Paulo Freire como expressão individual de um legado coletivo

Somos com freqüência fascinados por geniais achados que garimpamos em nossas leituras. Numas mais do que noutras. Os bons clássicos – homens e mulheres -, por exemplo, não cessam de nos surpreender. Tal é o nosso encantamento diante de certas formulações que colhemos, a partir de certos autores e autoras, que, não raro, lhes atribuímos sem mais idéias, valores, conceitos, categorias, formulações teóricas que, por mais associados que se apresentem aos nossos autores e autoras, mais cedo ou mais tarde, descobrimos que, a bem da verdade, antes deles/delas, houve quem propusesse o mesmo, ainda que de outro modo.

Nem sempre, porém, temos o cuidado de ir às fontes. As descobertas que vamos registrando nas leituras, tendemos a atribuir simplesmente – e com freqüência – aos nossos autores e autoras mais familiares. Mesmo sem o aval dos mesmos.

É assim, por exemplo, que atribuímos à paternidade de Marx a íntima associação entre religião e ópio. Claro que encontramos isso nele. (Re)afirmar ou assumir-se algo não implica imperiosamente paternidade do que se afirma ou do que se assume. Não significa necessariamente ser a primeira fonte. No caso de Marx, homem do seu tempo, absorveu idéias, valores e expressões correntes à sua época. A idéia de religião vista como ópio do povo, antes de Marx, já corria na literatura de corte iluminista do tempo. Como em Feuerbach, por exemplo.

Marx é apenas um único exemplo aqui mencionado. Tantos outros autores e autoras, em diferentes épocas, têm sido alvo desse tipo de referência.

Por outro lado, parece pacífico o reconhecimento do papel do indivíduo na história. O desafio é saber dosar, em cada caso, o quantum de coletivo e o quantum de individual há de se atribuir a tantos acontecimentos, eventos e situações concretas. Nesse sentido, a tendência predominante parece ser a ditada pela empolgação provocada por determinada personagem individual, chegando-se, por vezes, ao limite de se perder de vista a parcela de protagonismo coletivo aí subjacente.

Aqui, o propósito dessas notas restringe-se ao caso de Paulo Freire. Inquietam-nos questões do tipo: numa determinada formulação teórica, que relação é possível observar-se entre o quantum de individual e o quantum de coletivo? No caso de Paulo Freire, a despeito do modo singular e genial com que exprime suas idéias, que parcela de coletivo podemos nelas detectar? Como superar a inclinação freqüente de se atribuir a uma única autoria singular aquilo que um exame mais detido indica comportar traços de um sujeito coletivo, sem qualquer demérito para os geniais formuladores e formuladoras?

Nossa reflexão volta-se, por conseguinte, ao exame do lugar do indivíduo nas construções histórico-culturais, tomando Paulo Freire como uma das referências. Questiona e problematiza duas tendências extremadas: uma que subestima a ponto de quase negar o lugar dos indivíduos nos processos de construção histórico-cultural, e outra que superestima a tal modo o protagonismo individual, que praticamente o descola do contexto coletivo, no seio do qual se deve compreendê-lo. Não raro, os grandes clássicos – mulheres e homens – são alvos desse tipo de leitura, tanto em suas potencialidades como em seus deslizes. Os recentes acontecimentos relativos à crise ético-política, ainda em curso, pode ser tomada também como outro exemplo a merecer avaliação.

Organizamos a exposição deste breve texto, iniciando por uma breve consideração sobre o lugar dos indivíduos nas construções histórico-culturais.  Em seguida, buscamos cotejar tal leitura seja com referências a outros interlocutores seus, seja com seus próprios escritos. Por último, tratamos de ensaiar algumas pistas, a título de sugestões como proceder de modo a evitar essa prática tão corrente.

A reconhecida contribuição individual nos processos histórico-culturais

À parte o culto seletivo (porque tal culto comporta critérios privilegiados) ao indivíduo, que tem prevalecido ao longo da História, notadamente nos períodos mais exacerbados das sociedades de classes, cumpre reconhecer e fazer justiça à participação significativa de personalidades singulares na produção de processos histórico-culturais, nos distintos âmbitos da realidade social. É, inclusive, legítimo afirmar-se que, em certas circunstâncias especiais, o concurso individual foi decisivo, no desencadeamento dos fatos.

