Repressão policial atiça protesto contra aumento de ônibus em SP

Vinicius, assistente social, foi agredido por policiais, preso e será submetido a uma cirurgia. Foto: Reprodução.

Se a polícia não tivesse atacado os manifestantes, a maioria estudantes secundaristas e universitários, certamente seria mais um protesto de rua – e não dos maiores e mais relevantes – contra o reajuste das tarifas de ônibus e do metrô em São Paulo, movimento que pretende ter caráter nacional, já que vem ocorrendo em outras capitais importantes do país. Ontem, quinta-feira, dia 17, foi o chamado Dia Nacional de Luta pelo passe livre e contra o aumento das tarifas e os estudantes se concentraram, a partir das 5 horas da tarde, no Viaduto do Chá, em frente da prefeitura.
Nos primeiros 90 minutos (mais ou menos) foi uma manifestação pacífica, em torno de mil pessoas, dentro do tom costumeiro em tais eventos, com os jovens destilando energia e entusiasmo, com seus cartazes e bandeiras, seus ousados slogans e chamamentos: “Vem também pra rua contra o aumento, vem!”, “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, “Sai do chão, sai do chão, contra o aumento do busão”, “Três, três, três reais não dá, eu quero passe livre, passe livre já!” (no dia 5 de janeiro a passagem de ônibus passou de 2,70 para 3,00, enquanto a do metrô, no dia 13 de fevereiro, subiu de 2,65 para 2,90). Deram um jeito de atear foto a uma catraca, semelhante às usadas nos ônibus, para simbolizar a luta pelo passe livre. Um dos líderes, que agitavam a massa com rápidos discursos pelo megafone, profetizava: “Só as ruas podem retirar este aumento”.
Antes da violenta repressão, os manifestantes estavam contidos por barreiras policiais (além da cerca de grades) pela frente e por trás. O trânsito no Viaduto do Chá estava livre. Foto: Jadson Oliveira.

Mas, aparentemente, o prefeito Gilberto Kassab e/ou outras autoridades acharam um desaforo esta forma democrática (e pacífica) da sociedade se manifestar publicamente. “Afinal, para que temos o poder de polícia?”, devem ter pensado. E os policiais, incluindo um pelotão de choque, investiram contra os manifestantes, na base de golpes de cassetete, spray com gás pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral (entre os manifestantes corria a informação de que a PM teria feito também disparos com balas de borracha). Foi aquela correria aos gritos de “covardes, covardes!” e “filhos da puta, filhos da puta!”. Um rapaz reagiu, entrou em luta corporal com os repressores, deu uns murros em alguns e terminou dominado e algemado por uns três ou quatro PMs.
O vereador José Américo leva a mão aos olhos atingidos pelo ardor do gás de pimenta. Jadson Oliveira.

Três vereadores petistas – José Américo, Antônio Donato e Juliana Cardoso – entraram na confusão tentando aplacar a fúria dos policiais. Sofreram muitos empurrões e algumas bordoadas. José Américo, o mais destemido, passou maus momentos com jatos de gás pimenta na cara. Ficou com os olhos inchados, mas se manteve firme. Anunciou aos jornalistas que faria uma representação contra o comando da operação, lembrando inclusive que os agentes da repressão se negaram a se identificar. (Sobre o gás pimenta, sobrou um pouco para mim: tive uma incômoda sensação de ardor nos olhos, mas passou rápido. Depois, não sei bem como e por que, fiquei sentindo ardor nas pernas – estava de bermuda -, como se tivesse sofrido uma queimadura leve).
Outro vereador, também do PT, conhecido como Alfredinho (Alfredo Alves Cavalcante), esteve presente em toda movimentação. Teve, porém, uma reação mais acomodada. Falei com ele sobre a situação do rapaz preso e algemado, o qual ficou pelo menos uma meia hora sentado junto ao prédio da prefeitura, na frente, no espaço dominado pelos policiais, ao qual os manifestantes não tinham acesso (a frente do prédio esteve o tempo todo protegida com uma cerca de grades, além da barreira formada pelos PMs, atrás das grades). Perguntei a Alfredinho, que estava sempre no espaço dos policiais, isto é, atrás das grades, qual era o nome do rapaz. Disse que não sabia.
– Mas o rapaz está ali sentado este tempo todo, algemado, como é que fica? Ele vai ser levado pra prisão?
– Tem um advogado que está cuidando dele, disse o vereador.
– Quem é o advogado, como é o nome dele?
– Não sei, é um advogado do pessoal aí, respondeu, referindo-se aos manifestantes e comentando que ele seria levado a um hospital para ser medicado.
Os ataques do pelotão de choque atiçaram o ânimo dos estudantes: eles corriam pelo Viaduto do Chá, xingavam e voltavam no meio das nuvens de fumaça das bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Foto: Jadson Oliveira.

