Rota renega loas à ditadura

Celso Lungaretti

No final de outubro, enviei carta aberta ao governador José Serra, protestando contra os elogios à própria atuação durante a ditadura militar, que a Rota (ex-Rondas Extensivas Tobias de Aguiar) colocara em sua página na internet. Para quem quiser recapitular, o link é http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/10/carta-aberta-ao-governador-jos-serra.html

Historiei a atuação dessa unidade da Polícia Militar, criada para “combater a guerrilha urbana e que, depois de massacrados os combatentes da resistência à ditadura pela via armada, passou a aplicar os mesmos métodos de torturas e assassinatos contra criminosos comuns”.

Lembrei que o excelente livro Rota 66, do colega jornalista Caco Barcellos, documentara “4.200 casos de assassinatos cometidos pela Rota nas décadas de 1970 e 1980, tendo como vítimas, quase sempre, jovens pobres, pardos e negros (muitas vezes sem antecedentes criminais)”.

E cheguei ao fulcro da questão: a Rota continuava destacando, “com indisfarçável orgulho, os atentados que cometeu contra a democracia”.

Reproduzi vários trechos da página virtual, como este: “Mais uma vez dentro da história, o Primeiro Batalhão Policial Militar ‘Tobias de Aguiar’, sob o comando do Ten Cel Salvador D’Aquino, é chamado a dar seqüência no seu passado heróico, desta vez no combate à Guerrilha Urbana que atormentava o povo paulista”.

Aliás, tal batalhão, antes mesmo de dar origem à Rota, já cumprira papel deplorável na quartelada de 1964, atuando como força auxiliar dos golpistas das Forças Armadas.

Isto também era objeto de louvação virtual: “Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (…) – Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, dando início à ditadura militar com o Presidente Castelo Branco”.

Era, comentei, “a voz do passado que continua ecoando no presente, à custa dos impostos pagos pelos contribuintes paulistas”.

E conclui assim a carta ao Serra: “em nome do seu passado de exilado e em consideração ao passado de todos nós que permanecemos aqui e fomos barbarizados, peço-lhe que, pelo menos, determine que as peças de comunicação do seu Governo passem a ser as aceitáveis numa democracia. Isto se não lhe apetecer tomar a atitude mais pertinente, que já está atrasada em um quarto de século: desativar a Rota!”.

Comprovando que, ao contrário do saudoso companheiro-presidente Salvador Allende, Serra hoje não é mais companheiro (só governador), ele nem sequer respondeu.

Recebi uma enxurrada de mensagens de defensores da Rota, incluindo ameaças ostensivas ou veladas, enviadas tanto ao meu e-mail quanto aos meus dois blogs.

Minha resposta a essa campanha articulada foi o artigo Não desviarei da Rota ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/12/no-desviarei-da-rota.html ). Reafirmei tudo que anteriormente dissera e acrescentei: “aconselho a Rota a apagar do seu site as loas a operações por ela desenvolvidas durante a ditadura, as quais, em todo o mundo civilizado, hoje têm uma imagem tão negativa quanto as chacinas da Gestapo”.

Agora, o portal Brasil de Fato enfocou o assunto em reportagem, ouvindo o oficial de Planejamento e Operações da Rota, 1º Tenente Gerson Pelegatti, que qualificou as exaltações à ditadura militar como “um grande equívoco” e prometeu tirar a página do ar para que seja feita “uma limpeza geral”.

Disse que a identificação com a ditadura não corresponde mais ao pensamento dos policiais. E garantiu que as correções serão feitas com a máxima rapidez possível.

Como antigamente se dizia, pelo menos vão tirar o bode da cela.

A lamentar apenas o jornalismo distraído (será que é só isto?) do Brasil de Fato, que omitiu ter sido o assunto levantado por mim. As boas práticas jornalísticas mandam que sempre se dê crédito ao autor da denúncia.

Eu, pelo contrário, faço questão de registrar que foi o bravo companheiro Ismar C. de Souza, em suas incansáveis navegações pelos mares poluídos dos sites e portais das viúvas da ditadura, quem constatou que a página da Rota ainda reverberava a retórica totalitária do período 1964/85 . A ele devo as informações que motivaram minha tomada de posição.

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