Reflexões sobre as eleições no Rio

As escassas tentativas de esclarecer os eleitores foram interrompidas por decisões editoriais ou não tiveram a amplitude necessária. Um dos resultados da ditadura da mídia aliada à ditadura do dinheiro é o desinteresse do cidadão, que favorece à direita. Por Marcelo Salles, do Fazendo Media.

As eleições municipais no Rio de Janeiro se encerram neste domingo (5/10) sem encantar o carioca. As razões são várias e cada grupo político pode alegar a sua – isso entre os que gostariam de ver um processo eleitoral mais animador, que conseguisse mostrar ao cidadão a importância deste momento.

O fato é que as forças da direita conseguiram concretizar seus desejos. Eduardo Paes (PMDB), Gabeira (PSDB, PV e PPS) e Crivella (PRB), todos representantes do que há de mais conservador, estão à frente nas pesquisas de opinião. PMDB e PSDB, ao lado do DEM, controlam o poder no Rio de Janeiro há duas décadas. A eleição de qualquer um de seus candidatos significa o aprofundamento do modelo neoliberal, ou seja, privatizações, caveirão e desemprego. Crivella, por sua vez, não representa mudança substantiva; talvez apresente alguma disputa comercial, mas nada que não possa ser resolvido num “acordo de cavalheiros”.

Ditadura do dinheiro
A campanha de Eduardo Paes foi a que mais arrecadou. Até agosto o candidato do PMDB havia declarado a pequena fortuna de R$ 3,166 milhão. Dinheiro de empreiteiras, imobiliárias e bancos. Gabeira não ficou muito atrás. Reuniu um total de quase R$ 2 milhões até agosto, basicamente das mesmas empresas. Crivella e Solange, a candidata do prefeito César Maia (DEM), também arrecadaram valores similares das mesmas fontes.

A empreiteira baiana OAS, que protagonizou o escândalo conhecido com Obras Arranjadas pelo Sogro, envolvendo ACM, foi quem mais investiu: pelo menos R$ 1,5 milhão, sem contar o valor destinado a Crivella, único candidato a não revelar o montante arrecadado. Até candidatos do campo progressista receberam dinheiro da OAS (Jandira Feghali, do PCdoB, R$ 400 mil; e Alessandro Molon, do PT, R$ 100 mil). Bradesco e Carvalho Hosken também doaram dinheiro para candidatos da direita. As duas empresas estiveram envolvidas nos despejos violentos promovidos pela prefeitura, em 2006, na Barra da Tijuca, conforme publicado no Fazendo Media (leia aqui) e na edição de julho deste ano da revista Caros Amigos.

Nestas eleições cariocas, o quadro econômico reflete a desigualdade social em que vivemos. Pode-se dizer que as quatro campanhas mais ricas (Paes, Gabeira, Crivella e Solange) tiveram cerca de 15 vezes mais recursos para trabalhar do que as quatro mais pobres. Sozinho, o PMDB arrecadou 25 vezes mais que o PSOL, partido do combativo Chico Alencar – número que pode ser ainda maior, pois não computa os valores de setembro (não declarados) do candidato peemedebista. “É a colonização da política pela economia”, afirmou Chico, que foi um leão durante a campanha. Mesmo com todas as debilidades de seu partido, o incansável candidato denunciou por mais de uma vez, em praça pública, o abuso do poder econômico e também o crescimento de uma outra forma de banditismo, este mais explícito, na vida política carioca: candidatos a vereador acusados de integrar milícias concorrendo por partidos grandes, como PMDB, PT e DEM.

Ditadura da mídia
Mas não foi só o sistema financeiro quem favoreceu as candidaturas do sistema. Os meios de comunicação de massa foram utilíssimos na manutenção da atual configuração eleitoral. Em primeiro lugar porque não promoveram um debate sequer, de modo que ao eleitor só chegavam as notícias devidamente editadas. Para banir o debate, a TV Globo alegou ser inviável um encontro com mais de cinco candidatos – apesar de a Band, em São Paulo, ter feito com oito. No Rio, a empresa da família Marinho jogou a culpa em Paulo Ramos, candidato do PDT, que não quis assinar o acordo.

