O “pode ter sido” de Fátima Bernardes

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Hoje pela manhã, fui ao consultório médico. Como de praxe, na salinha de espera, a tevê estava ligada na Rede Globo. Fátima Bernardes, falante e sorridente, era adulada por uma plateia sem vida, que bate palma de forma orquestrada e robotizada para qualquer fala com final enfático. Nada de anormal para um programa de auditório e entretenimento. Essa é a tendência dos canais abertos: entretenimento e sensacionalismo.
A chamada de intervalo vem em clima de tensão. Fátima, com a expressão séria, anuncia que o aluno da UFRJ, Diego Vieira Machado, assassinado no último dia 2, pode ter sido vítima de homofobia. O “pode ter sido” é o ponto de dúvida, mas coloca-se, exclusivamente, a homofobia para direcionar o raciocínio e não se criar outras perspectivas. Quando não se tem certeza dos fatos, natural que se empregue o termo. Mas, evitar os outros motivos do “pode ter sido”, não deve ser natural.
“O pode ter sido” a homofobia, não deu espaço aos últimos fatos colhidos e publicados na imprensa, através de e-mails ameaçadores, que alguns alunos vinham recebendo. Coloco abaixo, algumas partes que não foram citadas no “pode ter sido” da apresentadora:
“Nenhuma vez o socialismo deu certo e não é com vocês que isso vai dar, aguardem os próximos capítulos. (…) Como descobrimos vocês? Conhecemos vocês, estamos nos CAs (Centros Acadêmicos), DCEs (Diretórios Centrais Estudantis) e instituições de ensino e pesquisa. (…) Estamos infiltrados!”.
“Vamos começar por um certo aluno que se diz minoria e oprimido por ser homossexual, que gosta de fumar maconha e outras coisitas mais (cocaína, chá de amanita) às vezes com o dinheiro da bolsa ou da família opressora, que briga com os familiares por ter opiniões divergentes da sua grande intelectualidade Marxista, que odeia o Bolsonaro, que prega a liberdade e o amor mas apoia o aborto e o uso descriminalização do uso da maconha para fins recreacionais. Que gosta de mandar e receber nudes de seus amiguinhos pederastas. Que apoia a Dilmãe!…”
O texto é assinado pela “Juventude Revolucionária Liberal Brasileira e é concluído assim: “Nós somos muitos, somos a maioria, somos unidos e somos anônimos!”.
É inegável que há um crime de homofobia e que ele deve ser destacado, assim como todas as outras ideias desumanas e criminosas. Mas, segundo Fátima Bernardes, o “pode ter sido a homofobia”, deixa de fora outras partes graves. Limitar-se único e exclusivamente a esse fato talvez seja uma forma de não colocar a tendência política da emissora em cheque.
Isso pode parecer um erro na matéria ou quem sabe uma falta de cuidado. Mas, se lembrarmos que a Globo foi umas das emissoras que plantou o estado de ódio no país, alimentando o impeachment e que vem apoiando o governo interino e suas tragédias anunciadas, podemos dizer que, pode ter sido uma opção limitar-se à homofobia, não um simples descuido.
E se esse e-mail fosse levado em consideração, iria quebrar toda a onda conservadora que a emissora catalisa. Afinal, o “socialismo petista” vinha para dominar o país. E não vai ser agora que eles irão adubar o que vem na contramão dos seus objetivos.
A história não mudou e, assim como em 64, essa emissora é responsável pelo fortalecimento do fascismo no Brasil.
Quando é do interesse deles, não existe pudor, menos ainda compromisso com os fatos.
Foro(*): diariocentrodomundo.com.br

Um comentário sobre “O “pode ter sido” de Fátima Bernardes”

  1. Ainda há dificuldade em abordamos certos assuntos que para a sociedade brasileira é tabu.
    Hoje há outros segmentos da sociedade que perderam o medo e agora estão dispostos a baterem de frente com os opressores .
    Os tempos são outros . Os conceitos conservadores estão sob questionamento. As pessoas não são obrigadas a gostarem das pessoas,no entanto são obrigadas a serem respeitadas.

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