Os fundamentos da domesticação humana

Todas as pessoas somos ensinadas, ao nascermos. Esse ensino chama-se socialização, e consiste na interiorização, em cada um de nós, de formas de ser, fazer, sentir, e pensar alheias. Tais formas de pensar, agir e sentir são chamadas de “normas” ou “valores sociais”, que não é o mesmo, mas tanto faz.

O mecanismo básico do ensino é a recompensa-castigo, que termina inibindo no indivíduo aquilo que será punido pelos demais. A culpa desempenha um papel fundamental neste processo. “Por quê você só está feliz quando está triste?”, pergunta Osho.

Cada pessoa se constitui enquanto tal (pessoa), na relação com outras pessoas, e existe apenas enquanto essas relações durarem. Isto quer dizer que quando você pára de se relacionar, pára de existir da maneira corrente (normal), ficando a sua existência num nível virtual.

A pessoa pode ser entendida, assim, como um lugar de reunião, ou de interseção, se preferir. Isto é o que Marx chama de “o indivíduo como ser social”. Cada um de nós é uma reunião de relações com outros seres humanos, vivos, mortos, imaginados, desejados.

Seres que nos ensinaram a pensar, a imaginar, a criar, a trabalhar, a sentir, a cantar, a sofrer, a pintar, a correr, a viver, a morrer, a sonhar.

Quando se fala, em sociología, de “indivíduo”, deve-se entender essa reunião de hábitos (as formas normais de fazer ou não fazer, etc.). Cada um de nós nada mais é -nem nada menosque uma particular agregação sensível de consciência e percepção. Um lugar em que memórias se encontram, em que passadas programações (socializações) para querer isto e detestar aquilo se dão cita.

Como, então, cómo poderiamos não ser, cada um de nós, um caos, um conflito, uma colisão de valores (obrigações e desejos; deveres e quereres) contraditórios disputando primazía.

A cada valor realizado corresponde um insatisfeito, um que ficou pra trás, aguardando a sua vez, ou simplesmente descartado ou reprimido. Cada indivíduo, na sua relação com algum outro, estabelece limites, define prioridades.

Na sociedade capitalista, e especialmente nos dias de hoje, o indivíduo é concebido como uma ilha com primazia absoluta sobre qualquer outro indivíduo. O interesse próprio é o valor supremo, excludente de qualquer outro. Primeiro eu, depois eu, e sempre eu.
Agora, que eu é esse? Um “eu” insatisfeito. E pior: um “eu” impossível de se satisfazer. “I can’t get no satisfaction”, como cantavam os Rolling Stones.

Um “eu” que quer algo que se lhe escapa a cada instante. Um “eu” que corre ansioso e preocupado, carrancudo e atropelador, louco para passar os outros “eus” pra trás. Como se a vida do dia a dia fosse uma concorrência em que a minha vitória deverá ocorrer encima da
derrota de cada um dos que encontrei no meu caminho.

Como se esses outros “eus” que encontrei no meu caminho fossem meras pedras, meros obstáculos, ou então meios para o meu triunfo.

Seres de quem me aproximo para obter algúm benefício para mim. O gratuito foi comercializado. A vida tornou-se uma mercadoría. Valho pelo que tenho, pelo que possuo. A roupa, o carro, o som, a mulher, a casa, o sobrenome, a posição na hierarquía de prestígio e poder. Doutor pra lá, mendigo pra cá. Doméstica pra lá, padre pra cá.

O tempo, entretanto, essa mercadoria que tentou-se comercializar como o mais, escapa da possibilidade de o aprisionarmos. Não há calendário nem agenda, previsão ou expectativa, que possa nos garantizar a posse de um segundo de vida. Entretanto, vivemos como se fossemos eternos, como se o tempo todo coubesse nas nossas mãos ou na nossa conta bancária.

O tempo é ouro, ensinaram-nos. Há um tempo para todas as coisas debaixo do céu, lemos num livro muito antigo. Mas…que outro tempo podemos viver a não ser o agora?
“Wish you were here”, diz a música de Pink Floyd.

Aonde estás agora? Qual é o lugar que o silêncio ocupa na minha vida? Somos transeúntes entre diversos mundos, mas somos forçados a manter uma coerência. Ficamos presos com facilidade em um único mundo e alí ficamos pelo resto da vida. “Há um tempo para todas as coisas debaixo do sol. Um tempo para amar e um tempo para odiar, um tempo para lançar pedras e um tempo para recolher pedras, um tempo para rir e um tempo para chorar”, dizem as páginas de um livro muito antigo.

