa publicação que havia em São Paulo, que chamava Jornal Artes, um jornal mensal de artes. Em 1969 eu entrei no Jornal da Tarde, naquele momento eu acho que o Brasil tinha duas grandes escolas de jornalismo: o Jornal do Brasil (RJ) e o Jornal da Tarde (SP). Costumo dizer que eu tive o melhor curso possível, o reitor da minha universidade era o Rui Mesquita, que apesar de todas as distâncias ideológicas eu reconheço nele um mestre absoluto da profissão. E o diretor de redação, que eu chamo o meu diretor de faculdade, era o Murilo Felisberto, que foi um camarada cuja importância na imprensa moderna brasileira não é reconhecida.
Em 1973 fui para a Argentina como correspondente do Jornal da Tarde, e lá eu passei para a revista Veja. Faço questão de dizer, aquela revista Veja que não tem absolutamente nada a ver com o que é feito hoje. Não tenho nenhum orgulho especial de ter sido daquela Veja, que eu já achava uma revista criticável. Mas eu tenho pavor de que me confundam com esse produto que não é jornalístico, com essa excrescência que é a revista Veja a partir do Mario Sergio Conti em diante. Eles são excelentes coveiros, sabem enterrar qualquer coisa, como enterraram a revista. Da Argentina eu fui para a Espanha, de lá fui para o México.
Você foi exilado ou saiu por livre e espontânea vontade?
Fui para a Argentina porque eu quis, lá comecei a publicar no jornal La Opinión, que era o jornal mais importante da época, um jornal de esquerda. E integrei o grupo da revista Crisis, que foi na época a principal publicação cultural da América Latina. Era uma publicação de esquerda, dirigida pelo Eduardo Galeano, e graças ao que eu escrevia sobre a ditadura brasileira fui proibido de voltar. Então eu saí porque quis e quando quis voltar não pude, depois quando me deixaram voltar eu também não quis mais.
Voltei para o Brasil a convite da Rede Globo, trabalhei lá até exatamente a decretação do plano cruzado: aí foi demais, eu só tenho um fígado e ele não agüentou e saí. Foi muito bom porque foi um reencontro com o país real, não o país do qual eu me lembrava. Em segundo lugar porque eu aprendi a fazer documentário e reportagem para a televisão, vivi disso depois como freelancer. Em terceiro lugar foi muito bom porque eu entendi onde estava o verdadeiro núcleo de poder no meu país, que já não era em Brasília, era na Rua Lopes Quintas, era na Rede Globo. Como representante de um sistema que permaneceu ativo durante muitos anos, e está até hoje.
Foi muito bom também para eu perceber que o Brasil tinha se redemocratizado, mas é o único país que eu conheço que volta à democracia sem que isso chegue aos meios de comunicação: você não tem vozes alternativas no Brasil, você tem ecos da mesma voz, que é a voz do sistema.
DCFN0020Na Argentina se você ler o jornal La Nacion e o Página 12,  você sabe o que está lendo. Na Espanha se você ler El Mundo, ou o ABC, o El País, que hoje é o melhor jornal da europa, um jornal que eu vi nascer e sou colaborador até hoje, você sabe o que está lendo. No Brasil você não sabe, eu acho que o Brasil tem dois grandes jornais impressos: o Valor Econômico e o Estado de São Paulo, um jornal muito bem feito jornalisticamente e íntegro com a sua ideologia e posição política; o resto são pastiches da pior qualidade. Você teve jornais alternativos em algum momento, tem a batalha do Mino Carta com a revista CartaCapital, mas não chega a ser alternativas ao sistema. Tirando esses dois, considero produtos que em seus melhores momentos são medíocres, em geral são péssimos, e que não têm uma espinha dorsal básica que seria a da moral e da ética.
A que você atribui essa homogeneização da mídia nacional?
A imprensa brasileira hoje é dividida basicamente entre o jornalismo arquitetônico, as colunas, e o jornalismo agrícola, que são as notas plantadas. Eu tenho engulhos quando ouço falar em jornalismo investigativo, isso para mim é como falar em catolicismo cristão porque o jornalismo ou é investigativo ou não é.
