Pobre do povo que precisa de heróis

O senador Cristovam Buarque afirmou no primeiro dia de 2015 que tem esperança no novo governo Dilma por este ter adotado o lema “Brasil: Pátria educadora”.

Buarque diz que lembrou, ao ouvir o lema, do um líder abolicionista Joaquim Nabuco, “por sua luta incansável pela Abolição da Escravidão no Brasil”. Diz o senador: “Quando poucos ainda acreditavam nisso, ele combateu por todos os meios a indecência do chamado então regime servil: como intelectual e político, com discursos, artigos, prática parlamentar. Foi depois de décadas de sua luta, que um governo do partido conservador, que antes se opunha à abolição da escravidão, entendeu a necessidade da abolição e apresentou a proposta da Lei Áurea. Este governo do Império era presidido pelo conselheiro João Alfredo, opositor ferrenho de Nabuco em Pernambuco, província dos dois”.

E completa: “Para mim, a maior grandeza de Nabuco foi não titubear e imediatamente apoiar o governo de seu maior opositor e se transformar no mais importante articulador para a aprovação da Lei Áurea no dia 13 de Maio de 1888. Para mim, esta foi a maior grandeza de Nabuco”.

Buarque diz que, se o anúncio de Dilma não for apenas um “gesto publicitário por orientação de marqueteiro, querendo se sintonizar com os novos entendimentos populares da importância da educação, se este lema se mostrar realidade em projetos de lei, todos os defensores da prioridade à educação deverão seguir o exemplo de Nabuco e apoiar as medidas”.

O senador infelizmente está bastante desinformado, na sua introdução. A Lei Áurea, longe de ser o movimento de heróis da pátria, foi fruto de um movimento coletivo, cuja base fundamental foi a resistência dos escravos, e não lideranças bem posicionadas na sociedade. A lei é consequência de um contexto de décadas de oposição à escravidão por conta de um modelo econômico fracassado, e não um ato heroico.

À época, republicanos capitalistas falavam abertamente, nos jornais, que explorar imigrantes europeus e asiáticos era muito mais vantajoso economicamente. Em 1888, a maior parte das propriedades agrícolas já estava migrando para o trabalho “livre”, submetendo imigrantes e nacionais a regimes mistos de colonato extremamente desiguais para a classe trabalhadora, na maior parte dos casos. As poucas experiências de trabalho decente, à época, não tiveram apoio dos sucessivos regimes, incluindo os da República Velha.

Se for essa a esperança para hoje, a de que um(a) herói qualquer “salve” nossa “pátria” por meio da educação, infelizmente continuamos muito, muito mal. Aliás, quem seria esse herói? Cid Gomes, o novo ministro de Dilma que disse que o professor deveria trabalhar por amor, e não por dinheiro, ao reprimir uma greve no setor de educação no seu Estado de origem? Começamos, então, muito mal nessa tal revolução patriótica…

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Diz Leonardo Sakamoto, a respeito do tema:

O lema escolhido por Dilma Rousseff para o seu segundo mandato – Brasil: Pátria Educadora – é ruim e traz uma promessa vaga. Não que a educação não tenha que ser eixo central de qualquer país que pretenda continuar a existir. O problema é a forma com a qual o governo apresenta esse desafio e a dúvida quanto ao seu conteúdo.

Pois falta um plano para colocar isso em prática. Parece a história de um jornal que primeiro produz uma manchete pensando na audiência e, somente depois, faz a reportagem para preencher o espaço.

Por isso, com base no ministério escolhido, salvo algumas exceções, acho que “Brasil: A Zoeira Nunca Termina” ainda é o lema mais apropriado. E o mais sincero.

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