Revolução, Feminismo e Cultura Popular: 121 anos de Eneida de Moraes

Eneida de Moraes Acervo do Grupo de Estudo Eneida de Moraes. O Liberal

Filiada ao Partido Comunista do Brasil, jornalista e escritora teve trajetória marcada pela participação no modernismo brasileiro.

São Paulo / Opera Mundi – Pensar a História,

Há 121 anos, em 23 de outubro de 1904, nascia a jornalista, escritora, carnavalesca e militante comunista Eneida de Moraes. Ela foi uma das primeiras mulheres a conquistar espaço na imprensa brasileira e participou ativamente do movimento modernista no Pará.

Filiada ao Partido Comunista (PCB), Eneida atuou na mobilização da classe operária, organizando greves e manifestações. Foi também militante da Aliança Nacional Libertadora e da União Feminina do Brasil e sofreu 11 prisões durante a Era Vargas. Companheira de cela de Nise da Silveira e Olga Benário, foi imortalizada nas Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos.

Eneida se destacou por produzir obras autobiográficas e memorialistas imbuídas de análises e observações agudas sobre os problemas sociais do Brasil. Foi também uma intelectual apaixonada pelo estudo da cultura popular. Escreveu História do Carnaval Carioca, fundou o Baile do Pierrot e foi a primeira madrinha da Banda de Ipanema.

Juventude, formação e carreira jornalística

Eneida de Villas Boas Costa nasceu em Belém do Pará, primogênita dos quatro filhos de Guilherme Joaquim da Costa e Júlia Vilas Boas. Seu pai, descendente de indígenas, era um comandante de navios que enriqueceu durante o Ciclo da Borracha. A mãe era uma ex-professora primária que havia dado aulas para uma comunidade indígena de Óbidos.

Por influência da mãe, Eneida se interessou pela literatura desde muito cedo. Aos oito anos de idade, ela já havia vencido um concurso literário, publicando um conto de sua autoria na revista Tico-Tico. Cursou o ensino básico no Colégio Sion, um internato para meninas em Petrópolis. Retornou para Belém aos 14 anos, concluindo os estudos no Ginásio Paes de Carvalho.

Aos 15 anos, Eneida perdeu sua mãe, vitimada pela Gripe Espanhola. A convivência com o pai, muito rígido e autoritário, tornou-se cada vez mais difícil. A fim de obter a emancipação da tutela paterna, Eneida se matriculou na Faculdade de Odontologia. O curso, entretanto, não a interessava.

Em paralelo à graduação, Eneida se dedicou ao ofício de jornalista e escritora, redigindo artigos para as revistas A Semana e Guajarina, ambas dirigidas por Peregrino. Escrevia sobre temas variados, de literatura a análises políticas, além de redigir poemas sobre as riquezas naturais do Pará.

Em 1921, já graduada, Eneida se casou com Genaro Bayma de Moraes, futuro pai de seus dois filhos, Léa e Octávio Sérgio. Apesar da formação, ela nunca exerceu a profissão de dentista — sobretudo porque tinha horror a sangue. Seguiu trabalhando como jornalista e escritora após o casamento, fato que causaria grande incômodo a seu marido.

Eneida participou ativamente no movimento modernista de Belém, atuando na Associação dos Novos e produzindo textos influenciados pelas correntes de vanguarda. Perfilou-se ao grupo reunido em torno do Manifesto Flaminaçu, de Abguar Bastos, que conclamava os intelectuais do Norte do Brasil a produzirem uma literatura embasada na cultura local e no fabulário amazônico.

Mesmo possuindo críticas pontuais ao Movimento Pau-Brasil, Eneida também se aproximou do grupo modernista de São Paulo e chegou a publicar seus poemas na revista Antropofagia, editada por Oswald de Andrade. A partir de 1927, ela se tornou colunista da revista Belém Nova e do jornal Para Todos, ambos ligados à difusão do pensamento moderno. Também atuou como crítica literária do jornal O Estado do Pará.

Em 1929, Eneida publicou seu primeiro livro — Terra Verde, uma coletânea de poemas publicados na imprensa paraense, tendo por enfoque a exaltação das belezas naturais da Região Amazônica. No ano seguinte, a jovem escritora foi agraciada com o Prêmio Muiraquitã, em reconhecimento às suas contribuições para a literatura regional.

Com o casamento desgastado pela postura inflexível do marido, incomodado tanto pelo ofício da esposa quanto pelo teor de seus artigos sobre política e feminismo, Eneida se desquitou em 1930.

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