Papa Francisco valoriza o serviço, a discrição e a humildade

Homilia do Papa Francisco, na Missa do dia 18/10/2015

As leituras bíblicas hoje nos apresentam o tema do serviço, e nos chamam a seguir a Jesus, pelo caminho da humildade e da cruz.

O profeta Isaías traça a figura do Servo de Javé e Sua missão de salvação. Trata-se de uma personagem que não reivindica genealogias ilustres, é desprezado, evitado por todos, e experimentado no sofrimento. Alguém a quem não atribuem feitos grandiosos, nem célebres discursos, mas que leva a termo o plano de Deus, por meio de uma presença humilde e silenciosa. Sua missão, de fato, se realiza e por meio do próprio sofrimento, que Lhe permite acolher os sofredores, e carregar os fardos das culpas alheias, e expiá-las. A marginalização e o sofrimento do Servo do Senhor, levados até à morte, revelam-se fecundos, a ponto de resgatar e salvar as multidões.

Jesus é o Servo do Senhor – Sua vida e sua morte, vividas completamente em forma de servuço, foram a causa de nossa salvação e reconciliação da humanidade com Deus. O “Kérigma”, coração do Evangelho, atesta que na Sua morte e ressurreição, cumpriram-se as profecias do Servo do Senhor. O relato de São Marcos descreve a cena de Jesus às voltas com os discípulos Tiago e João, que – apoiados pela mãe – queriam sentar-se à Sua direita e à Sua esquerda, no Reino de Deus, reivindicando lugares de honra, conforme sua visão hierárquica do próprio Reino. A perspectiva em que se movem, também resulta tentada por sonhos de realização terrena. Então, Jesus dá um primeiro “solavanco” sobre aquelas convicções dos discípulos acerca do caminhar sobre esta terra: “O cálice que Eu bebo, vocês também beberão, mas quanto a sentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence conceder; é para aqueles ques para os quais foi preparado.” Por meio da imagem do cálice, Ele assegura aos dois discípulos a possibilidade de estarem associados até o mais profundo ao Seu destino de sofrimento, sem, contudo, garantir os lugares de honra pretendidos. Sua resposta é um convite a segui-Lo pelo caminho do amor e do serviço, recusando a tentação de se fazer sobressair e de mandar nos outros.

Diante de gente que briga para obter o poder e o sucesso, para aparecer; perante gente que busca fazer reconhecer seus próprios méritos, seus próprios trabalhos, os discípulos são chamados a fazerem o contrário. Portanto, Ele os adverte: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governadores das nações as dominam, e seus chefes as oprimem. Entre vocês, porém, não deve ser assim, mas quem quiser tornar-se grande entre vocês, será o seu servifor.” Com estas paoavras, Ele aponta o serviço como estilo de autoridade na comunidade cristã

Quem serve os outros e o faz realmente sem buscar prestígio, exercita a verdadeira autoridade na Igreja. Jesus nos chama a mudar a mentalidade e a passar da cobiça do poder à alegria da discrição e do serviço; a erradicar o instinto de dominar os outros e exercitar a virtude da humildade.

E, depois de ter apresentado um modelo para não ser imitar, Ele Se oferece como ideal a termos como referência. Na atitude do Mestre, a comunidade vai encontrar assim a motivação da nova perspectiva de vida: “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar Sua vida em favor de muitos.” Na tradição bíblica, o Filho do homem é aquele que recebe de Deus “o poder, a glória e o reino.” Jesus traz um novo sentido a essa imagem, e precisa que Ele tem o poder, enquanto servo, a glória, enquanto capaz de Se abaixar, e poder de rei, enquanto disponível ao dom total da vida. É de fato pela Sua paixão e morte que Ele conquista o último lugar, alcança o máximo de grandeza no serviço, e disto faz um dom para a Sua Igreja.

Há incompatibilidade entre um modo de conceber o poder, segundo critérios mundanos, e o humilde serviço que deveria caracterizar a autoridade, segundo o ensinamento e o exemplo de Jesus. Incompatibilidade entre ambiçõecarreirismo, e o seguimento de Cristo; incompatibilidade entre honrarias, sucesso, fama, triunfos terrenos e a lógica de Cristo crucificado. Por outro lado, há compatibilidade entre Jesus “experimentado no sofrimento” e o nosso sofrimento.

Isto é recordado na Carta aos Hebreus, que apresenta a Cristo como o sumo sacerdote que em tudo condivide a nossa condição humana, com exceção do pecado: “Não temos um sumo sacerdote que não saiba participar de nossas fraquezas: Ele mesmo foi posto à prova em tudo, como nós, , exceto no pecado.” Jesus exerce essencialmente um sacerdócio de misericórdia e da compaixão. Ele fez a experiência direta de nossas dificuldades, conhece por dentro nossa condição humana; o fato de não ter experimentado o pecado não O impde de compreender os pecadores. Sua glória não é a da ambição nem a da sede de dominação, mas a glória de amar os humanos, a de assumir e a de compartilhar sua fraqueza, e de oferecer-lhes a graça que cura, de acompanhá-los com infinita ternura, de acompanha-los em sua atribulada caminhada.

Cada um de nós, enquanto batizado, participa, como parte própria, do sacerdócio de Cristo; os fiéis leigos, no sacerdócio comum, os sacerdotes, no sacerdócio ministerial. Portanto, todos podemos receber a caridade que provém do Seu coração aberto, seja por nós mesmos, seja pelos outros: tornando-nos “canais” do Seu amor, da Sua compaixão, em especial para com muitos que estão na dor, na angústia, desanimados e na solidão.

Aqueles que hoje foram proclamados santos, serviram constantemente com humildade e caridade extraordinárias os irmãos, imitando assim o divino Mestre. São Vicente Grossi foi um pároco zeloso, sempre atento às necessidades de sua gente, especialmente à fragilidade dos jovens. Com todos partiu, com ardor, o pão da Palavra, tornando-se bom samaritano para os mais necessitados.

Santa Maria da Imaculada Conceição, que bebeu das fontes da oração e da contemplação, viveu na primeira pessoa com grande humildade o serviço aos últimos, com particular atenção aos filhos dos pobres e aos doentes.

Os santos cônjuges Ludovico Martin e Maria Azelia Guerin viveram o serviço cristão na família, construindo dia a dia um ambiente cheio de fé e de amor; e neste clima, germinaram as vocações das filhas, entre as quais Santa Teresa do Menino Jesus.

Que o testemunho luminoso destes novos santos nos encoraje a perseverar no caminho alegre do serviço aos irmãos, confiando na ajuda de Deus e na materna proteção de Maria. Agora lá do céu, velem sobre nós e nos amparem com sua poderosa intercessão.

https://www.youtube.com/watch?v=-gPtbawkCKU
(Do minuto 0:51:05 ao minuto 1:05:16)
Trad.: AJFC

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