"Onde erramos?" – ficção e realidade

boliviaVista de El Alto, ao fundo, a partir da Praça São Francisco, centro de La Paz. Foto: Deta.

 
“É o fim do mundo, nossa Bolívia está morrendo dia-a-dia…” Eles não se conformam, estão desesperados, e o próximo domingo, 6 de dezembro – dia da quinta eleição disputada, desde 2005, pelo líder sindical dos cocaleiros Evo Morales Ayma, 50 anos, indígena da nação Aymara, hoje presidente e candidato à reeleição – pode ser “mais um terremoto, um retrocesso”. “Onde erramos, meu Deus!?”
Pergunta-se a elite “branca”, legítima herdeira das tradições hispano-européias, diante do avanço incontido dos seguidores “daquele índio idiota”, “daquele macaco”. É o clamor abafado entreouvido nos restaurantes de luxo, nos escritórios das grandes empresas, nos convescotes das mansões da zona Sul de La Paz.
“Como parar as hostes bárbaras que descem as ladeiras de El Alto para sitiar os centros de poder da República?” Indagam-se, entreolhando-se, horrorizados à lembrança dos indígenas, mineiros, trabalhadores, movimentos sociais, “criollos”, “cholos”, essa mestiçagem que forma a grande maioria dos nove milhões de habitantes do país, um milhão deles nesse espantoso El Alto – o subúrbio de La Paz que é uma cidade ou a cidade que é um subúrbio. “A maioria!”, exclama, com asco, um dos mais exaltados.
Insurreição popular derruba o presidente
O que fazer? Perguntam-se e rememoram. Em setembro e outubro de 2003, a insurreição popular deflagrada a partir de El Alto, conhecida como a Guerra do Gás, derrubou o último presidente do neoliberalismo, Gonzalo Sánchez de Lozada, o Goni.
“Não adiantou nada a ação enérgica do governo”, lamenta outro, referindo-se à matança de 67 pessoas. “Tudo em vão, o frouxo do Goni não aguentou a revolta dos crioulos e fugiu para os Estados Unidos, deixando em seu lugar o vice Carlos Mesa, mais frouxo ainda, a primeira coisa que fez foi prometer parar de matar, oportunista filho da puta! De lá pra cá, as tais mudanças não pararam mais, todo dia vai embora um pedacinho mais dos nossos sagrados direitos, os direitos dos nossos filhos, dos nossos netos…”
E continuam repassando a história recente da Bolívia, os corações prenhes de aflição. Em 2005, foi a eleição de Evo Morales para a presidência com 54% dos votos; em primeiro de maio de 2006, a nacionalização do gás e petróleo, o que permitiu ao governo ter dinheiro para os programas sociais em socorro aos mais pobres; depois ações rumo à reforma agrária, contra a corrupção, erradicação do analfabetismo, integração soberana da América Latina, etc, etc.
Após 2005, vieram o processo da Assembleia Constituinte (bastante conturbado) e mais duas eleições, sempre com vitória de Evo Morales e seu Movimento Ao Socialismo (MAS): em agosto/2008, no referendo revogatório, o presidente foi confirmado no cargo por 67% dos votantes; e em janeiro/2009, a nova Constituição Política do Estado teve 61% de aprovação.
Indígenas masscrados a pauladas
“Pois é, mas não se pode dizer que não tentamos barrar isso”, fala um, citando a bagunça feita em Sucre, capital do departamento (estado) de Chuquisaca, quando dos trabalhos da Constituinte, e a tentativa de separatismo e golpe de Estado dos quatro departamentos da chamada Meia Lua, sob a liderança de Santa Cruz. Evento durante o qual, em setembro de 2008, foram massacrados a pauladas quase duas dezenas de indígenas/camponeses.
Agora é a quinta eleição da Era Evo. “O macaco diz que vai chegar aos 70% dos votos, é muita arrogância, e ainda quer maioria de 2/3 no congresso, cruz credo, Deus não deixa!”, intervém outro batendo três vezes na mesa, suando apesar do frio constante de La Paz e afrouxando o nó da gravata.
Os nobres representantes da elite boliviana passam a comentar sobre os supostos êxitos de suas ações nas últimas três semanas, visando pelo menos diminuir o percentual da vitória de Evo e impedir uma maioria significativa no congresso. Um lembrou: “Já pensou se perdemos a maioria no Senado? Aquele projeto radical contra a corrupção, que conseguimos arquivar lá, vai ser logo, logo, desenterrado, aí muitos amigos nossos vão ter problemas, com certeza”.
Êxitos só na tela de televisão
“O diabo é que os êxitos de nossas ações parecem que têm vida efêmera. Só enquanto aparecem na tela da televisão e nas páginas dos jornais. A crioulada parece que não toma conhecimento”, lamenta outro, ressaltando os oito dias seguidos em que a ministra Rosario Canedo – suspensa da Corte Suprema de Justiça por acusação de corrupção – apareceu na TV dizendo cobras e lagartos contra Evo e o governo. “Fez até greve de fome e o resultado?”, indaga um outro, com ar de decepção.
Houve também algumas ações violentas contra os partidários do MAS, principalmente em Santa Cruz, mas de repercussão limitada, diante da reação dos governistas: não aceitar provocação, os perdedores querem bagunçar as eleições, é a palavra de ordem de Evo Morales e seus partidários.
Há alguma esperança no denominado “voto cruzado”: como a força de Evo parece avassaladora, a oposição está fazendo a campanha em favor do voto cruzado, ou seja, você vota no Evo Morales, tudo bem, mas para senador e deputado, você pode votar nos candidatos de outros partidos. O MAS contra-ataca: voto cruzado é traição, temos que obter os 2/3 do congresso.
A última tentativa?
Eles lembram ainda a mais recente tentativa de reduzir o tamanho da vitória do “proceso de cambio”. A ação está em curso. A Corte Nacional Eleitoral (CNE), faltando menos de duas semanas para o pleito, colocou 400 mil – dos 5,1 milhões de eleitores – na condição de “observados”. Ou seja, só poderão votar no dia 6, se, até o dia 3, apresentarem documentação que confirme estarem habilitados a votar. Um aparente rigor técnico, que mereceu total repúdio do governo e total aplauso da oposição.
“É a nossa última tentativa, não é lá grande coisa, mas pode ajudar”, comenta um do grupo já meio ressabiado, recebendo uma ducha fria de outro: “Aqui pra nós, parece que não tem jeito desse povinho acordar e compreender a ameaça que esse macaco representa para os destinos de nossa Bolívia. Eu estou sabendo que no sábado, dia 28, 93 mil (dos 400 mil “observados”) já tinham regularizado sua situação perante a CNE. Parece que não tem jeito”, concluiu desolado.
(*) Jadson Oliveira é jornalista.

