Por Luiz Henrique Lima Faria
Ao invés de alimentar o ódio cego, pergunta-se: por que temer uma educação que conscientiza e empodera os brasileiros mais pobres?
O artigo desta semana é especialmente recomendado para aqueles que possuem uma impressão negativa sobre Paulo Freire, mas que ainda não tiveram a oportunidade de explorar sua obra. A proposta é iniciar uma reflexão, desconstruindo preconceitos e oferecendo novas perspectivas para um entendimento mais justo e enriquecedor sobre esse educador brasileiro.
Paulo Freire (1921-1997) é mundialmente reconhecido como um dos maiores educadores do século XX e, para nós brasileiros, é o patrono da educação. Freire dedicou sua vida à educação popular e à alfabetização de adultos, com foco na conscientização e emancipação das classes oprimidas. Sua trajetória foi marcada pelo exílio durante a ditadura militar e pelo reconhecimento internacional de suas ideias inovadoras sobre pedagogia, que inspiraram educadores ao redor do mundo.
A obra mais citada de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, lançada em 1968, revolucionou o pensamento educacional ao propor uma educação dialógica e emancipadora, na qual o conhecimento é construído de forma colaborativa entre educador e educando. Em contraste com o modelo “bancário” de educação (no qual o aluno é um receptor passivo de informações depositadas pelo professor), Paulo Freire sugeriu uma pedagogia crítica, centrada no diálogo e na problematização da realidade.
Freire via a educação como um ato essencialmente crítico, capaz de conscientizar as pessoas sobre as injustiças estruturais que vivenciam e de prepará-las para atuar como agentes de transformação social. Sua abordagem pedagógica não apenas influenciou programas de alfabetização ao redor do mundo, mas também se consolidou como uma referência nos cursos de formação de educadores em diversos países, como Canadá, Estados Unidos, Espanha e Reino Unido.
Diante desse cenário, o artigo busca responder à seguinte questão: por que a extrema direita odeia Paulo Freire?
O ódio a Freire não é casual, mas sim um fenômeno enraizado em questões ideológicas. Suas ideias sobre emancipação das classes oprimidas, questionamento da ordem estabelecida e a valorização da educação como instrumento de transformação social são vistas, pela extrema direita, como uma ameaça direta ao status quo e às suas bases de poder.
Os rentistas, elite entre os abastados, especialmente aqueles que carecem da grandeza de desejar o bem comum para toda a sociedade e que se abrigam sob o manto do ultraconservadorismo político, odeiam Paulo Freire por um motivo claro: suas ideias representam uma ameaça às estruturas de poder que os mantêm no topo da pirâmide social.
Nesse sentido, a pedagogia de Freire incentiva os oprimidos a questionarem e resistirem às formas de opressão que sustentam as desigualdades sociais. Para a elite, que se mantém no topo firmando-se na concentração de riqueza e poder, a conscientização das massas é vista como um risco ao seu domínio. Por isso, atacam Freire como um perigoso subversivo, rotulando suas ideias como “comunismo” ou “doutrinação marxista”, na tentativa de desacreditá-lo e preservar seus próprios interesses.
Em se tratando de um outro tipo de simpatizante da extrema direita, os trabalhadores que não se beneficiam da renda advinda da acumulação de riqueza, o ódio a Paulo Freire é alimentado pela desinformação e manipulação ideológica. A elite da extrema direita utiliza o medo e a simplificação de conceitos complexos para demonizar Freire, apresentando-o como um inimigo da moral tradicional e como alguém que busca destruir a ordem.
Assim, muitos desses trabalhadores vivem sob uma cultura que prega a meritocracia e o individualismo como valores centrais, o que os leva a acreditar que qualquer ideia crítica ao sistema vigente representa uma ameaça às suas aspirações pessoais, ainda que, na prática, as ideias de Freire busquem justamente a melhoria de suas condições de vida.
Respondendo à questão central da coluna desta semana, o ódio a Paulo Freire por parte da extrema direita, seja entre os rentistas ou os trabalhadores, nasce de uma combinação de defesa de privilégios, manipulação ideológica e medo do empoderamento da população mais pobre. Freire representa uma ameaça ao status quo, pois incentiva a reflexão crítica e a transformação social, dois elementos que desafiam diretamente a base autoritária e conservadora que sustenta as degradantes e abismais desigualdades sociais do Brasil.
Rejeitar as ideias freirianas sem conhecê-las é perpetuar a ignorância que ele tanto combatia. Ao invés de alimentar o ódio cego, é hora de perguntar: por que temer uma educação que conscientiza e empodera, especialmente, os brasileiros mais pobres?
Fazer justiça ao legado de Freire significa abraçar a possibilidade de uma sociedade mais justa e democrática, na qual a educação seja uma ferramenta de emancipação para todos e que trate a construção da criticidade como um direito de cidadania e não um privilégio para poucos.
Luiz Henrique Lima Faria é Professor Titular do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Doutor em Administração pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).
Imagem: Site Arquer
Texto e imagem extraídos do Jornal GGN jornalggn@gmail.com, 3 de outubro de 2024: https://jornalggn.com.br/artigos/por-que-a-extrema-direita-odeia-tanto-paulo-freire-por-luiz-faria/

Mais além de quaisquer outras considerações, do meu ponto de vista e segundo a minha experiência, a pedagogia Paulo Freire encarna uma efetiva ação libertadora, em que cada pessoa humana volta a si, recupera a sensação total do seu ser. Independente de tentativas de “privatização” do pensamento de Paulo Freire, a sua efetiva ação libertadora, repito, está comprovada pelo mundo afora. E a “direita”, caso se endireitasse, tiraria bom proveito do estudo e prática da educação libertadora, já que nos liberta de toda e qualquer prisão, seja ideológica, doutrinária, a que for.