O certo é que, de um modo ou de outro, personalidades há, em todos os domínios da realidade social e de saberes, que tiveram um papel expressivo no processo e no desfecho de vários acontecimentos sócio-histórico, do âmbito local ao plano mundial.

Se nos ativermos, por exemplo, ao terreno das descobertas científico-tecnológicas, vamos nos deparar, com freqüência considerável, com a inegável contribuição singular de personalidades genais, nas áreas da Física, da Química, da Biologia, da Biogenética, da Informática… Igualmente no campo das ciências humanas. Em razão da indisponibilidade de tempo, evitamos citar nomes e feitos, de modo ilustrativo. Sabemos, porém, tratar-se de uma legião de homens e mulheres.

Convém, não apenas reconhecer, como também fazer justiça a cada um, a cada uma dos integrantes dessa legião de descobridores, a cujo papel singular muito devemos relevantes intervenções, descobertas e invenções. Ao mesmo tempo, importa também ter presentes, em cada um desses indivíduos e respectivos protagonismos, traços significativos do legado social, de um sujeito coletivo subjacente a esses feitos.

Traços coletivos, aliás, reconhecidos por algumas dessas mesmas personalidades genais, a exemplo de Newton, cujo dito se tornaria famoso: “Se consegui enxergar à distância, é que subi em ombros de gigantes.” Referia-se aos seus antepassados sem cuja contribuição dificilmente Newton teria tido êxito em seus achados. Podemos estender tal reconhecimento a outros aspectos do legado social: infraestrutura, cuidados familiares, escolaridade, condições sócio-econômicas…

Cotejando o que se lê e o que se ouve acerca de Paulo Freire com o que ele escreveu

Personalidades extraordiárias costumam ser, ontem como hoje, alvo recorrente de imputações nem sempre historicamente verificadas. À semelhança de heróis envoltos nas mais distintas lendas, também a personagens impactantes são imputados feitos, afirmações de difícil compravação. E isso ocorre tanto em relação a personalidades reverenciadas pelas suas grandes qualidades (Francisco de Assis, Zumbi, Antônio Conselheiro…) como em relação a outras de perfil ignóbil (Hitler, Stálin, Bush…). Num caso e noutro, a tendência é a de se ampliar consideravelmente o alcance da lente, para mais ou para menos. Cada um desses nomes passa a ser tratado como “o mais”, “o maior”, “o melhor”, “o pior”, “o único”…

Tanto mais, quanto – como é o caso da sociedade brasileira – se conviva desde séculos com uma arraigada “cultura presidencialista”. Há uma propensão visceral a eleger-se um chefe, um guia, um governante que realize as coisas “por nós e para nós”.

Em relação especificamente a Paulo Freire, tomando aqui como referência categorias como dialogicidade, relacionalidade, prática libertadora, relação teoria-prática, inédito viável, ação cultural, relação opressor-oprimido, libertação, entre outras expressões caras ao seu já consagrado universo vocabular, vamos observar com relativa freqüência uma tendência a considerá-lo como fonte exclusiva desse exercício filosófico, que o próprio Paulo Freire, em sua franciscana humildade, faz questão de compartilhar com tantos e tantas, inclusive para além do mundo da Academia. Aprendiz por excelência, Paulo Freire vivia antenado aos sinais, minúsculos que parecessem, por onde passasse, não importando as circunstâncias, os ambientes ou o aspecto dos interlocutores. Aprendia debaixo de uma mangueira, nos círculos de cultura em meio dos camponeses de Guiné-Bissau, como aprendia nos debates universitários que travava nas diferentes universidades do mundo. Aí reside sua genialidade gnosiológica: no seu estilo de aprender a aprender.

Voltando à tendência acima referida, tomemos como exemplo sua visão de mundo, de homem e de sociedade. Nada mais exagerado do que se atribuir exclusivamente a Freire todo aquele processo de elaboração, do qual são parceiros múltiplos sujeitos, individuais e coletivos. Aqui destaco dois desses sujeitos, parceiros e expressões fontais do pensamento freireano: o Marxismo e o Cristianismo.

