Oswald de Andrade não é “apenas um personagem, mas um autor cuja obra merece ser lida”, avalia biografa do escritor

Se os tablets, twitter e facebok são vistos com desconfianças pelos mais conservadores,  Oswald de Andrade não só seria um entusiasta, como usaria essas ferramentes “magistralmente” , analisa  Márcia Camargos,  pesquisadora que acaba de lançar “Semana de 22 – entre vaias e aplauso”, da Boitempo. Seu  livro apresenta uma interessante análise de como o modernismo se tornou um dos eventos artísticos mais impactantes do país.
Oswald de Andrade foi o homenageado deste ano da nona edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paratí –, evento que conta com a participação de diversos autores renomados, nacional e internacionalmente.
Apesar de elogiar o evento, seu papel de fomento cultural e a preocupação em agregar diferentes públicos, Márcia lamenta o fato ter sido a única escritora brasileira convidada pelos organizadores para fazer parte da programação e recomenda mais cuidado quanto à isso nas próximas edições.  “Uma festa em sua (Oswald) homenagem demandaria um maior equilíbrio de gênero”, avalia.
O que representa a escolha de Oswald de Andrade como o homenageado da Flip? Qual o papel dele e da sua obra para a cultura nacional?
Esta escolha traduz o espírito desta festa literária alegre, descontraída e que se quer de vanguarda como o próprio Oswald de Andrade. Esta escolha também tem o mérito de mostrá-lo não apenas como um personagem, mas como um autor cuja obra merece ser lida. Porque além de um dos articuladores da Semana de Arte Moderna, Oswald de Andrade deixou seu nome marcado no panorama cultural brasileiro. Ele foi um escritor de primeira grandeza, tendo percorrido todos os gêneros literários. Um dos mais inovadores entre os modernistas, com sua linguagem sempre transgressora abriu caminhos que influenciaram grande parte da poesia brasileira posterior em Carlos Drummond de Andrade, Cabral de Mello Neto, Manuel de Barros e o próprio concretismo.
Ele participou de diferentes movimentos culturais e promoveu encontros entre diversos artistas. Temos alguém que assume esse papel de agitador, de ponto de encontro cultural?
Creio que no nosso mundo diversificado, pluralista e globalizado, as instituições ocuparam o lugar dos antigos mecenas ou agitadores culturais. Pode haver um ou outro nome que se sobressai como o Zé Celso Martinez, por exemplo, mas são casos pontuais. Hoje não há um, mas vários pontos de encontro culturais, em geral mantidos por instituições como o Sesc, que de certa forma procuram “socializar” a cultura, dando acesso à produção contemporânea a uma larga fatia da população. Ou seja, na contemporaneidade, os locais de encontro procuram dar vez às expressões populares por meio de incentivos e apoios, por meio de preços acessíveis. Eles então se multiplicaram e se pulverizaram para atender à crescente demanda.
Há algum significado especial em ser a única brasileira a participar da programação da Flip?
Eu me perguntei por que fui a única mulher brasileira convidada na programação principal. E assim mesmo como estudiosa da obra oswaldina, como uma historiadora e pesquisadora do modernismo brasileiro do que como uma autora ao pé da letra, embora também o seja. Isso nos leva a refletir sobre o papel da mulher hoje, se em pleno século XXI ainda vivemos numa sociedade conservadora e patriarcal. Pois sendo Oswald um feminista e defensor do matriarcado, uma festa em sua homenagem demandaria um maior equilíbrio de gênero. A importante produção literária feminina brasileira não deve ficar na sombra, ofuscada, pois ela é profícua tanto em quantidade, mas, sobretudo, em qualidade. Quem sabe a instituição de quotas levaria a uma harmonia nas próximas edições.
O meio literário tem menos pré-conceitos e tabus que os outros setores da realidade? Por exemplo, existem menos barreiras para as mulheres e homossexuais no universo artístico?
O meio artístico tende a haver menos preconceito do que em outros segmentos da sociedade, justamente por se tratar de uma área que atrai pessoas questionadoras, que desafiam o status quo e os valores morais vigentes. Pois se o artista é, antes de tudo, um demolidor de conceitos cristalizados, se ele pretende enxergar para além das aparências e da superfície e quebrar tabus, então consequentemente tem que ser mais aberto e mais tolerante, indo na contracorrente do senso comum.
As mulheres, ao longo da história ocidental, sempre foram relegadas a um segundo plano. A elas cabia o papel de filhas, irmãs e esposas. As que fugiam do figurino eram prostitutas ou transgressoras, e pagaram caro pelas suas atitudes ousadas e de vanguarda. Para voltarmos a Oswald de Andrade, vejam o exemplo da Pagu, uma precursora, uma mulher à frente do seu tempo e que acabou presa, torturada e duramente perseguida até o final da vida. Aos poucos, após muitas lutas, as conquistas foram acontecendo e hoje temos até uma presidenta no comando do país, algo impensável até pouco tempo atrás.
A ampliação dos espaços ocupados pela mulher, que se desdobra em mãe, esposa, amante, profissional, militante e artista, reflete-se em todas as áreas da atividade humana. No passado, certas escritoras usavam pseudônimos masculinos para publicarem. Agora são reconhecidas e reverenciadas até mesmo no âmbito ultraconservador da Academia de Letras. Por isso, acho que o número reduzido de mulheres convidadas na última edição da Flip vai na contramão da história. Com toda e absoluta certeza, não foi algo proposital, mas simplesmente um acaso que precisa ser evitado no futuro, prestando-se mais atenção à questão de gênero, entre os critérios de seleção dos escritores(as).

