Paraguai: direita volta ao poder, agora democraticamente

Horacio Cartes assume a presidência em agosto (Foto: Página/12)


De Salvador (Bahia) – O Partido Colorado, de direita, governou o Paraguai durante 61 anos, incluindo aí os 35 da feroz ditadura de Stroessner. Em 2008, parece ter havido um “acidente” histórico e o sofrido povo paraguaio – quase exterminado pela Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) nos idos de 1864 a 1870 – elegeu o bispo católico humanista, afinado com a visão da antiga Teologia da Libertação, Fernando Lugo. Poderia ser enquadrado como de esquerda ou centro-esquerda. Durou pouco, no entanto.
Boicotado por um Estado francamente direitista, foi derrubado em junho/2012 por um golpe chamado “parlamentar”, patrocinado inclusive por seus aliados na eleição de 2008 do Partido Liberal (com o “sobrenome” Radical Autêntico, pois sim, de direita também). Quem assumiu foi o vice-presidente, Federico Franco, do dito Partido Liberal, partido que se aproveitou do golpe para provar o gostinho da presidência, pela primeira vez, por um ano e pouquinho – entrega o posto em agosto próximo ao vencedor das eleições de ontem, domingo, dia 21.
E a direita volta ao poder, agora através de eleições democráticas, isto é, dentro dos padrões da democracia liberal burguesa representativa. E o vencedor é o mal-afamado multimilionário Horacio Cartes. De qual o partido? Ele mesmo, o Partido Colorado, que assim parece recolocar a história política do país “hermano” sul-americano de volta aos eixos, superando o “acidente” do bispo “comunista”.
Foi uma vitória por ampla margem, tendo ganho também a grande maioria dos governos estaduais. Com 95% dos votos contados, o empresário chegava aos 45,9%, contra 36,9% do senador liberal Efraín Alegre (apoiado pelo presidente golpista) e 5,8% do ex-apresentador de televisão Mario Ferreiro, do partido Avança País, considerado de centro-esquerda.
As forças mais à esquerda disputaram o pleito divididas: Ferreiro e a Frente Gausú, liderada por Fernando Lugo, não conseguiram se manter unidos para enfrentar a direita. O candidato do ex-presidente foi o médico Aníbal Carrillo, que conseguiu apenas 3,33% dos votos. Lugo candidatou-se ao Senado e, conforme o noticiário, está eleito. Se as duas forças conseguirem se entender  depois da humilhante derrota, talvez joguem algum papel relevante na oposição.
Houve mais seis candidatos a presidente: o senador Miguel Carrizosa obteve 1,13% dos votos,enquanto os demais não atingiram sequer um ponto percentual.
Com as eleições realizadas e reconhecidas, apesar das denúncias de fraudes e compra de votos, o país deverá retornar ao Mercosul, do qual foi suspenso como punição pelo golpe de Estado contra Lugo.
Publicado originalmente no blog Evidentemente.

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