4 comentários sobre “"Onde erramos?" – ficção e realidade”

  1. BOLIVIANOS VOTAM NO EXTERIOR – Informação adicional sobre as eleições de amanhã, 6 de dezembro: é a primeira vez que os bolivianos residentes no exterior poderão votar (somente para presidente e vice). Entre os 5,1 milhões de eleitores inscritos no novo e moderno padrão, chamado biométrico (inclui o registro das digitais), estão 170 mil que residem em nove cidades da Argentina, Espanha, Estados Unidos e Brasil, onde houve inscrições apenas em São Paulo – 18.618 votantes.
    Na verdade, 170 mil é um número muito reduzido diante dos cerca de dois milhões de bolivianos morando fora do país, conforme estimativas citadas nos meios de comunicação. Segundo versões de gente do governo, isso se deve às restrições impostas pela oposição na aprovação da nova legislação eleitoral. Não esqueçamos que a direita mantém a maioria no Senado na legislatura que está se findando, situação que os partidários de Evo Morales esperam mudar no pleito deste dia 6.
    (Tem matéria no meu blog Evidentemente – http://www.blogdejadson.blogspot.com – sobre o padrão biométrico, intitulada Façanha boliviana, postada em 25/10/2009).
    PEQUENA CORREÇÃO: na matéria “Onde erramos?”, me referi ao “voto cruzado” – uma campanha da oposição pedindo ao eleitor que, mesmo votando em Evo Morales e seu partido Movimento Ao Socialismo (MAS), vote nos senadores e deputados de outros partidos.
    A informação, no geral, está correta, mas, para ser exato, a campanha refere-se apenas aos deputados, pois os senadores (total de 36, quatro por departamento ou estado) não são votados diretamente. Eles são eleitos, proporcionalmente, de acordo com o número de votos de seu partido (ou de seu candidato a presidente).
    Para ser mais preciso ainda: a campanha refere-se apenas aos 70 (dos 130) deputados, chamados uninominais, cada um eleito diretamente em cada uma das 70 circunscrições do país, tipo voto distrital. Quase todos os demais deputados são eleitos da mesma forma que os senadores.

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