Operários argentinos cobram punição pelo assassinato de Mariano Ferreyra

Dirigentes do movimento operário e socialista durante a concentração na Praça de Maio (Plaza de Mayo). No alto, três fotos de Mariano Ferreyra. Foto: Jadson Oliveira.

Cerca de 5.000 pessoas foram às ruas da capital argentina na última sexta-feira, dia 19, véspera de se completar um mês da morte de Mariano Ferreyra, militante de 23 anos do Partido Obrero (Obreiro ou Operário) assassinado com um tiro de revólver quando participava de uma manifestação em defesa dos operários terceirizados e contratados na rede ferroviária. A passeata partiu de uma estação de trem chamada Constituição (no bairro do mesmo nome), pegou algumas ruas centrais, como a 9 de Julho e a Diagonal Sul, e desembocou na tradicional Plaza de Mayo (Praça de Maio), onde está a Casa Rosada, palácio do governo.
Durante a concentração, foi lido um documento assinado por dezenas de partidos, sindicatos, entidades do movimento popular, parlamentares, políticos e personalidades, onde se pedia a punição dos “responsáveis” pelo assassinato. De acordo com as investigações, cujos resultados aparecem como consenso no noticiário da imprensa argentina, os autores da “emboscada” contra os manifestantes faziam parte de uma gangue (a imprensa daqui chama de “patota” e seus integrantes de “barrabravas”) recrutada e dirigida pela União Ferroviária (UF), entidade sindical oficial dos ferroviários, que é alinhada com o governo e é contra a atuação dos terceirizados e contratados, os quais lutam para ter sua situação trabalhista regularizada.
Sete estão presos, mas o Partido Operário quer a prisão dos “responsáveis políticos”
Milhares de pessoas foram às ruas exigindo a prisão dos responsáveis pela morte do militante do Partido Operário ("Obrero"). Foto: Jadson Oliveira.

Sete pessoas apontadas como autores materiais do crime estão presas, incluindo Pablo Díaz, que é delegado da UF e que teria monitorado a gangue durante a “emboscada”. Mais três manifestantes foram feridos a tiros, dentre eles Elsa Rodriguez, que levou um tiro na cabeça e está em estado grave. Os dirigentes do Partido Obrero (PO) cobram a prisão dos “responsáveis políticos”, referindo-se explicitamente ao secretário geral da UF, José Pedraza, e acusam a polícia de ter facilitado a ação da gangue. A “presidenta” Cristina Kirchner declarou que os responsáveis serão punidos e reafirmou a posição de seu governo contra qualquer repressão aos movimentos populares. Nos protestos de rua na sexta-feira, de fato, não se viu nenhum tipo de cerceamento policial.
Além do Partido Obrero, que liderou a manifestação e tinha o maior número de militantes, cartazes e faixas, participaram várias outras organizações políticas, como o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), Movimento Tereza Rodriguez A Dignidade (MTR), Movimento ao Socialismo (MAS) e a Esquerda Socialista, todas elas contrárias ao governo de Kirchner, que por sua vez é alinhado com os governos chamados progressistas da América Latina, como o de Lula, por exemplo. (São chamadas de anarquistas, trotskistas e, particularmente na Argentina, seus membros são conhecidos como piqueteiros. São organizações que demonstram ter aqui, ao contrário do Brasil, um maior poder de mobilização).
Integrantes do Movimento Tereza Rodriguez (MTR) aguardam, numa área da Plaza de Mayo, a chegada da passeata do Partido Obre. Foto: Jadson Oliveira.

Outros eventos marcaram o primeiro mês da morte do militante socialista. Depois da concentração na Plaza de Mayo, houve uma “marcha de antorchas” (tochas) até o local onde Mariano foi morto, no bairro de Barracas, onde foi feita uma vigília até o meio-dia de sábado e inaugurada uma placa. Em seguida, os manifestantes foram até o hospital onde está internada Elsa Rodriguez. Foram realizadas mobilizações também em outras cidades do país. Para esta terça-feira, dia 23, está previsto um festival na Plaza de Mayo, organizado pela Federação Universitária de Buenos Aires.
(Somente para ilustração: o jornal Clarín, do maior grupo empresarial de comunicação da Argentina, que está em guerra com o governo Kirchner, dedicou a cabeça da página 6 de sua edição de sábado, dia 20, à manifestação do PO, com direito à foto na cabeça da página. O título: “Críticas ao Governo em marcha por Mariano Ferreyra”. Na página seguinte, outra matéria falando das investigações sobre o crime. O governo Kirchner, depois de longa luta no Congresso e, depois, na Justiça, emplacou uma Ley de los Medios, que atinge em cheio o monopólio do grupo Clarín. É considerada uma lei avançada, em relação ao tremendo atraso da legislação brasileira, no tocante à democratização dos meios de comunicação).
Repressão do Estado em tempos de democracia
Militantes de esquerda, ligados à Correpi, protestam na Plaza de Mayo contra a matança de jovens. Ao fundo, a Casa Rosada, palácio do governo: Jadson Oliveira.

No final da tarde da sexta-feira, antes da chegada por volta das 19:30 horas da passeata do PO, a Plaza de Mayo foi palco para outra manifestação: sob o enunciado “distintos governos, a mesma repressão”, a Coordenação contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) apresentou o que a entidade chama Arquivo 2010, isto é, um balanço das mortes, prisões e perseguições, no último período de 12 meses, vitimando principalmente os jovens pobres. No último período de um ano, eles registram mais de 200 assassinatos de “pibes” (cuja tradução seria “jovens”, segundo alguns dos manifestantes), incluindo “quatro companheiros em protestos”, conforme anunciaram (entre os quatro, está Mariano Ferreyra).
Os representantes da Correpi fazem questão de esclarecer que se trata de repressão do Estado em tempos de democracia, inclusive no “governo dos Kirchner, que tanto gosta de se auto-proclamar como governo dos direitos humanos”. No balanço total, eles registram 3.093 pessoas assassinadas desde dezembro/83 até hoje (a última ditadura argentina foi de 1976 a 1983).
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Buenos Aires. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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