O repórter tem de ser curioso por essência…
Ou não é jornalismo. Eu atribuo isso ao predomínio empresarial, ao poder de um sistema político econômico que continua dominando o Brasil. E que tem legítimos representantes nos meios de comunicação, a começar pelas organizações Globo, passando pela editora Abril e deixando muito pouco espaço.
Eu atribuo a uma troca que houve nas empresas, em que os donos ou diretores deixaram de ser jornalistas e passaram a ser empresários: a melhor catástrofe disso é o que aconteceu com o Jornal do Brasil. Eu acho que com a volta da democracia no Brasil, sobretudo a partir de 82 e conforme se aproximava as eleições de 89, o sistema brasileiro se trancou em copas para se defender.
Quer dizer, perdia-se o poder de uma ditadura encabeçada por militares mas com profundo controle dos civis, passava-se a uma democracia que esse sistema tinha medo. Não vamos esquecer que dos exilados que voltaram, o único que tinha verdadeira projeção nacional foi o único impedido de voltar pelo Rio ou São Paulo: o Brizola, que teve de voltar de carro pelo interior do Rio Grande do Sul.
A eleição do Brizola como governador do Rio em 82 desperta o pânico em todos os meios de comunicação. Por quê? Porque desperta o pânico do stabilishment que controla o país até hoje, que elegeu o Collor, o FHC, e que ou o Lula se adaptava a certas premissas desse sistema ou ele não teria durado seis meses do poder. A imprensa é um reflexo disso, o número de notícias manipuladas que você lê todos os dias, nós da elite que lemos a imprensa em papel.
Essa é a minha visão bastante amarga da imprensa brasileira, acho que houve um acomodamento. Perdeu-se a vergonha de ser de direita sem se assumir como tal, você quando vai à Europa alguém que é de direita é de direita. Até na América Latina, no máximo o cara diz que é de centro direita. No Brasil ninguém é direita, todo mundo é liberal, é democrático.
Mudando de assunto, como foi sua experiência de voltar à reportagem com a publicação do livro O Massacre, sobre a chacina ao MST no Eldorado dos Carajás. De onde surgiu essa idéia?
Eu estava em Brasília, tinha vindo de uma mesa redonda com o Sebastião Salgado, fomos jantar. De noitinha, quando a gente ia embora do restaurante, ele me falou: ‘você está sabendo? Massacraram sem terras em Eldorado de Carajás’. Ele alugou um avião, foi para lá e fez as fotos dos velórios de alguns dos mortos. Quando voltou, me contou o que tinha visto.
Eu me lembro da reação do governo FHC, que me chamou muita atenção: em sete meses resolveu a questão da desapropriação das fazendas, que era uma luta do MST de muito tempo. Fiquei pensando: foi preciso matar 19 para isso, é assim que esse Brasil funciona, movido a sangue. E eu ouvia as histórias, falava-se de crianças desaparecidas, virou uma coisa meio fantasmagórica e caiu no esquecimento. Aí eu pensei o seguinte: esses caras não vão ser condenados nunca.
Em 2003 eu estava no barbeiro, tocou o celular, era um amigo meu chamado Nilo Batista, que é um dos grandes advogados criminalistas. ‘Você não quer fazer um livro sobre a história do julgamento?’ ‘Nilo, eu não quero mais fazer não ficção, eu quero escrever os meus contos.’
No dia seguinte eu fui lá, ele me contou a visão dele de advogado criminalista sobre o que era essa impunidade. Nilo, no primeiro julgamento, foi assistente de acusação, saiu de lá protegido pela polícia.
Ele chegou a ter voz e incomodou, foi isso?
