Os perigos da última palavra

Em “O Mal Estar da Pós-Modernidade”, Zygmunt Bauman chama atenção para a ansiedade que assola o espírito do homem/mulher pós-moderno(a) devido às incertezas quanto ao futuro e à recorrência de uma sensação de insegurança em função do enfraquecimento do Estado como regulamentador da organização e relações sociais.  

Mas essa mudança, diz o autor, é fruto também da própria vontade de liberdade humana. Se as instituições modernas forneciam mais chão para as pessoas, elas também limitavam a pluralidade de identidades e estilos de vida possíveis, o que era ainda mais reforçado pela construção de uma identidade nacional estandardizada.

Com a flexibilização das relações políticas, econômicas, trabalhistas e sociais e de uma série de procedimentos que garantiam um mínimo de estabilidade aos indivíduos, a cobertura antes garantida pelo Estado foi reduzida. O mercado, regido pelas movimentações do capital em escala mundial, passou a regular, com alguma independência, boa parte das esferas da vida humana, elevando as fronteiras nacionais a um grau simbólico e desestabilizando a chamada “identidade sociológica”.

No entanto, com a vitória do liberalismo, as pessoas ganharam mais autonomia e poder de decisão – embora, como lembra Bauman, a exarcebação das desregulamentações e liberdades tenha aprofundado, em muitos casos, a desigualdade social, já que o consumo passou a ser a marca do poder de ir e vir, a marca do cidadão de fato.

Ocorre que esse relativo aumento das liberdades gerou, além da instabilidade e insegurança – a qual é ainda intensificada por esse abismo social à céu aberto – falta de orientação e o conseqüente medo de não seguir o caminho correto na vida. “A liberdade humana se tornou a tirania das possibilidades”, diz o autor, citando Hanna Harendt.

Não por acaso, a pós-modernidade se tornou a era do superaconselhamento, tendo no fundamentalismo – um produto pós-moderno por excelência – seu exemplo mais extremo e, talvez, mais claro. Homens e mulheres procuram novas referências estáveis, que deem uma direção certa a suas vidas, a fim de terminar de vez com a desesperadora sensação de ansiedade. Tal busca, porém, acaba esbarrando num antigo problema: a supressão da liberdade e autonomia individuais.

Bauman conta ainda que o comunitarismo surge como alternativa à ausência do Estado. Contudo, o modelo retoma o gosto do Estado-nação por construir e preservar identidades-padrão, gerando segregação em função da diferença – seja racial, étnica ou social. Enfim, mais uma vez, a liberdade individual fica submetida à verdade construída em nome da coletividade. O sujeito é diluído em novas instituições e o indivíduo, novamente espremido.

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Em meio a esse impasse, pode ser tentador optar pela proposta dos comunitaristas, ao se considerar que “a segurança-caseira” possivelmente evitará o crescimento das desigualdades. Isso, inclusive, é uma tendência presente em diversas partes do mundo, vide a criação da expressão “glocalismo”, referindo-se ao fenômeno recorrente, que se apresenta como um contraponto à globalização.

Desenham-se, com isso, algumas preocupações: cairemos em novos totalitarismos nesses microrregimes unificadores? Novas verdades serão estabelecidas e alcançarão o status de dogma? Quantos confrontos, guerras civis e internacionais poderiam ocorrer em nome de novas verdades, liberdades e modelos de vida ideais? “A história está cheia de assassínios de massa cometidos em nome de uma única verdade. (…) Como demonstrou a experiência de nosso tempo de totalitarismo, com uma demasiada frequência o desejo de tirar a liberdade se encontra com o desejo de concedê-la”, alerta Bauman.

Promessas de cura para as nossas ansiedades, desejos e questões pessoais e coletivas, motivaram historicamente o estabelecimento de novas ordens mundiais e/ou locais. O problema é que muitos desses sentimentos estarão sempre lá, não importa o quão esclarecedor seja o livro de auto-ajuda comprado ou o quão fortes sejam as rédeas fundamentalistas ou governamentais que venham a ser colocadas sobre nós.  Não há fórmula mágica para isso.

Não obstante, a última-palavra segue sendo o objeto de desejo consciente e inconsciente de muitos homens e mulheres, dando margem para a atuação de exploradores, demagogos, hipócritas e usurpadores de toda estirpe. Muitos desses transmitirão, em nome da liberdade sem ansiedade, uma só verdade ou, como aponta Bauman, no final das contas, “o direito ao monopólio do poder para uns, e o dever da total obediência para os outros”.

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