
Inaugurada em 1987, a Usina Hidrelétrica de Balbina, em Presidente Figueiredo (AM), carrega um passivo socioambiental que causa prejuízos a cerca de 3.000 moradores no curso do rio Uatumã e deu origem a um cemitério de árvores que apodrecem no coração da Amazônia.
Para criar Balbina, na Amazônia Central, foi necessário barrar o curso do rio Uatumã, alagando uma área de 2.400 km². A geração de energia começou em fevereiro de 1989, e o processo causou fortes impactos ao ecossistema e a comunidades indígenas, rurais e ribeirinhas.
Após quase quatro décadas, a hidrelétrica —que tem capacidade instalada de 250MW— é alvo de investigação da Comissão da Verdade de Balbina (CVB), criada em agosto. O grupo reúne representantes da sociedade civil, universidades e a DPE (Defensoria Pública do Estado), que também instaurou procedimento coletivo para apurar danos e propor ações de reparação.
“Somente as árvores podres do cemitério emitem a mesma quantidade ou mais metano do que toda a cidade de São Paulo”, afirma Renan Albuquerque, presidente da comissão, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e autor do livro “Balbina: Vidas Despedaçadas”.
A Axia Energia (antiga Eletrobras) afirmou à coluna que a hidrelétrica atende às normas ambientais e que sua operação é devidamente licenciada, “adotando as melhores práticas do setor e buscando minimizar os impactos associados às suas atividades”.

Trabalhos em andamento
A CVB iniciou os trabalhos em agosto e apresentou o escopo da análise durante a COP30, em Belém. O primeiro relatório deve ser divulgado em março de 2026, na Faculdade de Informação e Comunicação da Ufam.
Albuquerque lembra que Balbina é conhecida como a pior grande central hidrelétrica do país, por sua baixa produção de energia, em contraste com o enorme impacto socioambiental.
O metano é 86 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono em 20 anos na atmosfera. Balbina é a maior emissora de metano entre as hidrelétricas da Amazônia. Em comparação à represa de Tucuruí, gera 42 vezes menos energia. A relação custo-benefício de Balbina é altíssima.Renan Albuquerque
O problema é antigo: a obra chegou a render ao Brasil uma condenação internacional, em 1990, pelo Tribunal Permanente dos Povos, na França. Entretanto, a decisão teve caráter simbólico.
“Não é de agora que eles pedem socorro, e hoje enxergamos claramente o dano coletivo ainda acontecendo”, afirma o defensor público Carlos Almeida Filho, integrante da comissão.
A primeira visita da DPE ao local ocorreu apenas em novembro de 2022. Diante do tamanho do dano, uma nova equipe retornou em janeiro do ano seguinte para iniciar os primeiros atendimentos. “Ali percebemos que o problema era estrutural e multifacetado”, diz Filho.
As comunidades têm direitos fundamentais negados, ficam sem acesso quando há vazante, têm plantações alagadas, água contaminada, variação de energia elétrica –e ainda pagam caro por isso. As estradas são ruins, as crianças não têm acesso à escola e faltam serviços básicos de saúde. Além disso, não há regularização das terras.Carlos Almeida

‘Nosso luto virou luta’
Caroline Monteiro, produtora rural na região do Ramal da Morena e integrante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), é da terceira geração de famílias que vivem às margens do rio Uatumã e foram impactadas. “Por muito tempo, fomos considerados apenas um dano colateral da hidrelétrica.”
Vice-presidente da CVB, ela conta que a população sofre com poluição do ar e da água e que há adoecimento em massa nas comunidades.
Pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) analisaram amostras de água de cinco comunidades da região. “Todas do trecho do ramal estão contaminadas com coliformes fecais e totais. Por isso, nossa resistência: é o lago da morte”, diz Monteiro.
Quando abrem as comportas, sempre aparecem bichos mortos boiando na água. Estamos transformando nosso luto em luta. Caroline Monteiro

Cemitério de árvores
O cemitério de árvores criado por Balbina foi descrito em um estudo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) coordenado pelo pesquisador Jochen Schöngart, doutor em ciências florestais. O trabalho foi publicado em 2021 na revista científica “Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems” (Conservação Aquática: Ecossistemas Marinhos e de Água Doce).
O estudo estimou que 12% dos igapós morreram em um trecho de 120 km de florestas. Os “paliteiros”, como são chamados, formam hoje um cemitério de milhões de árvores.
Ao UOL, Schöngart explicou que isso ocorreu porque as árvores de planícies aluviais —adaptadas a ciclos previsíveis de seca e inundação— não resistiram à mudança do regime hídrico. “Essas alterações ocorreram em dois períodos distintos. No do barramento do rio para encher o reservatório, de outubro de 1987 até fevereiro de 1989, o pulso de inundação nas áreas alagáveis foi extinto”.
Ele cita que essa seca artificial causou uma elevada mortalidade das florestas alagáveis, com recolonização por árvores formando florestas secundárias com baixa riqueza de espécies.
Durante a operação da barragem, a partir de fevereiro de 1989, foram geradas inundações permanentes durante anos consecutivos nas áreas alagáveis a jusante [após a barragem], pois água estocada no reservatório durante a estação chuvosa é liberada na estação seca para gerar energia hidrelétrica. Essas cheias extremas e prolongadas ultrapassam a capacidade adaptativa das espécies.Jochen Schöngart
Esse caso é um laboratório a céu aberto dos impactos das mudanças climáticas. Os igapós ficaram expostos a longos períodos de secas e cheias extremas, o que mostra que o aumento de cheias e estiagens na Amazônia pode causar colapso de espécies e sérios danos ao ecossistema.Jochen Schöngart
‘Um crime ambiental permanente’
Segundo o pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) Eduardo Saad, integrante da comissão, é difícil mensurar o tamanho do dano provocado por uma atividade desse porte.

“Não é como matar alguém, que você vê o corpo ali no chão. Existem danos tangíveis e intangíveis —da degradação ambiental às ameaças de rompimento da barragem, que traumatizam as comunidades”, diz.
Diversas sociedades tradicionais –entre elas, os Waimiri-Atroari e os caboclos ribeirinhos do Ramal da Morena– perderam boa parte de sua memória coletiva e seus propósitos de vida. Os danos seguem, com sistemáticas violações de direitos humanos.Eduardo Saad
Empresa diz que respeita meio ambiente
Em nota, a Axia Energia afirma que mantém “diálogo permanente com a comunidade científica, as comunidades e os órgãos ambientais”. O texto não menciona o cemitério de florestas nem a contaminação da água. Afirma que a usina obteve e mantém a certificação NBR ISO 14001, que “reconhece a gestão ambiental responsável”. Para isso, na região da hidrelétrica, a companhia cita diversos programas de conservação.
Na região da usina, a companhia mantém o Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos e Quelônios Aquáticos, licenciado como criadouro científico para fins de conservação pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Referência em toda a Amazônia, o centro conduz projetos desde 1985 que monitoram espécies ameaçadas, promovem ações de conservação, desenvolvem pesquisas científicas, organizam cursos de capacitação e eventos de soltura de filhotes de quelônios e de peixes-boi reabilitados, além de iniciativas de educação ambiental.
A empresa alega que, no dia a dia, “a operação procura manter a geração limitada a 200MW para facilitar a regulação do sistema carga/frequência, já que as outras usinas do sistema são pequenas e trabalham na base”.