Quanto ao primeiro, como é possível entender o percurso de Freire em suas brilhantes formulações teóricas, abstraindo-o, por exemplo, do legado da Dialética, numa perspectiva hegeliano-marxista?

Impensável parece o entendimento freireano de Ser Humano como ser de relações, sem passar (também) pela Dialética, dentro de uma ótica marxista em virtude da qual se observa

– a interação universal dos fatos, dos acontecimentos, das situações e inevitavelmente das relações humanas e sociais. Interação universal bem traduzida, aliás, pela conhecida expressão de que “tudo está ligado a tudo”;

– o indivíduo, sem perda de sua singularidade, é expressão de uma teia de relações que caracteriza fundamentalmente toda organização societal e comunitária;

– o percurso do Ser Humano, em sendo necessariamente relacional, se faz por vias diferentes, cheias de oscilações, de vaivéns, nunca de modo linear. Trata-se de um percurso tecido por tempos e espaços contraditórios, em que se funda, porém, sua unidade;

– Ente histórico, o Ser Humano não nasce “pronto”: vai se fazendo, ou como costuma dizer Paulo Freire, vai “se tornando”. Característica também associada ao princípio dialético da “transformação universal”, em razão do que se observa que, no plano da História, “tudo muda”, princípio associado, por sua vez, ao heraclitiano “Παντα ρει”.

É, aliás, desse mesmo princípio que Paulo Freire também recolhe sua aposta utópica, sua convicção de que o Ser Humano conta com um destino histórico ontologicamente vocacionado à Liberdade. Aí reside a densa esperança freireana.

De modo similar, vamos encontrar, ora explícita, ora implicitamente, raízes marxianas na leitura de sociedade feita por Freire. Seu entendimento de que há um claro embate de projetos societais em curso: de um lado, a hegemonia do Capital, enquanto, de outro, a firme resistência e contraposição ao modelo hegemônico por parte das classes populares. É fundamentalmente tal embate o conteúdo substantivo da tão decantada luta de classes, que, não sendo invenção de Marx, alcança com ele a mais elaborada compreensão. Quem atentar bem para os principais trabalhos de Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido, Cartas à Ação Cultural para a Liberdade, Guiné-Bissau, entre outros) vai se deparar, de modo mais explícito, com tal chave de leitura de sociedade feita por Freire.

Uma segunda matriz do pensamento freireano aqui destacada é o Cristianismo, tal como lido, por exemplo, pela Teologia da Libertação. Os escritos de Freire são igualmente tributários do Cristianismo. Aqui, mais do que em relação ao Marxismo, sua inspiração se dá de modo mais implícito do que explicitamente. Mas, às vezes, Freire também o faz de forma expressa, como ocorre, por exemplo, num dos ensaios – “A Educação e as Igrejas na América Latina” – que data do início dos anos 70, no qual Freire, ao analisar o papel das igrejas cristãs num contexto de conflitos, defende uma postura de compromisso com os oprimidos à luz de uma leitura pascal.

Ainda neste ensaio que também aparece num dos seus livros básicos – Ação Cultural para a Liberdade -, Freire caracteriza a postura revolucionária dos cristãos comprometidos com os deserdados da Terra, na perspectiva do Cristianismo libertador.

E, mais uma vez, vale lembrar que as raízes do pensamento freireano têm uma composição plural, para além, é claro, das duas fontes acima referidas. Como negar sua inspiração socrática? Como negar, em seu percurso existencial, a contribuição de correntes como o Existencialismo, o Personalismo de Mounier? Homem aberto ao diálogo com diferentes expressões do pensamento, estava sempre a exercitar a interlocução, seja com sujeitos coletivos, seja com sujeitos individuais. Suas próprias categorias estão, elas próprias, impregnadas de contribuições provenientes de fontes diversas. Como, aliás, é praxe nos grandes autores.

