O cinema autogestionado de Carlos Pronzato

Nascido na Argentina, o cineasta Carlos Pronzato vive no Brasil desde 1989. Durante este período, desenvolveu um esquema próprio de produção e distribuição de seus filmes. Assim, Pronzato pode dizer que tem a liberdade de abordar o tema que quiser em seus filmes, sem precisar dar satisfações a ninguém. Quando é convidado para participar de algum debate, o diretor leva junto consigo uma “banquinha”, onde vende seus filmes e livros.
Com independência, Pronzato documenta temas populares que, geralmente, não estão presentes nos circuitos privados e institucionais de cinema. É exemplo disso os documentários “Buscando Allende” e “Carlos ‘Calica’ Ferrer”, este último foi lançado neste ano e narra a segunda viagem de Ernesto Che Guevara pela América Latina, acompanhado de seu amigo de infância, “Calica” Ferrer.
Assim como o militante argentino, Carlos Pronzato também viajou pela América Latina. Aos 22 anos foi, inicialmente, para o México, passou por diversos países, entre eles, Guatemala, El Salvador, Honduras, Panamá, Colômbia, Peru e terminou sua viagem no Brasil, em 1989. “E por tudo isso, por essa viagem que eu fiz, me interesso muito sobre o tema das viagens de Che Guevara. Eu vivenciei de alguma maneira isso”, afirma. Aliás, a figura de Che Guevara é bastante presente na obra de Pronzato, seja em documentários ou em poemas. Confira a entrevista:
Veja aqui o Blog de Carlos Pronzato
Caros Amigos – Como surgiu o interesse pelo cinema? Como foi o processo até você começar a produzir?
Carlos Pronzato: Eu venho de uma família de artistas, minha mãe, Irma Haydéé, fotógrafa e artista plástica e o meu pai, Víctor Proncet, italiano, escritor, dramaturgo, roteirista de cinema e de TV, ator e principalmente músico compositor de numerosos filmes, me inculcaram esse universo desde a infância. Então, acompanhei meu pai desde criança no teatro e desde a adolescência nos estúdios de cinema, o que seriam os primeiros passos antes de ter esta atividade profissionalmente. Nesse percurso, como todo interessado nesses assuntos, frequentei muitos cineclubes em Buenos Aires e uma vasta programação de todas as cinematografias do mundo, em locais, principalmente, alternativos.
Como foi sua aproximação com o Brasil?
No início dos anos 80, surge a possibilidade de percorrer o continente latino-americano durante anos morando em diversos países e trabalhando em qualquer coisa para poder viajar, bem ao estilo dos “Diários de motocicleta”, do Guevara, viagem de conhecimento e aventura até concluir em Salvador, Bahia, em 1989, onde me formo na UFBA em Direção Teatral, monto numerosas peças e retomo o trabalho no audiovisual. Minhas primeiras produções na direção são desse período, sem um interesse político, até ali era só cultural e histórico. É nesse momento que começo uma vida mais sedentária. Passo quatro anos no curso.
Qual foi a importância da viagem pela América Latina para a continuação do seu trabalho?
CP: Durante a viagem, trabalhei com diversas coisas, vendia livros, artesanatos, sabonetes, trabalhávamos com qualquer coisa, para juntar um dinheiro e poder viajar. Também trabalhei em carregamentos de navios, restaurantes, a intenção era conhecer outras culturas, as diversas comunidades. Em cada amanhecer, não sabíamos o que aconteceria. Aprendi a vender os produtos viajando e isso me ajuda até hoje na venda de DVD’s e livros. Além disso, minha formação política institucional não existe. Minha formação se deu toda nessa viagem. Por isso, com meus filmes, me propus a fazer uma espécie de retribuição por tudo que passei nessa viagem, mas também com um perfil político, que no início eu não percebia.
E é a partir disso que você começa a agregar o lado político nos seus filmes?
Sim, mas também tive outras influências. Um ponto importante, na Argentina, foi o meu pai, Víctor Proncet, que participou de um filme que é fundamental para entender a problemática latino-americana, que se chama “Los traidores”, dirigido por Raymundo Gleyzer, um dos maiores cineasta de luta na América Latina. Esse cineasta foi perseguido pela ditadura. Inclusive, eu saí exilado da Argentina com meu pai o qual foi o roteirista e ator principal do filme. Esse filme é fundamental e sempre ficou na minha cabeça, essa experiência me deu a dimensão de compromisso com esse tipo de cinema. Então, depois de fazer bastante teatro na Bahia, percebi que com o teatro não conseguia preencher certas preocupações sociais, como abarcar um maior público, além de não poder viajar. Então, no final dos anos 90 começo a me conectar com esse mundo. Passei o primeiro período criando em outras áreas, como o teatro e literatura.
E como foi sua atuação na área literária?
Continuo trabalhando com a literatura. No início, fiz alguns livros de teatro e no final da década de 90 começei a trabalhar com uma temática mais sócio-política, em forma de poesia como são os livros “Che, um poema guerrilheiro”, “Poesia contra o império”, “Canudos não se rendeu”, entre outros. São materiais importantes também, apesar de terem um menor alcance, já que não podemos reproduzir livros da mesma maneira que se faz com o DVD. Mas, mesmo assim, eles são muito utilizados, eu mesmo sempre termino minhas participações em debates recitando poesias, pois acho que não se pode separar a luta social da cultura. Esse é um erro que acontece muito, a cultura é renegada ao último vagão do trem, mas deveria estar lá na frente.
