Por Sheila Fonseca
“Eu vejo uma continuidade entre 54, suicídio do Getúlio, a crise política instaurada e, a partir disso, o golpe de 64 e o quadro atual eu vejo sem sombra de dúvida como uma continuidade disso. Vejo o Brasil muito mais comprometido com períodos autoritários do que com períodos democráticos.”. Essa declaração dá o tom da entrevista concedida pelo historiador, professor e escritor Oswaldo Munteal, que se prepara para o lançamento de seu oitavo livro, uma biografia sobre o ex-presidente João Goulart (Jango) com conteúdo inédito e ampla documentação sobre a vida do ex-presidente deposto pela ditadura militar.
Pesquisador dos períodos de regime de exceção na história brasileira, Munteal sugere que o país não conseguiu reunir elementos para construir seus valores republicanos: “Nossos valores republicanos estão muito mal ajustados. Nós não temos um Bill of Right, como a Inglaterra teve, ou uma guerra civil como tiveram os EUA.”, avalia.
Na entrevista o historiador analisa a crise política no país, o crescimento da extrema-direita no Brasil e na América Latina e arrisca uma previsão para as eleições presidenciais de 2018: “Ainda aposto no Lula.”
Sheila Fonseca: Alguns cientistas políticos tem traçado um paralelo entre o momento atual e os períodos históricos de 1954 e 1964, dois períodos de ruptura democrática. O senhor concorda?
Oswaldo Munteal: Eu vejo uma continuidade entre 54, suicídio do Getúlio, a crise política engendrada e, a partir disso, o golpe de 64 e o quadro atual eu vejo como uma continuidade disso. Vejo o Brasil muito mais comprometido com períodos autoritários do que com períodos democráticos. E em meio a isso, a nossa dificuldade em lidar com a política. Nós vivemos em uma sociedade semi-alfabetizada, com uma experiência democrática muito rala. Além de tudo, o Brasil é um país com uma oligarquia genocida, que não tem nenhum compromisso com o povo e uma elite política que também não tem compromisso com o povo, consequentemente, os poderes da República se veem comprometidos com essa política excludente.
Nossos valores republicanos estão muito mal ajustados. Nós não temos um Bill of Right, como a Inglaterra teve, ou uma guerra civil como tiveram os EUA, não obstante nós tivemos muita violência aqui, muita gente morreu, mas morreu inutilmente. Não houve uma construção de valores nesse sentido. Nossa dificuldade, em suma, para construir a nação é muito grande. O Brasil é um país, mas não é uma nação.
SF: A quê se deve isso, essa dificuldade em se construir valores coletivos?
OM: Para se ter uma nação é preciso ingredientes mais complexos. Uma sociedade civil organizada, um Estado forte e um desenvolvimento econômico equilibrado. E quando eu falo de desenvolvimento econômico equilibrado o que eu quero dizer é menores assimetrias. Um estado de equilíbrio social, o acesso à educação formadora, uma sociedade alfabetizada onde as pessoas tenham uma cultura política. Não há cultura política de esquerda no Brasil. Não há sequer cultura política. O que se diz hoje como manifestação política popular, em geral, é esvaziada de conteúdo e não traduz um entendimento do processo. O sujeito vai para praça gritar palavras de ordem, que muitas vezes é um discurso de reprodução do que se é difundido na mídia, mas elas não sabem se quer do que estão falando, o que elas estão reivindicando.
SF: O senhor afirma que não há uma cultura política de esquerda no Brasil. Como o senhor vê então o Movimento dos Sem Terra? Ou ainda o movimento negro ou os coletivos de mulheres, por exemplo?
OM: Bem, quanto ao MST eu acho a melhor coisa de movimentos sociais que o Brasil tem. São 20 milhões de homens e mulheres aproximadamente, do campo. Mas a pergunta já traz a resposta, o campo nunca foi lugar de transformação. O campo sempre foi lugar de transição. Em todas as grandes revoluções no mundo, Cuba, China, Rússia, França, Itália, o campo sempre ocupou um papel secundário. Por outro lado, luta das mulheres, LGBT, negros, movimentos verdes, etc. são importantes, mas isso fragmentou muito a política, individualizou-a e nós perdemos um sentido maior de país. Porque cada movimento quer um naco, um pedaço do bolo. Então a impressão que dá é que cada um desses movimentos quer uma fatia desse bolo para atender uma pauta reivindicatória importante, sem dúvida, mas individualizada. E no momento, o bolo não tem mais para dar, então o que precisamos agora é de construção nacional. Nós voltamos no tempo.