Se se toma, por exemplo, o caso da categoria relacionalidade, quantas correntes quantos autores e autoras não o terão inspirado? Inclusive alguns/algumas não necessariamente por ele citados. Fico a pensar no refinamento da reflexão de um Martin Buber, acerca do nó de relações que é o ser humano, e de desdobramentos desse pensar. Poderíamos multiplicar os exemplos. Para os fins perseguidos nesta breve exposição, limito-me a esses casos.

Seja como for, vale ressaltar a contribuição genial de Paulo Freire, ao imprimir sua marca própria, seja quando o faz de modo pioneiro, seja quando ao retomar, em novo estilo, teses de outros, de outras.

Considerações finais

Buscando sintetizar, em poucas linhas, o cerne da problematização acima exercitada, vale sublinhar os seguintes pontos.

  1. Especialmente nas sociedades de classes, tem sido praxe a superestimação do papel do indivíduo como exclusivo ou principal responsável pelos acontecimentos, em detrimento do protagonismo coletivo. Fato que se observa tanto em relação aos acontecimentos celebrados como positivos (a vitória de uma guerra, uma conquista relevante para um povo, etc.), como em relação às ocorrências trágicas (o Nazi-fascismo, o massacre do povo iraquiano, a ditadura do Brasil, etc.). Trata-se de atribuir-se à obra de uma pessoa o que é fruto de um trabalho coletivo.
  2. De modo semelhante, ocorre em relação aos grandes clássicos, entre os quais Paulo Freire.
  3. No caso de Paulo Freire, a despeito de tudo correr à sua revelia, já que tais generalizações não têm respaldo nele, há uma propensão generalizada a atribuir-se apenas ao mesmo toda a fonte de seus pensamentos e elaborações teórico-metodológicas.
  4. Não há sustentação empírica nessa tendência. Os escritos freireanos nos remetem com freqüências a distintas correntes de pesnamento, sobretudo duas que aqui tomamos como referência: o Marxismo e o Cristianismo.
  5. Além dessas duas matrizes, convém sublinhar a multiplicidade de fontes a inspirar a vida e a obra de Freire, das quais não se deve subestimar, inclusive, a colhida entre pessoas não-letradas, em distintas latitudes por onde ele passou, sobretudo como um incansável aprendiz.
  6. Entendemos que reconhecer em Freire, como em qualquer outro autor ou autora, a parcela de inspiração coletiva subjacente em seus escritos, em nada diminui a genialidade do autor, apenas se faz justiça ao mesmo e aos seus inspiradores.

Bibliografia de Apoio

 

FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade, 19ª ed,, Rio: Paz e Terra, 1989.

_______________. Pedagogía del Oprimido, 8a  ed., Buenos Ayres: Siglo Veintuno, 1973.

_______________. Conscientização: teoria e prática da libertação. Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Moraes, 1980.

_______________. Ação Cultural para a Liberdade e outros escritos, 3ª ed., Rio”Paz e Terra: 1978.

_______________. Educação e Mudança, 23ª ed., Rio: Paz e Terra, 1999.

_______________. Cartas à Guiné-Bissau. Registros de uma experiência em processo, 2a ed., Rio: Paz e Terra, 1978.

_______________. Política e Educação, 5ª  ed., São Paulo: Cortez, 2001.

_______________. À Sombra desta Mangueira. São Paulo: Olho d’Água, 1995.

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GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. 10a. ed., Rio de Janeiro: Civili zação Brasileira, 1995.

LUXEMBURGO, Rosa. Qué quiere la Liga Espartaco. In MANDEL, E. Control obrero, consejos obreros, autogestión. 2 vols. Cuadernos Rojos, Buenos Aires: Daniel Bilbao, 1973, pp. 7-18.

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MARX, Karl. Manuscritos Económicos e Filosóficos. São Paulo: 

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã.

(24-10-2007)

Um comentário sobre “Paulo Freire como expressão individual de um legado coletivo”

  1. Sempre esclarecedoras as suas palavras, Alder! Sabedoria e humildade, eis o que costumo colher das suas intervenções, presença e atuação. Resgatar o coletivo no individual é não apenas uma exigência de justiça, como também uma necessidade que devemos atender se formos prosseguir no caminho do conhecimento. Pesquisa, estudo, abrem a percepção. Humanizam.

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