Perdemos as chaves dos nossos tempos. O relógio comanda nossos atos. A utilidade é o valor supremo para nosso viver: quanto ganho, quanto ganhei, quanto ganharei, quanto perco, quanto perdí, quanto posso perder?

Cada pessoa necessita de um lugar dentro de sí mesma, em que ela possa habitar. Esse lugar é construído de distintas maneiras por cada um. Há quem escreva um diário, há quem medite, há quem cante, pinte, escreva poesía, etc.

Mil maneiras de se subtrair às pressões dos mundos externos e se retirar para um lugar em que os próprios pensamentos possam ser ouvidos, em que o próprio querer e o próprio sentir possam aflorar. Um lugar em que a vida cotidiana, as coisas de todos os dias, possam aparecer com uma importância própria, aquela que tem para cada um.

A socialização capitalista tornou-nos unilaterais. Apenas vemos um lado das coisas. O lado lucrativo. O ganho. Perdemos a sensibilidade para aquelas coisas que não se podem comprar nem vender. Sobretudo, perdemos o sentido do amor, transformado também em mercadoria incapaz de satisfazer o vazio de quem se nega à vida nas suas múltiplas
manifestações.

Construimos um “eu” que é uma prisão. Esquecemos de brincar. As normas existem como limites necessários e imprescindíveis sem os quais a nossa pessoa jamais chegaria a se configurar e existir em relação com os demais. Entretanto, essas normas são apenas referencias mínimos a partir dos quais devemos construir a nossa própria configuração, escolher os nossos próprios programas de vida, de acordo com um querer próprio e responsável.

A maior parte de nós, numa estupidez gigantesca, opta pelo cumprimento cego de normas, ou pelo descumprimento irresponsável de qualquer norma. Pouca inteligência a de esse orgulhoso animal autodenominado “homo sapiens”.

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou a nossa coragem?”, diz a canção de Legião Urbana.

Nos anos 60, as rebeliões políticas e culturais (revolução cubana e chinesa, maio de 1968, os Beatles, os hippies, a contracultura) forneciam espaço para construção de lugares pessoais e sociais distintos dos oferecidos pelos valores dominantes (propriedade privada, poder, individualismo).

Projetaram-se horizontes existenciais de felicidade e justiça, criatividade e realização coletiva que ainda hoje, nestes rarefeitos tempos neoliberais, referenciam o agir, o pensar e o sentir daqueles poucos segmentos sociais que ainda oferecem alguma resistência à civilização do lucro e do dinheiro.

Uma nova revolução está em marcha, e seus sinais podem ser captados aqui e alí, nas distintas tentativas de desalienação que de maneira silenciosa vem sendo praticadas por muitas pessoas no seu cotidiano.

É a revolução do tempo presente. Sem cartilhas nem partidos, sem chefes nem doutrinas, sem dogmas nem fardas. Apenas com a coragem de enfrentar o desafio de viver cada minuto com a totalidade do ser. Como se fosse o último.

Diferentemente das anteriores, esta revolução não se proclama, se vive, se pratica. Não há credos a serem impingidos na consciência dos demais, à moda dos evangelizadores do passado e do presente.

Nenhuma censura em nome de deuses celestes ou terrestres. “Até agora os filósofos se dedicaram a interpretar o mundo. Chegou a hora de transformá-lo”, dizia Karl Marx. Que mundo é esse a ser transformado?

Os socialismos do passado encararam a revolução para fora; agora é o tempo de construir esse fora dentro de cada um. Cada sujeito se torna o ator principal duma transformação que ressignifica cada pequena coisa do dia a dia, porque é necessário reencontrar um sentido próprio para a vida.

Um sentido que já não pode vir pronto de alguma autoridade moral, familiar, política, eclesiástica, universitária. Já não se trata de fazer a reforma agrária na terra do vizinho, mas na própria.

“Esse caminho que eu mesmo aprendi é tão fácil seguir, por não ter aonde ir”, cantava Raúl Seixas. Ou que tenha aonde ir, não importa. Você decide, a escolha é sua, e apenas isso importa.

A sociologia mostra que “os seres humanos fazem a história, embora não em circunstâncias que eles elegem, e sim em circunstâncias dadas” (Marx). A circunstância atual, de plena mercantilização do ser humano, oferece a possibilidade de tomarmos consciência disso e transformar o mundo, os nossos mundos, o mundo de todos e de todas. Para isso, é necessário recuperarmos os nossos sentidos.

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