Ritual da vitória e a Batalha do Alemão: o espetáculo chega ao fim

Pouco mais de uma semana após o fim da “Batalha do Alemão”, ficou claro que o rito do espetáculo televisivo conseguiu promover a coroação do Estado “libertador”, chegou ao seu clímax com a perseguição ao Mal absoluto e fechou brilhantemente com o triunfo do Bem, a tempo de retomar a “ordem pública” antes da final do campeonato brasileiro de futebol e do início do Natal.

Ao fim de toda a encenação, resta apenas o cotidiano: violência urbana, desrespeito a direitos fundamentais como moradia, saúde e educação, corrupção estatal diária da banda podre da polícia, desrespeito às reivindicações dos bons policiais e a mais absoluta invisibilidade pública.

(…) E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Chico Buarque, “Construção”, 1971

Os sistemas de comunicação contemporâneos são tidos como uma novidade, algo próprio de um tempo sem paralelo, em que o poder da imagem é tão grande quanto era o poder da autoridade religiosa na Idade Média.

Será? Mais ou menos.

Nas catedrais da Idade Média, lembra o historiador Peter Burke, as imagens esculpidas em madeira, pedra ou bronze e em vitrais (pinturas sobre o vidro) formavam um poderoso sistema de comunicação. Até mesmo nas culturas grega e romana, tidas como essencialmente orais – aqueles senhores realizando seus sermões – é questionada por historiadores, dada a importância das estátuas e da publicidade oficial. A arte das catedrais era, igualmente, didática e tinha uma função cultural muito importante. Na Idade Média, conta Burke, as pessoas aprendiam com as imagens tudo o que era necessário saber – a história do mundo desde a criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o âmbito das ciências, artes e ofícios. “Tudo era ensinado pelas janelas das igrejas ou pelas estátuas dos pórticos [galerias antigas]”, completa.

Em parte, esta realidade da Idade Média é explicada pelo baixo nível intelectual, o que justificava a busca por uma comunicação ágil e fácil de se fazer entender.

Uma das formas de alcançar este objetivo era dar enorme importância aos rituais públicos das autoridades como, por exemplo, a coroação de reis e a homenagem de vassalos ajoelhados em frente a seus superiores sentados. O mesmo tipo de ritual se repete hoje na Inglaterra, na coroação televisionada da rainha Elisabeth II. Para quem via ou vê a cena, à época e ainda hoje, fica evidenciado que trata-se de um evento importante.

O rito, portanto, sempre possuiu um forte componente visual, uma forma superior de publicidade – no sentido mais amplo da palavra, ou seja, a efetivação de mecanismos complexos para deixar algo estancado no imaginário social. Não é à toa que a palavra “espetáculo” era de uso comum já no século XVII e foi ressuscitada no século XX. Isso se deu a partir de uma conjuntura histórica e social.

Atualmente, os governantes mais perspicazes se utilizam deste mecanismo cultural para continuar dominando populações em todas as partes do mundo. A construção da “guerra no Iraque”, sem qualquer comprovação dos motivos oficiais dados à época, só foi possível a partir da elaboração de uma narrativa que se integrasse à lógica da espetacularização midiática. E não se trata de se integrar apenas, como alguns poderiam pensar, aos grandes meios de comunicação e seus referenciais político-econômicos. Não é só isso.

A narrativa, para fazer sucesso, deve obedecer padrões culturais que foram internalizados na maior parte das pessoas a partir de diversas referências alheias ao debate da questão específica (neste caso, a necessidade ou não de uma guerra). A saber: a literatura, o cinema, os valores familiares, as teorias mais aceitas da psicologia etc. Deve manipular estas questões, sobretudo, a partir dos binarismos mais aceitos, tal como BemXMal, VitóriaXDerrota, SucessoXFracasso, entre outros.

É justamente por isso que, numa situação de crise ou intenso debate, as pessoas escolhem “um lado” – o que já é um resultado de um binarismo, pois os “lados” podem ser escolhidos politicamente – e defendem fervorosamente determinada posição, sem ao menos conhecer as implicações desta escolha.

No que diz respeito à recente crise vivida no Rio de Janeiro, foi notável a execução deste mecanismo no processo de convencimento de que

(I) o Rio estava em guerra durante uma semana;
(II) o Bem era a Polícia e o Estado e o Mal eram os traficantes, que possuíam seu “coração” no Complexo do Alemão e;
(III) qualquer um que se opunha ou que relativizasse esta Verdade deveria ser colocado(a) entre os infiéis da Batalha entre o Bem e Mal, nesse caso defendendo o Mal (os traficantes).

Para alcançar este objetivo, foram utilizadas pelas autoridades (midiáticas ou políticas) imagens históricas (“Dia D”, “Batalha do Alemão”), o binarismo do BemXMal e da VitóriaXDerrota, o sentido de urgência típico de momentos de (supostas) intensas transformações (“É agora ou nunca”) e, finalmente, a imagem do triunfo (O Bem venceu o Mal e todos ficaram felizes para sempre).

A construção político-midiática do estado de exceção e da guerra contra o Mal, uma espécie de adaptação dos rituais da Idade Média, é essencial para dar a sensação de que os acontecimentos da última semana no Rio fazem parte de um evento importante e único. Foto: Apu Gomes/Folhapress.
A construção político-midiática do estado de exceção e da guerra contra o Mal, uma espécie de adaptação dos rituais da Idade Média, é essencial para dar a sensação de que os acontecimentos da última semana no Rio fazem parte de um evento importante e único. Foto: Apu Gomes/Folhapress.