O economista Celso Furtado dizia que o Brasil é um país de construção nacional interrompida. Mas as pessoas só se veem mobilizadas para ir para a rua por essa era chamada “a era dos direitos”, que o Norberto Bobbio escreveu no seu livro famoso A Era dos Direitos. Então elas só se sentem tocadas capitaneadas por bandeiras, quando elas são mulheres, homossexuais, negras, enfim. Mas como um negro, um homossexual, uma mulher, pode ser um antissocialista? Pode ser um fascista? Ou pode ser um anticomunista? É inadmissível. E é um sintoma disso, dessa fragmentação. Com isso não quer dizer que as pessoas tenham que ser comunistas, socialistas, mas pelo menos antifascistas. Não é? Então eu vejo um problema muito grande entre a luta pelo macro e o micro. As lutas estão muito individualizadas.
SF: Sobre as manifestações pró-impeachment, elas tem demonstrado um ponto que o senhor tocou: o crescimento do discurso e extrema direita e do comportamento fascista. Como vê isso?
OM: Quem está se manifestando a favor do impeachment, não sei nem se sabe, se compreende o que é o impeachment. Não estou menosprezando ninguém, mas falta um maior didatismo. O que nós assistimos é um happening. Parece um carnaval fora de época, uma micareta.
SF: Você diz que falta uma politização para que as pessoas compreendam o significado do que elas reivindicam no caso do impeachment. Mas o que as motiva na sua visão?
OM: Acho que a onda coletiva. O clima instaurado por segmentos da imprensa. Então se junta um coletivo, uma patota, mas sem uma fundamentação maior. “Eu vou porque entendo que a Dilma não é boa.”. Mas se você investiga e pergunta: Porque ela não é boa? Quais são os tópicos da política dela que não são eficientes? Não se sabe responder.
SF: Fala-se muito da política econômica.
OM: Pois é, mas as pessoas sabem isso? Que há uma política de juros altos, recessivos? Talvez intuitivamente saiba, mas doutrinariamente não. Então elas saem às ruas com que projeto? Qual é o projeto alternativo para sair para a rua? É para dizer “não” apenas? É uma lógica quase infantil. Freud diria que é uma falta de mãe. Acho que se ele visse aquela massa em Copacabana ele diria que era um problema edipiano. Por outro lado o movimento da esquerda que sai para as ruas em reação contra o impeachment, sai desesperado. O que eu vejo, e acho legal que as pessoas se manifestem de todos os lados, é que há um desespero. Não há uma visão mais orgânica.
SF: As manifestações de esquerda vieram muito tardias? Demorou demais?
OM: Tem gente que acha que veio tarde demais. Eu acho que veio quando pode vir. É difícil saber… não acho que houve uma falta de timing, não. Acho que veio quando foi possível.
SF: Vejo comentários de analistas políticos que acham que as manifestações de direita pró-impeachment viriam a reboque das manifestações de 2013. O senhor concorda com esse entendimento?
OM: Não creio. Acho que 2013 ficou no tempo relacionado àquele momento. A questão dos 0,20 centavos, Black blocs, as pautas eram outras. Foi outra questão.
SF Como o senhor vê o crescimento da extrema-direita, no discurso e no projeto político, no Brasil e na América Latina?
OM: Eu vejo um crescimento sim da direita de uma maneira geral e seus matizes em todo o continente. A região como um todo está vivendo esse processo de virada. O mais recente agora foi o próprio Macri na Argentina, foi crescendo, virou prefeito, alcaide , agora presidente. Realmente é uma questão séria. Acho que é um movimento que requer ser observado com muita atenção para se compreender melhor essa conjuntura.