Chegou a ter voz, na primeira sessão, depois ele foi tirado do hotel às 4h da manhã com proteção da polícia.  Eu li todo o processo, mais de 20.000 páginas, o inquérito policial militar, o processo civil. Eu não me lembro quantas horas de entrevistas, eu fui ao lugar, visitei tudo, conversei com sobreviventes, com nego que tem bala na cabeça, bala na garganta, bala na perna, etc. O que me veio, aí sim, o que eu estava dizendo, o retrato da impunidade. Conversei com os advogados de defesa, com o promotor, e está claro que aquilo tudo foi feito para que ninguém fosse condenado, a não ser os mortos que já estavam mortos e o abandono em que os sobreviventes foram deixados.
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Comecei a perceber que o Pará é uma lâmina de laboratório do Brasil, por quê? É uma polícia militar mal paga, mal preparada, e absolutamente corrupta e que nas horas vagas faz segurança para os coronéis. Qual a diferença disso para o Rio de Janeiro? Por exemplo, eu moro num bairro de classe média alta e na porta da minha casa tem um segurança toda a noite. Ele é um “zé ninguém”, mas o chefe dele é um coronel do corpo de bombeiros. Quer dizer, nas horas vagas tem uma empresa de segurança. O Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Rio de Janeiro, quer dizer, a segurança que a segurança que o estado não me dá, um funcionário do estado me vende. Você multiplica isso por cem e tem todo o interior do país.
Eu descobri, por exemplo, uma coisa que a imprensa da época não sei por que não publicou: dois ônibus foram fretados por uma empresa do estado, para levar as tropas de PM que massacraram os sem terra. Qual era a empresa do estado? A Companhia Vale do Rio Doce. Quem pagou essas empresas de ônibus? A polícia militar. Como ela pagou? Em dinheiro. Por lei, nenhum órgão do estado pode pagar em dinheiro, portanto a Vale do Rio Doce deu um pacote de grana no quartel que passou. Ou seja, por que isso nunca foi investigado? Porque aí seria denunciar o mecanismo…
Um advogado, que na época era um dos diretores da Vale do Rio Doce, me disse textualmente o seguinte: no Pará não acontece nada sem que a gente saiba.
Isso em função da pobreza aberta à corrupção e cooptação?
Não, em função do poder da Companhia Vale do Rio Doce que domina as tribos políticas, os coronéis, os caciques, domina tudo. É a dona do estado e a dona dos donos do estado, os latifundiários e coronéis.
Fale mais sobre a produção do livro…
Eu conversei com muita gente, advogados, padres, sobreviventes, etc. Do lado do governo, eu me lembro de um advogado chamado Ronaldo Barata, que na época era presidente do instituto de terra do estado do Pará. O cara de uma grandeza, que me deu um quadro horroroso. Ele que era a autoridade me deu uma radiografia de como funcionava o poder verdadeiro, que não é o poder do governo, é o poder dos proprietários. Eu tentei falar com o governador Amir Gabriel, através de amigos, eu não fiz nada formal, não queria deixar registros. Todos me vieram com a mesma história: nem pensar! Com o secretário de segurança pública, nem pensar. Com o comandante da polícia militar, nem pensar.
Um dos advogados dos PM’s me deu uma entrevista bastante interessante, de um típico advogado de defesa, correto, nada convincente, é lógico. O outro foi muito interessante, Américo Leal, que eu liguei o gravador, fiz uma pergunta e ele falou durante uma hora acabando com os sem terra. E ele foi ficando nervoso, no fim ele berrava: tem mais é de matar mesmo! É uma visão muito clara da mentalidade de uma certa elite.
Os dados que você levanta da Comissão Pastoral da Terra, da Seção de Direitos Humanos da OEA, já bastam, não precisa nem fazer o livro. Quer dizer, o número de mortos, o número de conflitos. Você vai aos cartórios de registro de imóveis e se você somar os imóveis todos registrados não cabem dentro da área do município.
Foi um trabalho de apuração muito cuidadoso, para armar o livro eu busquei três pontos de vista: de quem participou levando tiro, de quem atirou, que aí ninguém quis falar comigo, eu me baseei nos inquéritos e no processo, e um ponto de vista externo, o meu ponto de vista.