Passada uma semana, temos que:

(I) o Rio continua numa situação de violência extrema, com a milícia e as facções criminosas ainda a dominar a maior parte do território;
(II) a Polícia continua a mesma, bem distante da imagem do “Bem”, dos “libertadores da população oprimida”: participa de todas as bocas de fumo existentes na cidade, participa ativamente das milícias (com armas e recursos humanos) e negocia diariamente com os traficantes por meio dos mesmos mecanismos anteriores (“arrego”, “pacto” etc);
(III) O Estado e, em particular, as autoridades cariocas na área de segurança continuam a adotar a tese de que os casos de corrupção na Polícia são frutos de “desvios” e não de um mecanismos sistêmico e continuado e que mereceria, portanto, uma reforma mais ampla;
(IV) Os policiais continuam a ser desrespeitados, com um piso salarial ridículo (pouco mais de mil reais), péssima formação e nenhum controle social para tentar impedir os abusos e violações de direitos humanos. Além disso, a categoria de Policiais Militares continua a reclamar da diferenciação de tratamento em relação aos policiais vinculados ao BOPE (que ganham duas vezes mais e são mais preparados) e às UPPs (cujos benefícios são maiores). Vide documento divulgado por PMs em 2003 e republicado pela Revista ConsciênciaNet em 2003 a pedido de um grupo de oficiais da própria corporação. O caminho da Secretaria de Segurança e da Assembleia Legislativa é inverso: A Secretaria promete a contratação de mais policiais (aumentando o risco de mais violações sistemáticas) e os deputados um aumento salarial ínfimo (70%) e, mesmo assim, a conta-gotas (até 2014).
(V) As denúncias de violações de direitos humanos, que era mais do que esperadas por quem acompanha o assunto – e teve a “sorte” de não ser “atingido” pela histeria coletiva da semana passada –, se multiplicam, conforme pode ser lido aqui e aqui.
(VI) A população continua sem mínimos mecanismos locais de consulta popular e participação no processo decisório, nos rumos das suas próprias comunidades. As ações chegam de cima pra baixo e, mesmo em 9 das 13 unidades de polícia comunitária (UPPs), não temos nem sinal de algum novo serviço na área social.

Neste contexto, fica mais ou menos evidenciada a farsa midiática ocorrida durante a semana passada e retrasada – incluindo a verificação de que alguns dos “fatos” que serviram de combustível para a histeria coletiva eram notáveis fraudes. Após o fim da encenação teatral de grande porte, a maior parte da população fecha os olhos novamente para o imenso desafio que é a segurança pública e se volta para assuntos mais importantes, como o campeonato brasileiro e os grandes eventos de fim de ano.

A fraude só é possível porque, tal como na Idade Média, pouco importa o conteúdo em uma sociedade de iletrados – incluindo aí, principalmente, os iletrados que sabem e poderiam “ler” nossa sociedade em toda a sua complexidade, mas preferem não fazê-lo. O triunfalismo da narrativa bem estruturada a serviço das autoridades – tanto as midiáticas quanto as político-institucionais – se demonstrou mais uma vez muito eficiente.

Charge: Revista Voto (www.revistavoto.com.br)

O rito do espetáculo televisivo promoveu a coroação do Estado “libertador”, chegou ao seu clímax com a perseguição ao Mal absoluto e fechou brilhantemente com o triunfo do Bem, a tempo de retomar a “ordem pública” antes da final do campeonato brasileiro de futebol e do início do Natal. A população pobre das periferias voltou finalmente para seu devido lugar – imersos na violência urbana; no desrespeito a direitos fundamentais como moradia, saúde e educação; na corrupção estatal diária da banda podre da polícia; no desrespeito às reivindicações dos bons policiais; e na mais absoluta invisibilidade pública.

Este é o nosso grotesco paradoxo a ser superado: sem apoio da sociedade – a mesma que deu em parte apoio incondicional à histeria coletiva e comprou o espetáculo, segundo pesquisas de opinião pública – pouco podemos propor de efetivo. Em outras palavras: como propor mudanças realmente democráticas se o apoio popular continua a ser moldado em grande parte a partir dos mesmos instrumentos político-midiáticos, quase sempre autoritários, como se observou neste caso?

As autoridades ganharam, mais uma vez, carta branca para dar continuidade às mesmas políticas públicas de segurança de sempre: sem participação popular e atendendo a interesses pontuais – entre os quais a defesa do cinturão dos bem nascidos, a cumplicidade com milicianos, o esquecimento de comunidades marginalizadas em termos sociais e a preparação do Rio apenas para a Copa e para as Olimpíadas.

_____________________________________________
@gustavobarreto_(*) Gustavo Barreto, jornalista. Contato pelo @gustavobarreto_.

3 comentários sobre “Ritual da vitória e a Batalha do Alemão: o espetáculo chega ao fim”

  1. Pingback: Tweets that mention Ritual da vitória e a Batalha do Alemão: o espetáculo chega ao fim | Revista ConsciênciaNet: acesse a sua. -- Topsy.com

  2. Muito oportuna e pertinente a sua reflexão sobre o binarismo destinado a cegar e falsificar a realidade, que lamentavelmente, segue seus dias tal qual antes. A gravidade da situação é extrema e toda esta parafernália é um engodo para encobrir o verdadeiro morro do Alemão que não se quer enfrentar, como muito bem apontou Luiz Eduardo Soares no programa Roda Viva. Graves e tenebrosos dias nos esperam, caso continuemos a nos enganar com estas farsas. Cabe a cada um, a todos nós, começarmos a cobrar pelo fim da corrupção sistêmica, pelo fim do judiciário inerte, pelo fim do “é assim mesmo”. Precisamos de uma epidemia de indignação. Parabéns pela clareza.

Deixe uma resposta