Tento repercutir, de maneira bastante sucinta, algo que me foi suscitado pelo texto do cabeçalho. O primeiro que me vem à mente, é dizer que o mesmo toca com profundidade, com leveza, e ao mesmo tempo com muita firmeza, em vários pontos que o autor elenca, e que confluem, no meu entender, em um só, ou vários interconectados, mas girando ao redor de um ponto central.
A relação instituição eclesial (Igreja Católica Apostólica Romana) – vida social, ou sociedade, em sentido amplo, mas também concreto e prático: a vida diária de cada um, as relações comunitárias em que estamos imersos. E o mundo social mais vasto, no qual tanto a ICAR quanto nós mesmos, nossas famílias, os nossos projetos de vida, as relações solidárias, estamos insertos.
A reflexão que me parece ser o ponto central, é um leque de questões que convergem, como já disse, neste ponto: a vivência do Evangelho, o seguimento de Jesus, como algo dinâmico, que vem da nossa própria consciência, tanto quanto da rede de relações, de contatos humanos reais e concretos da qual fazemos parte.
Neste sentido, o autor nos traz para o nosso próprio discernimento, para a escuta profunda e sincera que lhe é característica, e que da o tom do documento em pauta. Apenas essa obediência interna, o seguimento da voz interior de cada um, pode ser o guia seguro na caminhada da pessoa. As instituições fazem parte do contexto social, da sociedade de classes em que estamos imersos, e sofrem, por tanto, das deformações próprias de um sistema baseado na dominação, na exploração dos seres humanos.
O autor chama a atenção dos leitores para vários pontos. Um deles, a historicidade dos textos sagrados. Outra, a nossa própria responsabilidade pessoal e coletiva, no prosseguimento atualizado da missão do espírito no mundo, que não se esgota em uma interpretação a-histórica das palavras de Jesus, mas, ao contrário, exige uma posta em dia (aggiornamento) permanente, e uma também permanente indagação sobre qual seja o reto caminho a cada instante.
Neste contexto, a ordenação das mulheres, uma das reivindicações postas à hierarquia da ICAR, fica questionada, embora seja reconhecida a sua legitimidade. Até que ponto, esta e outras reivindicações, embora justas, repito, não seriam de algum modo, uma perpetuação da cisão igreja-vida, sagrado-profano, uma dissociação que marca boa parte da chamada prática cristã, ou religiosa em sentido mais amplo.
Identifica-se o espiritual ou o sagrado, com certos atos ou práticas, mas a vida é uma unidade. O sagrado é a vida. O autor chama a atenção para esta integridade, para esta integralidade, para a indissociabilidade entre o sagrado e o profano: tudo é sagrado, ou nada é. Obviamente, estas ressonâncias da minha parte, são geradas por meus pontos de vista pessoais, e não pretendem, nem muito menos, ser “a interpretação correta” do texto de Alder Calado.
A minha intenção é a de ir partilhando estes ecos, na tentativa de captar a mensagem do autor em um sentido da renovação da vida, de uma unidade crescente e progressiva, em direção à vida una. Estas anotações que partilho, são espontâneas, não sistemáticas e nem acabadas. Portanto, estão sujeitas a erro e correção.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