Eu me isolei em julgamento, por isso o livro tem um prefácio onde eu assumo a minha posição. É engraçado que veteranos jornalistas me criticaram muito, dizendo que o livro toma partido. Eu acho que eles têm razão, o livro toma partido e isso está declarado no prefácio. Eu não sei se teria sido mais efetivo uma narração fria, mas eu procurei ser o mais frio possível.
Mas ser frio não quer dizer não tomar partido.
Você toma partido. Basta ler o laudo cadavérico dos mortos, dos 19 mortos só três ou quatro morreram de tiro, o resto morreu massacrado: nego levou tiro, foiçada, teve um que teve um pedaço de pau enfiado na testa. A maior parte dos ferimentos, tanto dos mortos como dos sobreviventes, foram nas pernas e nas costas, ou seja, você atira para impedir o cara de correr e depois dispara nas costas. Só descrevendo o laudo pericial você está sendo frio e ao mesmo tempo parcial.
Eu cobri guerras muito sangrentas e violentas, só em El Salvador, na América Central, eu tinha visto barbaridade igual. Na Guatemala, em Honduras, no deserto do Saara, na repressão à guerrilha urbana na argentina e uruguaia, não tinha visto nada igual. É como se não bastasse você matar o cara: você mata e destroça o cadáver. E todo mundo impune, ninguém fala mais disso. Isso foi absorvido não pela história, mas por essa estranha normalidade brasileira.
Trazendo para hoje esse cenário que você analisou, houve alguma mudança na questão agrária?
Uma coisa mudou, aquilo nos serviu de alerta, tanto que se você observar a repercussão foi brutal. O dia 17 de abril, no mundo inteiro, é o dia da luta pela terra. De uma certa forma, a repercussão impediu que os massacres continuassem naquela proporção. Agora, não mudou muito a situação fundiária não, o Lula não avançou como diz que avançou. Melhorou a situação global do Brasil, agora eu não sei se é uma melhora consistente, sólida e sustentável. A expansão do agronegócio, o envenenamento de água, de terra, de tudo, o transgênico, o agrotóxico, isso eu acho tenebroso. Não é por aí que você vai a lugar nenhum.
Qual a sua opinião sobre a CPI contra o MST?
Creio ser evidente que é uma ação da bancada ruralista, a defensora fundamentalista do agronegócio. Não vai levar a nada, não vai chegar a lugar algum, mas vai dar força para quem demoniza o MST em defesa do latifúndio e vê a reforma agrária como um risco para seus interesses particulares.
A gente podia caminhar agora pela América Latina, em termos culturais, dada a sua familiaridade com a literatura e a sua convivência com personalidades da região.
Eu acho que o Brasil, por tradição, é a teoria do tostines né? É isolado porque ignora, ou é ignorado por que se isolou? Se você for olhar de fora, você tem duas Américas,  a espanoamérica e a lusoamérica, quer dizer, o Brasil é quase que um continente lusitano. A semelhança entre um gaúcho e um maranhense é a mesma de um uruguaio com um guatemalteco. Você tem uma raiz cultural histórica comum, um idioma comum, uma identidade cultural comum, mas com características individuais próprias.
Eu fico pensando se o Brasil tivesse alguma vez se integrado na América Latina, teria sido um horror para os donos do mundo. Estou te falando de 200 anos atrás, imagina. Então sempre interessou, e o Brasil foi acostumado a viver primeiro de cara para a Europa e depois da guerra virada para Miami. Sempre olhando no espelho e buscando uma outra cara, não a própria cara.
Você diz a cúpula do Brasil?
Quem conduz o país. Houve momentos em que a gente quase aproximou. Antes do golpe de 64, sim, nos anos 50, na minha infância, eu ouvia no rádio bolero, tango, chá chá chá, eu ia no cinema e via Cantinflas. Quer dizer, mesmo sem saber se aquilo era do México, da Argentina, aquilo era a globalização e não pasteurização. Agora, evidentemente, houve um fator que despertou para o mundo o interesse na América Latina, e para os latinoamericanos também, que foi a revolução cubana. Aí não interessa se você está de acordo ou contra, mas foi uma coisa romântica, fantástica, Davi contra Golias.