Depois de uns 30 minutos, o rapaz, sempre algemado, foi levado num carro da polícia. Seu nome é Vinicius Figueira, estudante, estava com a camisa manchada de sangue. Um repórter da revista Carta Capital conseguiu falar com ele quando entrava na viatura e me passou sua identificação.
A partir do ataque da polícia, os estudantes – havia entre eles, em pequeno número, metroviários e ferroviários – se espalharam pela rua, sempre em frente da prefeitura, mas então cortando o trânsito de carros no Viaduto do Chá. Até a repressão policial, o trânsito não havia sido impedido, pois os manifestantes estavam contidos entre as grades e outra barreira de policiais, com motos, no início do asfalto. Ou seja, o trânsito no Viaduto do Chá estava livre. Isto contradiz um oficial da PM que, ainda no meio da confusão, tentava explicar aos vereadores que “a manifestação é legítima”, mas eles não podiam permitir que a população fosse impedida de se locomover na cidade.
A partir também da repressão policial, os estudantes, óbvio, se exaltaram mais, alguns lançaram objetos contra os PMs, como sacos de lixo e até um guarda-chuva, coisas sem qualquer relevância do ponto de vista de agressão ou ataque. E entraram pela noite, com toda energia que a natureza sabe brindar à juventude, pulando, fazendo barulho, com batucada e vuvuzelas. E lançando seus gritos de guerra, aos quais acrescentaram mais um: “Kassab, vai tomar no c…” Enquanto isso, os policiais mantinham sua barreira na frente do prédio e o pelotão de choque se afastou um pouco, perfilando-se no início da Praça do Patriarca. O quadro era este já passando das 9 horas da noite.
A queima da catraca simbolizou a luta pelo passe livre. Foto: Jadson Oliveira.

Dentro do prédio, no salão da entrada, seis estudantes faziam um protesto singular, segundo relatavam os companheiros: se mantinham desde a manhã acorrentados às catracas que dão acesso aos elevadores do edifício (o jornal Folha de S.Paulo noticiou hoje que os seis encerraram o protesto e deixaram o prédio da prefeitura por volta das 10 horas da noite). De acordo com os estudantes, foram divulgadas fotos dos acorrentados no sítio do Facebook da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel).
E os milhares de transeuntes daquela movimentadíssima área da capital paulista foram para casa ontem com panfletos falando da luta, da importância da participação do povo e da tentativa de negociação (até ontem frustrada). Além da Anel, assinam os panfletos entidades como Comitê de Luta contra o Aumento da Passagem, Movimento Passe Livre, DCE-Livre da USP, Secretaria Municipal de Juventude do PT, Sindicato dos Metroviários, Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana, Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) e Intersindical.
(*) Nota do editor: Vinicius Figueira é assistente social, servidor público do município de São Paulo, e está internado no Hospital do Servidor Público e Municipal onde será submetido a uma cirurgia.

3 comentários sobre “Repressão policial atiça protesto contra aumento de ônibus em SP”

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  2. VISITEM MEU BLOG ISSO AO MEU VER É MAIS UM DESPREPARO DA PM/SP ,UMA PROVAS DE ABUSO DE PODER, HOMENS SUPOSTAMENTE TREINADOS PARA COMBATEREM ATOS DE VIOLÊNCIA E MANTEREM AO ORDEM ACABAM AGINDO PIOR!AH MOMENTOS QUE SINTO VERGONHA DAQUELES QUE SERVEM A PROFISSÃO DO MEU PAI,IRMÃO E ESPOSO!meu blog priscila de olho na escola

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