Por uma economia que esteja ao lado dos excluídos

A tradição da teoria econômica, desde a obra seminal de Adam Smith, publicada em março de 1776, aponta grosseiramente que o crescimento econômico é a receita infalível para o progresso geral de todos. Em síntese, essa recomendação “técnica” atesta que basta viver sobre uma economia em larga margem de crescimento que as oportunidades sociais logo serão oferecidas a todos; e as necessidades básicas de cada um, por consequência, serão então plenamente satisfeitas. Para tanto, a teoria econômica tradicional insiste em concentrar esforços na busca desse crescimento, ignorando, por exemplo, que pelo meio do caminho haverá a incidência de passivos ambientais advindos de uma agressão em termos de utilização dos limitados e finitos recursos naturais. Por sinal, nesse sentido, a tradição econômica enxerga o oposto: trata a atividade econômica como se essa não necessitasse de novas entradas de energia e matéria, e como se fosse possível expandir a produção ininterruptamente a bel-prazer das “forças mercadológicas” que clamam apenas por mais lucros e retornos rápidos.
A matemática desse crescimento econômico a qualquer custo tem se comportado de maneira torpe em termos de análises dos efeitos colaterais. Nesse modelo que procura favorecer a expansão econômica a qualquer monta, o que importa é crescer; assim recomenda com veemência a economia tradicional que entende crescimento como sendo sinônimo de progresso, e confunde consumo supérfluo com felicidade e bem-estar.
É importante ressaltar que o ponto central de uma economia que faça a reversão desse modelo em direção a uma estruturação mais humana e menos tecnicista da atividade econômica, que seja de natureza mais social e menos mecânica e rebarbativa, diferentemente, portanto, da tradicional economia, está no fato de usar técnicas e modelos econômicos de maneira a atender satisfatoriamente as necessidades dos menos privilegiados, ou seja, daqueles milhões de seres humanos que se encontram excluídos da economia mundial.
Nesse sentido, o eixo dessa “nova economia” (abusando desse termo) com característica mais solidária e humana consiste em colocar as pessoas em primeiro lugar. O que importa prioritariamente para os que defendem essa linha de raciocínio são as pessoas e suas necessidades elementares, e não o mercado e suas mercadorias. O foco desse modelo diferenciado de fazer economia está na cooperação (que soma e inclui), e não na competição (que divide e exclui). Nunca é demasiado aduzir que a ciência econômica, incluindo a atividade produtiva, é feita pelos homens e para os homens.
Assim sendo, para os que estão comprometidos com essa mudança em prol de uma economia mais justa e fraterna, crescimento econômico deve ser visto tecnicamente apenas em termos quantitativos, enquanto desenvolvimento necessariamente deve ponderar a favor dos termos qualitativos, incluindo, evidentemente, a possibilidade de se atingir bem-estar. Dessa forma, desenvolvimento econômico, no dicionário técnico significa melhoria da vida de todos, com qualidade de vida plena. Assim, aceitar essa última premissa como verdade e, antes, fazer disso um ideal de luta, é se colocar afirmativamente ao lado dos excluídos da economia mundial cujas cifras são cada vez mais assustadoras em escala mundial: 1 bilhão de estômagos vazios; 1,5 bilhão de pessoas sem acesso à água potável; 19 crianças com menos de 5 anos de idade que morrem a cada cinco minutos vítima de pneumonia; 500 mil mães morrendo a cada ano na hora do parto devido a assistência médica insuficiente; 5 milhões de crianças que a cada ano não completam 5 anos de vida.
Ademais, é imperioso reforçar que a economia (ciência e atividade produtiva) tem todas as condições de fazer avançar um programa de recuperação social, desde que se rompa, abruptamente, com a ideia dominante da tradicional economia que insiste em medir a realidade social por números e valores monetários, como se a nossa vida se resumisse a mera questão matemática. É urgente, pois, mudar o eixo da economia e, definitivamente, propor políticas públicas que coloquem as pessoas em primeiro lugar; afinal, o objetivo precípuo da atividade econômica é um só: dar resposta positiva à vida de todos nós.
(*) Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor da UNIFIEO, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). prof.marcuseduardo@bol.com.br

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