Hoje a cultura é vista, por grande parte da sociedade, como apenas entretenimento, como você enxerga essa questão?
Apesar disso, há um grande movimento, principalmente nas periferias, onde existe uma construção cultural fortíssima. Quando consigo sair do trânsito das universidades e entrar com as palestras em escolas públicas ou de periferia, vejo a possibilidade de inserção que o meu material teria se o Estado se interessasse, mas infelizmente o Estado não se interessa em veicular certos filmes com temas polêmicos, como o passe livre escolar, os sem tetos, que são fundamentais para esses jovens. Mas o Estado promove justamente um desconhecimento, não só o Estado, mas as ONG’s também, com programas de distribuições de filmes que não tem nada a ver com essa realidade. Existem duas tendências de produção de cinema, uma que se aproxima mais do mundo institucional, onde existem mais possibilidades de conseguir recursos do Estado para desenvolver um trabalho e a outra, por própria iniciativa, não procura o Estado, na qual eu me localizo. Mas se tivesse um recurso do Estado, seria bem-vindo, já que é um dinheiro meu. Só que o processo é demorado e muito burocrático. Então isso não me interessa. Faço meus projetos quando acredito que tenho que fazê-los, diferente de pessoas que esperam anos para sair esses recursos estatais. Isso também mostra que, o que algumas pessoas fazem com R$ 10 mil, é possível fazer com apenas R$ 1 mil. Existe um mito de que para fazer um filme bom, é preciso gastar muito dinheiro e com a autogestão conseguimos ver os preços reais da produção.
E qual é a relação do seu trabalho com o Estado?
Minha única movimentação, quando eu termino um filme é oferecer para o Estado, no caso, o da Bahia, comprar. Acho um absurdo que alguns materiais que tenho feito, por exemplo, sobre as lutas estudantis na Bahia, que são consumidos por estudantes de todo o país e utilizados em debates, as escolas do Estado não tem esse material. Uma cópia para cada escola, que pode ser até cedido, não preciso que o Estado compre, mas acho interessante isso ser divulgado para os jovens.
Voltando aos seus filmes, qual foi o primeiro tema político que você abordou?
Já vinha trabalhando com Canudos, que acredito ser um tema político muito relevante, que fornece materiais de estudo e de prática para os movimentos sociais. Então no final da década de 90 fiz um curta de ficção sobre Canudos. O primeiro documentário político foi sobre o “Maio Baiano”, quando em 2001, estudantes e movimentos sociais foram violentamente repreendidos por protestarem contra o Antônio Carlos Magalhães (ACM) que fraudou o painel do Senado. Este ano (2011) estou comemorando 10 anos no cinema político, mas pela quantidade de projetos, parece que é mais tempo.
Como você faz a escolha de seus temas?
Por incrível que pareça tem ocasiões em que os temas nos escolhem. Um exemplo é o documentário “Até Oxalá vai à guerra”, sobre a destruição de um Terreiro em Salvador pela própria Prefeitura. Eu estava chegando de viagem e presenciei um protesto no qual me envolvi e fui expulso fisicamente pela segurança. Pouco sabia o que estava acontecendo, mas meu envolvimento foi radical. Isso gerou um documentário sobre um assunto que eu nada sabia no dia anterior. Outras vezes, as escolhas são mais imperativas e urgentes quando mobilizações sociais promovem novas dinâmicas, instituem novos paradigmas de ação ou os renovam como foi na denominada “Revolta do Buzu” em Salvador, exemplo até hoje de como se pode acuar o Estado e toda sua máquina de engano com uma mobilização contínua nas ruas, o que, acredito, e em vista dos atuais acontecimentos no mundo, é a legitima e autêntica forma de uma ação política bem longe da luta institucional e conhecida que promove indefinidamente o status quo.
Como você faz a venda de seus produtos? Qual é a importância de liberar os filmes para exibições e venda para os movimentos sociais?
Primeiro porque nós sabemos que os movimentos se apropriam desses documentários e isso faz com que sua circulação promova debates e conhecimento de ações em diferentes locais do país. É participando de ações de enfrentamento ao sistema que surge essa vinculação contínua com as pessoas e/ou movimentos sociais. Aqui no Brasil, alguns coletivos políticos usam os filmes, copiam e vendem. Eu acho ótimo, tenho uma coleção de diferentes encartes dos meus filmes. E para vender eu também faço isso, circulando pelos eventos com um público variado, sei que é um espaço interessante para difundir meus filmes, pois as pessoas que os adquirem, sempre os reproduzem. Eu mesmo faço as cópias dos filmes e o encarte e vendo por aí. Às vezes, as pessoas acham engraçado o próprio diretor vendendo seus filmes.
Quais são as vantagens e desvantagens de ser um cineasta autogestionado?
Eu poderia estar na Universidade, estudando e lecionando, mas ser um documentarista militante me impede de fazer isso. Porém, ao mesmo tempo, minha profissão permite uma grande mobilidade. Estou sempre viajando e participando de eventos. Se eu estivesse em uma universidade, estaria mais preso. Outra desvantagem é a econômica, pois poderia ter um contracheque no final do mês e não precisar inventar um contracheque todo dia. Mas, no final das contas, consegui ter uma regularidade financeira. A maior vantagem é poder conhecer tantos mundos e pessoas diferentes, mas tem uma responsabilidade, já que todo material tem um recorte e uma influência direta do autor. Além disso, não abro mão da minha liberdade, de poder tratar dos temas que me interessam e não ter que submeter isso a ninguém.
(*) Entrevista publicada originalmente na página da Caros Amigos.

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