Quase nunca percebemos que existe alguém por trás dos corpos que se exibem nas ruas da cidade. Por Fabiano Messano, Renajorp.
Keyla tem 27 anos e está nas ruas desde os 16 anos de idade. “Minha mãe me criou junto com mais cinco irmãos sem ajuda de mais ninguém. Eu não tive muita escolha. Com 16 anos já fazia alguns trabalhos. Era isso ou ser doméstica. Nada contra, mas eu prefiro o que faço hoje. No começo era mais difícil, agora posso escolher melhor meus clientes e o tempo que vou trabalhar.”
Vestida com uma calça jeans justíssima e um sobretudo até o joelho, que mostrava parte da lingerie em alguns momentos – distração ou talvez provocação -, Keyla estava o tempo todo ligada no movimento dos carros e das pessoas que passavam pela orla da Barra da Tijuca na altura do posto três, área nobre da cidade do Rio de Janeiro. Keyla e outras várias garotas dividem a atenção de olhares curiosos de possíveis clientes ou apenas passantes que olham, ora reprovando, ora admirando, ora sedentos por um pouco de diversão.
A noite é agradável e sei que não tenho muito tempo com Keyla, ela precisa trabalhar. “A escolha foi minha, minha mãe nunca quis saber o que eu fazia. Mas eu sei que no fundo ela sabia e não podia fazer nada. Eu não queria ser como ela, trabalhar feito escrava para os outros.”
A boca de Keyla não pára um segundo de mastigar o chiclete Trident sabor menta que ela me ofereceu em algum momento de nossa conversa. “Tem cliente que não gosta do cheiro do cigarro.” Já foram três cigarros desde que começamos a conversar. Um deles foi aceso quando uma “amiga” veio pedir fogo e ela acabou aproveitando para acender um também. Se estiver certo, a “amiga” era muito grande para ser mulher. “Eu acho que ninguém deve sair por ai batendo nas pessoas sem ter motivo para isso. Esses garotos que bateram na empregada se deram mal porque foram denunciados. Isso prova que ainda tem gente boa nesse mundo e que está cansada de tanta violência.”
Decido ir embora. O movimento está aumentando e minha intenção não é ficar conversando com uma pessoa que não ganha a vida para conversar.
Dias depois, estou de volta ao posto três da barra, procuro pela Keyla, mas não a vejo. Talvez seja seu dia de folga ou, na melhor das hipóteses, para ela, algum cliente chegou antes de mim. A noite está um pouco mais fria e me escondo no ponto de ônibus. Salto alto preto, micro saia, micro bolsa e um corpo que demonstra algum tempo de experiência de vida, Kátia, de aproximadamente 30 anos, vem sem cerimônia nenhuma em minha direção e pergunta se vou querer fazer um programa. Confesso que isso não tinha passado pela minha cabeça. “Tudo bem gato, outro dia você vem de carro pra gente dar uma volta”. Pergunto se ela sabe da Keyla. “Não apareceu por aqui hoje.” Eu só tinha conversado com a Keyla até hoje, mas a Kátia já tinha passado e nos visto conversando enquanto eu esperava meu ônibus, por isso não levei muito a sério seu convite, mesmo sabendo que eu só precisava de um pouco de coragem e dinheiro para conseguir um programa. Fiquei imaginando se sua vida teria sido como a de Keyla.
“Eu era vendedora de sapatos em Copacabana e não ganhava o suficiente para ter as coisas que eu queria ter. Cansei de trabalhar para os outros e não ter valor. Hoje eu ganho muito mais e trabalho muito menos.” Fiquei parado por algum tempo pensando na coragem daquela mulher. Assumir assim que tudo o que interessa é o dinheiro e as coisas que ele pode comprar. A Kátia me parece um pouco mais agressiva do que a Keyla, sua postura e seu olhar são mais famintos. “É muito difícil namorar, pois além do constrangimento de contar pro meu parceiro como eu ganho a vida, o tempo é curto para curtir como namorada.”
Pergunto sobre os riscos. “Eu sempre tenho camisinha comigo. Mas tem cliente que não quer usar, aí não rola. Mas tem umas colegas que acabam deixando acontecer por causa da grana. O pior é que tem homem casado e que não está nem aí.” Kátia parece estar alterada por algum tipo de droga, ela gesticula o tempo todo para todos os lados e, como Keyla, fuma um cigarro atrás do outro. Acho que isso deve prejudicar seu trabalho. “Estou fazendo o meu pé de meia, como qualquer um deveria fazer. Quero ficar fazendo programas só por mais uns cinco anos e sair dessa vida.”
Deixo Kátia e entro no meu ônibus, ainda vejo por quase toda a orla várias garotas se exibindo como anúncios publicitários. Os carros parados mostram que o interesse é grande e essa é uma realidade tão antiga que se alguém quiser acabar com ela, vai ter muito trabalho.