Pouco tempo depois começaram os golpes, o primeiro foi o Brasil. Aí cortaram-se essas pontes por causa de Cuba, mas o reflexo cubano se deu em outros países, então vamos cortar tudo. Eu acho que conforme voltava a democracia para o Brasil, com a lei de anistia e essas coisas, através da música houve uma reaproximação com a américa espânica.
Essa onda mudou de patamar, hoje a integração é comercial, empresarial. Quer dizer, você tem negócios com o governo do Hugo Chávez, a Venezuela é um grande importador brasileiro, a gente importa alguma coisa deles. Você tem essa imprensa peculiar brasileira que qualquer coisa que o Chávez faça é errado, ninguém vai lá ver, ninguém tem idéia. Não estou defendendo o Hugo Chávez não, eu acho que ele tem de ser atacado e criticado por uma série de fatores, só que nenhum desses fatores aparece na imprensa brasileira.
Não tem nenhum esclarecimento do processo…
Lê o El Nacional, o El Universal de Caracas, os caras são de uma virulência contra o governo, como é que é isso? É aquilo que eu te disse, do jovem jornalista com uma visão velha, ele não quer saber como é que é, ele compra o clichê. Aí você não tem por que promover uma integração cultural, uma integração de identidade. Você só vai conhecer um outro povo e ser conhecido, através da sua forma de expressão, da sua identidade, que é a arte, é a cultura. Você vai conhecer o povo através da música, pelo cinema, e aí falta muitíssimo.
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Voltando para cultura, mas tem escritores brasileiros traduzidos consideravelmente pra fora…
Aos trancos e barrancos, e mal. Eu tenho muito mais acesso aqui à literatura feita na América espânica do que eu tenho em Buenos Aires ou no México da literatura brasileira. Claro que vem muita banalidade, muita porcaria, mas vem muita coisa boa. A gente não chega por causa desse isolamento que a gente se pôs, essa coisa meio superior do Brasil em relação aos vizinhos. Eu não sou cucaracho, então eu sou o quê? Suíço?
Em relação ao eurocentrismo na literatura, se deu aqui em função da colonização?

Não, em função de políticas de estado. Uma coisa que a gente esquece, é que países como Alemanha, França, Espanha, Itália, têm programas de apoio à tradução. Então você chega para um editora brasileira e fala: eu sou alemão, tenho essa lista de escritores, qual que você quer comprar, eu pago a tradução. Isso se chama política de estado de difusão da literatura, e o Brasil não tem.
Você tem de fazer um cálculo, quanto vai custar os direitos da obra, a tradução, quanto vai vender. Mas se eu chego lá e digo assim: está aqui o chequinho do consulado alemão e eu vou traduzir tal livro, pra ela já resolveu metade do caminho. Segundo, você tem toda uma tradição cultural voltada para o eurocentrismo, como você diz, ou para o que é muito pior, o miamicentrismo.
Você traduziu clássicos, não no sentido tradicional, mas autores que têm consciência crítica e uma abordagem humanista atemporal.
Ninguém conhecia o Galeano no Brasil, eu traduzi ele há 34 anos, foi a primeira vez que ele foi publicado. E por aí vai, tem muitos. Às vezes demora anos uma proposta de tradução, em geral não, é muito rápido, e eu fico muito feliz e muito tranqüilo. E te digo sem nenhuma prepotência, que eu contribuí muito sim para divulgar esses autores no Brasil. Hoje eu escrevo meus livros, faço minhas traduções e faço muitos trabalhos anônimos para pagar as contas.
Gostaria que você fizesse uma análise conjuntural da América Latina hoje, que está num processo…
Processo de fim de transição. Acho que é um processo de transição que começa pra valer com a crise argentina de 2000/01, o país faliu; com o fim do PRI no México em 2000; com a decadência do FHC no Brasil, naquela mesma época em 99, que é como se fechasse um ciclo do neoliberalismo, do autoritarismo e que aí vem num crescendo. Começa com a eleição do Kirschiner na Argentina, que coincide com a do Lula no Brasil, e que atinge o seu auge com a eleição do Rafael Côrrea no Equador e do Evo Morales na Bolívia. Você sai da água para o vinho, agora vamos fazer a mistura e o equilíbrio.
