Riso, arte e educação: inimigos primordiais da tirania trumpista

O caso de Stephen Colbert, apresentador da emissora estadunidense CBS, simboliza como Trump, em sua escalada autoritária, busca subjugar os pilares da liberdade e do pensamento crítico.

David Brooks / La Jornada / Nova York / Diálogos do Sul Global, Tradução: Beatriz Cannabrava

Os políticos no poder, sobretudo os mais autocratas, e portanto débeis, não aguentam o riso (sobretudo o deboche) e percebem a cultura e a educação como inimigas.

Quando a rede nacional CBS anunciou, há algumas semanas, que não renovará o contrato com Stephen Colbert, que termina em maio de 2026, era evidente a razão. A empresa até insistiu que a decisão se deu por questões financeiras — o programa noturno The Late Show, comandado pelo comediante, é o programa de entrevistas e variedades mais bem-sucedido do canal — e nada tinha a ver com o conteúdo. A realidade é que Colbert havia se atrevido mais uma vez a zombar não apenas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – algo que tem feito de forma incessante e que às vezes é tão efetivo que chega a ser noticiado no dia seguinte – como também criticou os donos da CBS (ou seja, seus chefes máximos) por pagarem o que ele qualificou como “um grande e gordo suborno” ao republicano para resolver uma ação judicial.

Pois parece que já não aguentaram a verdade apresentada com tanto humor. Colbert se referia aos 16 milhões de dólares pagos a Trump pela empresa dona da CBS, a Paramount, em troca de que fosse descartada uma ação judicial apresentada pelo mandatário contra a emissora. O pagamento também visou fazer avançar a fusão da Paramount com a Skydance (cujo dono é filho de Larry Ellison, magnata amigo do republicano), o que demanda a aprovação do governo de Trump.

Assistir Paramount’s Trump Settlement: A Big Fat Bribe | Jeffrey Epstein Never Dies | FIFA Trophy Row em:

https://youtu.be/zzvx3L3DQb8?si=oEvAAj_cS7U6Gtvm

Ainda não se sabe se a decisão de cancelar o programa de Colbert, anunciada 48 horas depois de seu comentário em 14 de julho, foi porque os executivos e donos da CBS ficaram irritados ou se foi parte de um presente ao presidente (que expressou sua alegria: “Achei maravilhoso que Colbert tenha sido demitido”).

Dizem que até o bobo da corte sempre corre o risco de cruzar a linha quando o rei deixa de rir. Colbert é um comediante satírico que, de certa forma, é parte da corte oficial dos Estados Unidos por ter seu programa em uma das quatro grandes redes nacionais de televisão – ou seja, não é um comediante de um circuito menor ou marginal. Mas a reação de muitos à notícia não foi apenas de tristeza, mas de alarme: alguns advertiram que é mais um sinal das tentativas de suprimir, sufocar, fechar e até reprimir tudo o que não se submeta ao novo regime.

Alguns argumentam que isso é apenas parte de um esforço mais amplo de Trump para tentar tomar controle direto de várias instituições culturais e educativas públicas, desde a rede de museus do Smithsonian até o Kennedy Center, além da televisão e rádio públicas (acaba de ser aprovada uma legislação promovida pela Casa Branca para anular o orçamento da PBS e da NPR). Além disso, a postura faz parte de uma ofensiva que inclui impor a narrativa oficial até nas escolas públicas — aliás, o mandatário está desmantelando o Departamento de Educação.

Outras frentes dessa ofensiva incluem a pressão para que universidades – inclusive algumas das mais prestigiadas, como Harvard e Columbia – se submetam à “supervisão” do governo em suas políticas educativas e até em assuntos de pessoal acadêmico. Alguns percebem o que aconteceu com Colbert como parte de uma política de intimidação contra os meios de comunicação quando estes se atrevem a desafiar a narrativa oficial (Trump acaba de apresentar uma ação judicial contra o Wall Street Journal e seu dono – e ex-aliado – Rupert Murdoch), por publicarem uma matéria que põe em dúvida a versão do presidente sobre sua relação pessoal com Jeffrey Epstein, que se suicidou após ser preso sob acusação de tráfico sexual e outros serviços ilegais prestados a seus amigos – entre eles o atual presidente.

“Os tiranos veem cidadãos educados como seus maiores inimigos… É por isso que Trump está atacando o Departamento de Educação, as ciências e as artes – para evitar que nos eduquemos. Isso é fascismo”, comenta o professor e ex-secretário do Trabalho Robert Reich.

O riso, as artes, a ciência e o (bom) jornalismo estão entre os primeiros da lista de inimigos de Trump, justamente porque estão entre os primeiros da resistência contra os projetos da direita.

Assistir Smokey Robinson & The Miracles – The Tears Of A Clown (Lyric Video) em: https://youtu.be/51B55OQysj8?si=fNqEct3rzx8RKCzk 

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.

Foto de capa: Trump acaba de apresentar uma ação judicial contra o Wall Street Journal e seu dono, Rupert Murdoch, por publicarem uma matéria que põe em dúvida a versão do presidente sobre sua relação pessoal com Jeffrey Epstein (Crédito: Joyce N. Boghosian / Casa Branca)

David Brooks: Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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