Povo na rua, levante da juventude e caso Demóstenes


De Salvador (Bahia) – Me impressiono com a falta de ocupação ou preocupação de políticos/militantes/estudiosos de esquerda com o tema mobilização popular, ir às ruas. Não seria esse fator imprescindível para se andar no rumo de mudanças na estrutura de poder em favor do povo, das maiores, dos injustiçados socialmente? Ou se, no Brasil, estamos no chamado descenso das massas, então não é bom ficar matracando isso todo dia?

João Pedro Stédile, o líder mais destacado do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), certamente não está entre os referidos acima. Volta e meia, o combativo Stédile está a chamar a atenção para a necessidade de mobilização dos trabalhadores, dos camponeses, da juventude.
Gosto de recordar que numa entrevista à revista Carta Capital, durante o primeiro mandato do presidente Lula, ele previu um ascenso de massas lá para meados do mandato presidencial seguinte, fosse Lula ou não reeleito. Não era bem uma previsão, o próprio Stédile reconhecia, era mais um “chute”, pode-se entender mais como um “pensamento desejoso”. Bem, o desejado ascenso não veio. Passou todo o segundo quatriênio de Lula e já estamos no segundo ano de Dilma. E nada.
Esta semana o líder do MST voltou a tocar no assunto em entrevista à TV Record (parte dela está no vídeo acima). Além de outros temas, fala da crise de representatividade – “os parlamentares e os políticos não representam mais a sociedade” -, fala do financiamento privado das campanhas eleitorais – “quem dirige os parlamentares são as empresas que financiaram a campanha” -, e defende, claro, uma reforma política.
E bate, a meu ver, no essencial: estamos num descenso do movimento de massas, o último ascenso se deu entre 1979 e 1990, a última greve geral foi em 1988. Estamos assim: o povo abriu mão da participação política, prefere assistir na televisão: “Vamos ver o que aconteceu na política” e se senta diante da TV. E vai continuar assim, diz Stédile, “enquanto não houver um reascenso do movimento de massas, para que as massas se transformem em atores da vida política”.
Alguém mais cuidadoso pode ressalvar que a mobilização popular não é tudo, não é panaceia, é preciso estar atento também à organização política. Está certo, certíssimo. Mas não esquecer que o povo nas ruas é fundamental para que as coisas comecem a mudar.
Um exemplo recente: quem vai negar que a queda-de-braço com os saudosistas da ditadura (os militares de pijama), tendo como pano de fundo a Comissão Nacional da Verdade, já apresenta uma feição mais favorável a partir da entrada em cena do Levante Popular da Juventude? E olhe que, em termos quantitativos, é (ainda?) uma mobilização minúscula: manifestações de apenas 100, 300, 500 pessoas.
“Stédile e o caso Demóstenes”
O vídeo foi postado no site da Record e no YouTube com título “Stédile e o caso Demóstenes”. É que a desgraceira do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-Goiás) continua dominando as pautas da mídia. Óbvio, com as conveniências de praxe: as quatro principais revistas semanais, por exemplo, são casos exemplares que devem estar sendo material riquíssimo nas faculdades de Jornalismo.
A Veja, que, tudo indica, está atolada na lama do caso Demóstenes/Carlinhos Cachoeira (apesar da blindagem da velha mídia), deu capa na semana passada com os mistérios do Santo Sudário e uma chamadinha sobre o tormentoso caso. Nesta semana, nada. A capa atacou de “revolução digital”, nem sequer uma chamadinha.
A IstoÉ e Época, esta semana, deram uma chamadinha, e preferiram dedicar suas capas também a assuntos “frios”, como se diz no jargão das redações. Somente a Carta Capital, uma revista realmente atrelada ao bom jornalismo, que teve a edição da semana “sumida” das bancas em Goiás, surfou lindamente na pauta do momento: “Abre o olho, Perillo” (referência ao governador goiano Marconi Perillo, do PSDB).
(Quem escreveu esta semana artigos interessantes sobre o caso Demóstenes/Cachoeira/mídia foi o jornalista Emiliano José, deputado federal pelo PT-Bahia. Faço link aqui para um deles, no Vi o Mundo: “O partido mídia e o crime organizado”).
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Salvador. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

Deixe uma resposta