SF: É quase que um consenso que é praticamente inevitável que se instaure um novo golpe. A questão da possibilidade de reversão é outra história. O golpe no passado, que se tem registro no país, é de um golpe realizado pela força de Estado. O golpe de hoje tem uma configuração bastante diferente, algo como um golpe branco “pós-moderno” midiático-jurídico. O ativista Edward Snowden, logo após o vazamento dos grampos da presidenta Dilma publicou no twitter uma advertência à presidenta alertando que ela não havia aprendido com o episódio dos grampos da Casa Branca e ainda fazia telefonemas não criptografados. Como o senhor definiria esse novo golpe? Tem paralelo em algum contexto na história?
OM: Acho que ele tem características parecidas com o passado. Ou seja, mídia hegemônica que, por si só, já é indício de democracia fraca. A presença de pressão de setores do poder econômico e o papel importante do poder legislativo. A derrubada do João Goulart contou muito com a participação do congresso. Hoje, claro, tem novos equipamentos, temos novas tecnologias, os atores mudaram, mas o roteiro é igual.
SF: Acha que podemos estar caminhando para um parlamentarismo? Quais seriam os riscos tendo um congresso como esse que a gente tem hoje?
OM: Acho muito difícil um parlamentarismo. Primeiro acho difícil a população entender e aceitar um parlamentarismo imposto pelo poder judiciário. Acho que só um parlamentarismo plebiscitário e o parlamentarismo perderia no plebiscito para o presidencialismo, como já perdeu todas às vezes. E o parlamentarismo seria a concretização do golpe…
SF: O Eduardo Cunha já tem articulado nesse sentido, segundo declarou em entrevista recente à Folha de São Paulo.
OM: É, eu acho que só o parlamentarismo articulado à forças golpistas. Porque o parlamentarismo para ser estabelecido no Brasil, ele precisa ser de acordo com a Constituição plebiscitário. Teriam que convocar um plebiscito e saber a opinião das pessoas.
SF: Quais os caminhos o senhor acredita que o país pode seguir nesse momento para conseguirmos manter os ritos democráticos, manter preservadas as instituições e prosseguir com um mínimo de governabilidade até 2018?
OM: Difícil responder… a futurologia hoje é um exercício complexo. Nós temos algumas tendências. Existe a hipótese da Dilma conseguir manter o mandato e ir até o final sangrando, o que é um processo duro, difícil, mas seria possivelmente o menos negativo. Talvez a mais provável, segundo as tendências que se apresentam seria infelizmente a queda do governo. Seguida de um período de um certo obscurantismo.
SF: Qual o candidato mais forte para 2018 na sua aposta? Lula? Marina?
OM: As simulações mostram sempre o Lula na frente. A Marina me parece um cavalo paraguaio… corre na frente, mas não se sustenta, perde o fôlego no meio do caminho. Ela tem uma dificuldade de comunicação muito grande, de organização e exposição das ideias. A população não entende bem o que ela diz e às vezes dá a sensação de que ela não entende bem o que ela diz, soa fabricada e o conteúdo propositivo dela também segue a mesma linha, é confuso. E o Lula me parece o candidato mais razoável para ganhar em 2018. Eu ainda apostaria minhas fichas no Lula presidente em 2018. O problema é quem seria o vice, acho que uma chapa com Lula e Ciro Gomes como vice para somar em vigor seria muito forte.

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O Aécio Neves ou qualquer um presidente do PSDB é a opção mais estratégica pois a Social Democracia não iria deixar de agradar àqueles que tem confiança apenas no Lula e na Marina. E ao mesmo tempo não alimentar esse ódio da extrema-direita ao abaixar a bola do comunismo sem interferir muito nas tendências socialistas, tanto de esquerda quanto de direita. Pois socialismo e Comunismo não são a mesma coisa, mas a extrema dreita é socialista tanto quanto, basta lembrar do Nazismo e suas ideologias de Socialismo Nacional. Se a única diferença entre comunismo e fascismo é o carater de ser nacional ou internacional então podemos afirmar sem sombra de dúvidas que independentemente do próximo governo ser de direita moderada, reformar apenas ideologias de internacionalismo que vem da esquerda não deixaria de agradar aqueles que dependem do socialismo de esquerda mas deixaria a população que se identifica com os valores de extrema-direita mais tranquila em relação a tudo. Até homofobia seria amenizada pelo advento da nacionalização da economia pois o verdadeiro problema deles é o mesmo de todos: empregos, salários, qualidade de vida em geral que distrairia o olho dessas pessoas que ficam colocando o olhar onde não é problema.
– Att