
Bolsonaristas garantem os cliques buscados pela mídia através do zap.
Por: Luiz Carlos Azenha / Revista Forum / Publicado: 24/12/2025 – às 13h00 – Atualizado: 24/12/2025 – às 15h15
O espantoso nas recentes acusações de O Globo, Estadão e Folha ao ministro Alexandre de Moraes não é apenas que elas são TODAS, sem exceção, baseadas em fontes anônimas e suposições.
Caçando cliques ou tentando demonstrar “independência editorial”, sites que se apresentam como progressistas reproduzem as ilações de Malu Gaspar, Mônica Bérgamo e outros.
Num caso tão grave como este, em que um ministro do STF é acusado de fazer lobby por um banco que tinha um contrato de serviços com o escritório de sua esposa advogada — algo potencialmente escandaloso — a ausência de provas factuais e a negativa dos dois lados sob acusação — Gabriel Galípolo e Alexandre de Moraes — levaram a mídia corporativa a requentar velhos métodos.
“Moraes precisa provar que acusações não são verdade”, escreveu há dois dias O Globo, reproduzindo um conhecido método da Lava Jato.
Espalhar uma ilação e em seguida cobrar do acusado que ele “prove” que as notícias são falsas.
Não há, ainda, nenhuma prova factual de ligação telefônica entre Alexandre de Moraes e Gabriel Galípolo para tratar do caso do Master, mas o Estadão publicou:
Moraes chegou a ligar seis vezes para Galípolo num dia para tratar da venda do Banco Master ao BRB.
O texto, assinado por Eliane Cantanhêde e David Friedlander, é baseado em relatos de terceiras pessoas, um verdadeiro disse-me-disse:
Pessoas do meio jurídico e do mercado financeiro que ouviram relatos, inclusive, de um dos envolvidos.
Mônica Bérgamo reproduziu a fofoca na Band:
O interesse do Moraes pelo Banco Master já circulava em Brasília havia alguns meses. Muitas fontes dizem que Galípolo chegou a informar Lula e que a informação se espalhou até para banqueiros de SP. O problema disso tudo começa com o contrato de R$129 milhões de Viviane com o Master.
Nenhuma fonte identificada e o que começou como algo que “circulava” em Brasília tornou-se, na fala de Bérgamo, “informação”.
Banqueiro é uma das fontes?
Uma das fontes de Malu Gaspar, pelo que ela própria disse ao explicar a denúncia, teria sido o próprio dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que se dizia perseguido por outros banqueiros.
Essa era uma análise em Brasília nessa época. Eu cheguei a ouvir do próprio Vorcaro isso, que os banqueiros não queriam um novo entrante no mercado, um concorrente e por isso, então, ele era muito combatido.
Como se sabe, a jornalista baseou sua denúncia em “seis fontes” anônimas.
Somando Monica Bérgamo, Eliane Cantanhêde, David Friedlander e Malu Gaspar, não há uma única pessoa falando em on, ou seja, revelando sua identidade.
É um caso gravíssimo de jornalismo declaratório em off.
Curiosamente, nenhum deles enfatizou que o banco Master foi liquidado em 18 de novembro, ou seja, se houve lobby nem o Banco Central, muito menos o governo Lula, participaram de alguma patranha.
“Poderosos se protegem, e corrupção se alastra”, escreveu a Folha de S. Paulo em editorial de capa, sem mencionar que recentes ações da Polícia Federal acertaram em cheio o nexo entre a Faria Lima e o crime organizado, enquanto o ministro Flávio Dino mandou investigar a corrupção envolvida com as emendas no Congresso.
A Folha concentrou fogo nominalmente no ocupante do Planalto, ao dizer que “quadrilhas se aboletaram no INSS para saquear aposentados sob as barbas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, enterrando a origem do escândalo.
“Que não haja complacência com petistas e cupinchas de Lula pelo fato de amigos do presidente comandarem a Polícia Federal e vestirem togas no Supremo”, escreveu o jornal.
A importância da memória
É preciso relembrar aqui a manchete da Folha de S. Paulo de 6 de junho de 2005, ano pré-eleitoral:
PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson.
Estava criada a ideia do mensalão, que caiu na boca do povo mas nunca se provou: as investigações jamais determinaram que o PT comprou votos no Congresso por 30 mil mensais, até porque as matérias votadas pelo governo Lula eram do gosto de parlamentares conservadores.
Tudo baseado numa entrevista de uma parte interessada em “se vingar do PT”.
Houve, sim, dinheiro de caixa dois para apoiar a campanha eleitoral de aliados, prática amplamente utilizada à época, como se viu na lista (verdadeira) de Furnas, operada pelo PDSB.
Mas, não foi só: em 5 de abril de 2009, de novo ano-pré-eleitoral, a Folha publicou na capa uma ficha falsa da candidata Dilma Rousseff.
Vinte dias depois, escondeu o resultado de sua própria investigação, admitindo o erro de ter publicado na:
Primeira Página que a origem da ficha era o “arquivo [do] Dops”. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada — bem como não pode ser descartada.
Ora, se a autenticidade da ficha não poderia ser assegurada, por que publicá-la?
À época, a presidenta Dilma Rousseff escreveu uma carta desmoralizando a Folha. Trechos:
Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim”.
O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu.
O mais grave é que o jornal Folha de São Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site http://www.ternuma.com.br (“terrorismo nunca mais”), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.
Após a publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de São Paulo sobre a origem de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de Brasília.
Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou de enviar-me a prova.
Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 05/04/2009.
Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de São Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro.
Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.
Mais estranho ainda é que a legenda da ficha publicada pela Folha dizia: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”. Ora, se a Folha sabia que os chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar a ficha?
Nem é preciso dizer que a Folha não publicou a carta de Dilma.
Estamos, de novo, em ano pré-eleitoral.