Você acha que Oswald de Andrade estaria contente com a atual produção cultural e, mais especificamente, literária do Brasil?

Oswald estaria sim feliz com os rumos da nossa produção literária, sobretudo com a internet, os blogs e os twitters, que ele saberia usar magistralmente. Ele ficaria feliz ao constatar que o citizen journalism que ele de certa maneira praticava no seu tempo, alastrar-se pelas ruas e mudar os rumos políticos de um país. E como bom arauto da antropofagia, veria esta variedade de estilos, esta interpenetração do nacional e do estrangeiro, do periférico e do centro, do erudito e popular, da tradição e da vanguarda com muitos bons olhos. Era o que ele defendia, o que pregava e praticava.
A Flip pode ser considerada um espaço que incentiva e promove a cultura para o grande público ou ela ainda está fechada a um público específico e elitizado?


Vi na Flip gente de todas as idades e origem social. Claro que há sempre um público cativo, formado pelos leitores, por aqueles que acompanham a produção nacional e estrangeira e aproveitam a Flip para entrar em contato mais direto com este universo dos escritores contemporâneos. Muitas destas pessoas conhecem os autores, os editores, frequentam os mesmos restaurantes e são convidados para as festas e jantares oferecidos pelos organizadores e pelas editoras durante o evento. Mas percebi que vem gente mais humilde, gente que aprecia o clima de festa e que procura uma maior proximidade com aqueles personagens que costumam ver na televisão ou no jornal.
E de qualquer forma, há atividades para todos os gostos e idades, com a inclusão da Flipinha, da Flipzona e outros eventos que chamam de off Flip, justamente para dar conta do público crescente e diversificado. Outro detalhe que me chamou a atenção foi a presença participativa dos moradores de Paraty. Quer dizer, não se trata de um festival no estilo do turismo predatório, que se aproveita do lugar e depois vai embora sem acrescentar nada mais além da devastação ambiental e social. Há toda uma preocupação em engajar a comunidade desde os primeiros momentos da montagem da programação, de modo a respeitar os limites dos habitantes, escutá-los, dar a eles espaço próprio de atuação e diálogo e, principalmente, deixar  sementes frutificando quando a Flip termina. Essa constatação me animou e me deixou de consciência tranquila.
Ficha técnica do livro
Título: Semana de 22
Subtítulo: entre vaias e aplausos
Coleção: Pauliceia
Autor(a): Marcia Camargos
Páginas: 184
Ano de publicação: 2002
ISBN: 85-7559-020-0
Preço: R$ 32,00
Editora: Boitempo
(*) Paulo Pastor Monteiro é estudante de jornalismo da Unesp.

Um comentário sobre “Oswald de Andrade não é “apenas um personagem, mas um autor cuja obra merece ser lida”, avalia biografa do escritor”

  1. Sendo Oswald de Andrade adepto ao feminismo não deixaria de se manifestar na composição dos participantes da FLIP e seria naturalmente ouvido e contemplariam mais representantes mulheres, afinal está provado por a+b que elas são competentes em todas as áreas do saber humano.

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