Onde é que nós estamos?

Gostaria de me referir, ainda que de maneira breve, a algumas coisas que o poema de Gustavo Barreto, Onde foi que nos perdemos, me suscita. A última frase diz: Mas onde era mesmo que nós estávamos. Onde era mesmo que nós estávamos? Quando li o poema pela primeira vez, alguma coisa ficou flutuando no ar. Com o passar dos dias, foi vindo algo acerca da presença.

Onde era mesmo que nós estávamos? Alude à presença. Onde é mesmo que eu estou, onde é que nós estamos, como coletivo humano, fragilizado ao máximo numa época de consumismo, de despersonalização, de indiferença disfarçada de hiperconectividade. Quando penso sobre isto, onde é que eu estou, onde é que nós estamos, me vem uma imagem de algo quebradiço.

Estamos numa era de uma sociabilidade líquida, com diz o sociólogo polonês Zygmunt Baumann. Uma época em que a pessoa se vê defrontada com tantas possibilidades de escolhas, e com um desenraizamento tão amplo, que não sabe exatamente o que é, quem é, e onde está parada.

O psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto, em uma palestra pronunciada em evento sobre a fragilidade psíquica na globalização, detecta o mesmo fenômeno. As redes, na perspectiva de Adalberto Barreto, o fortalecimento dos vínculos comunitários, podem ser um antídoto imprescindível nos dias de hoje, a essa volatilidade em que estamos imersos.

Não deixo de ver a conexão com as noções de anomia e alienação, bem como a questão da mecanização das relações sociais, a que fizeram referência, respectivamente, pensadores como Emile Durkheim, Karl Marx, e Max Weber.

O ser humano cria o mundo em que vive. Mas o mundo atual, criado numa super-velocidade (Alvin Toffler, Ramón Muñoz Soler), num consumismo e prisão aos resultados, pode ter chegado a um ponto de mutação (Leonardo Boff, Fritjof Capra), em que sejamos desafiados, como humanidade, a ter que decidir, coletiva e individualmente, cada um de nós, cada uma das células do corpo planetário, qué vida seremos capazes de sustentar.

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