A argumentação da Globo soa como um escárnio. Nitidamente baseada em critérios mercadológicos, a empresa alijou o cidadão carioca de conhecer melhor as propostas daqueles que pleiteiam governar a cidade. As demais emissoras procederam da mesma forma. A Justiça Eleitoral, por sua vez, esqueceu que essas empresas operam concessões públicas de radiodifusão e, como tal, devem promover o interesse público acima de tudo. O obscurantismo favorece aos mesmos grupos políticos que crescem nas sombras, subtraindo a pátria mãe tão distraída em tenebrosas transações. Como disse Mino Carta à revista Caros Amigos, “a mídia está ligada ao dinheiro” (em entrevista publicada na edição de dezembro de 2005).

Paulo Ramos não deixou barato. Desde o início da campanha enfrentou o poder imperial das Organizações Globo, demonstrando coragem digna de nota. Enquanto a esmagadora maioria dos políticos daria tudo para não entrar numa briga com a Globo, Paulo denunciou desde o início a manipulação editorial da empresa. “A Globo lidera um golpe no município, como o que elegeu Collor. Ela já escolher divulgar os candidatos que poderão ser eleitos e os que não serão eleitos”, disse à Caros Amigos de setembro deste ano. Em diversos momentos da campanha, o candidato pedetista denunciou a postura antidemocrática da emissora.

As escassas tentativas de esclarecer os eleitores foram interrompidas por decisões editoriais ou não tiveram a amplitude necessária. O jornal O Globo, que não é mídia de massa, tentou esclarecer seus leitores e consultou especialistas nas áreas de transporte, urbanismo, saúde e educação sobre as propostas de oito candidatos. Uma iniciativa interessante, cujo resultado final não foi publicado. Talvez porque os candidatos da predileção do jornal não estivessem entre os primeiros. Chico Alencar, da Frente Rio Socialista, foi o vencedor. O JB, que também não é mídia de massa, foi o único veículo de comunicação a promover um debate amplo com os candidatos.

Oportunidade para reflexão
Um dos resultados da ditadura da mídia aliada à ditadura do dinheiro é o desinteresse do cidadão. Como essa dupla ditadura serve à direita, que no Rio promove o modelo neoliberal (esse mesmo que agora faz água nos EUA), a mensagem que chega ao eleitor é: não adianta votar porque político é tudo igual. Ou seja, interessa à direita que a noção de poder público seja esquartejada, porque é nivelando por baixo que os canalhas levam vantagem. Mal sabe o cidadão que agindo desta forma ele faz o jogo daqueles que vão explorá-lo pelos próximos quatro anos.

Seja quais forem os números das urnas, este 5 de outubro de 2008 poderá ser um bom momento de reflexão para o campo progressista e a esquerda. Além de reclamar, com justeza, dos muitos obstáculos, é preciso ter humildade para reconhecer seus próprios erros. E, entre eles, a omissão na luta pelas representações. Isso num país com quase 200 milhões de pessoas, mas apenas 7 emissoras abertas de televisão – sendo que seis delas são ideologicamente afinadas à direita e a outra apenas começa a esboçar uma nova narrativa.

A esquerda partidária ainda não compreendeu que a mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produção e reprodução de subjetividades. Há outras instituições, como Família, Hospital, Igreja, Forças Armadas e todo um escopo de organizações disciplinares. Mas a mídia supera todas as outras em função de sua transversalidade e devido ao alcance que atingiu com o desenvolvimento tecnológico.

Ou seja, é a mídia quem tem maior poder de produzir e reproduzir formas de sentir, perceber, agir e viver. Se você tem um campo subjetivo construído à direita, esse sujeito vai pautar sua vida por atitudes à direita – incluindo o voto. Se, por outro lado, o repertório de palavras e imagens é progressista, temos o inverso.

Entendendo isso, resta saber se interessa à esquerda assumir essa bandeira – que não é tarefa de um, dois anos, mas um exercício de longo prazo.

(*) Marcelo Salles é jornalista.

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