Eu acho que houve conquistas sociais fabulosas em muitos países, não só no Brasil não. Houve um cenário na economia internacional que pela primeira vez a América Latina soube se beneficiar, alguns países souberam: Uruguai, Peru, o Brasil, a Argentina.
Até a Bolívia que é paupérrima…
A própria Bolívia. Souberam aproveitar, eu acho que mudaram as utopias, mudaram os paradigmas, mas a gente avançou muito. A minha geração foi derrotada, em alguns países foi aniquilada, mas o sonho não. O sonho mudou, e se realiza sob muitos pontos de vista, não do jeito que a gente sonhava, mas do jeito que deu.
Você acha, então, benéfico esse quadro de lideranças?
Eu acho benéfico, e quero saber se vai durar. Há um risco enorme no Chile de um corrupto, ladrão, do resultado da corrupção do Pinochet, que é esse Piñera, ganhar (Piñera foi eleito depois da entrevista). Eu não estou falando por falar, há documentos. Não é um candidato a centro direita, não, um candidato do capital gerado na corrupção do Pinochet.
Isso seria um retrocesso tremendo, como foi um retrocesso a volta do Daniel Ortega à Nicarágua, não aquele Daniel que eu conheci há 31 anos, mas um Daniel completamente corrompido, arrogante, autoritário, ditadorzinho da pior laia. O México sempre na corda bamba, agora há um avanço no Uruguai com a permanência da Frente Ampla. Eu olho o cenário, se eu não te diria com otimismo, com muita atenção e muito interesse, acho legal. É tanta coisa para fazer, entendeu, mas eu acho que o cenário é muito melhor do que era há 20 anos atrás.
Tem alguma analogia com a época da sua geração, no aspecto cíclico?
Não, eu espero que não. Aliás, eu tenho a convicção que não. Pode haver um aspecto cíclico pontual num ou outro país, mas no continente como um todo, como era no meu tempo, um retrocesso geral não.
Honduras hoje não é um sintoma?
Honduras nunca foi um país bem estudado no Brasil, Honduras não existe. Sempre teve no poder o latifúndio, ou o latifúndio extremado teleguiado pelos Estados Unidos. A constituição hondurenha foi escrita em inglês por um escritório de advocacia em Washington. O Zelaya é um despropósito, mas era um despropósito legítimo. Honduras é simbólico, não representa grande coisa, pior é a situação na Nicarágua, sem dúvida. Eu não acredito em retrocesso global não, não tenho esse medo.

4 comentários sobre ““Se o Brasil tivesse alguma vez se integrado na América Latina, teria sido um horror para os donos do mundo””

  1. ótima entrevista.
    concordo muito com esse trecho: “Essa é a minha visão bastante amarga da imprensa brasileira, acho que houve um acomodamento. Perdeu-se a vergonha de ser de direita sem se assumir como tal, você quando vai à Europa alguém que é de direita é de direita. Até na América Latina, no máximo o cara diz que é de centro direita. No Brasil ninguém é direita, todo mundo é liberal, é democrático”

  2. Muito destemor desse admirável e valoroso jornalista e escritor, ao denunciar o discurso direitista imperante praticamente em todos os meios de comunicação do nosso país. Passei a conhecê-lo, o admirar e a o respeitar, quando recentemente o vi, comentando na BANDNEWS, rechaçar as mentiras, as calúnias assacadas contra Hugo Chavéz, sem receio de por isso ser demitido, apesar de deixar essa possibilidade implícita. Grande Eric Nepomuceno ! Tornei-me seu fã pela sua coragem em contestar os soldados mercenários da “direita”, incrustados na mídia, travestidos de jornalistas e/ou comentaristas, também prestadores de escusos serviços aos Estados Unidos da América do Norte, este, representante maior da rapinagem capitalista.

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