Olhe nos meus olhos e diga que valeu

1964
O recomeço é sempre difícil. Com o corpo cansado, a mente confusa e entristecida, retomar o fôlego para as novas batalhas vem com um peso dobrado.
No desespero de quem não via saída para os últimos episódios, muitos de nós ficaram à procura de vozes mais experientes e sábias. Nessas horas, tudo que o que se queria era um norte, uma direção, onde os passos a seguir nos conduzissem depressa a dias melhores.
A voz da experiência não veio. Não existe um único caminho. Todos são longos, estreitos, escuros e cheios de percalços. Diante da tenebrosa constatação, todos se entreolharam, com olhar de dúvida, incerteza e certo medo. No desespero alguém grita: “Canalhas”. Em vão. O golpe em curso dera um passo largo e talvez irreversível.
Procurei amparo nos blogs jornalísticos, onde os mais vividos pudessem escrever algo triunfante e esperançoso. Nada se leu além de lamentação.
Corri aos livros, para que ao menos, na descrição do passado de luta, a beleza inspirasse. A mente bloqueou-se. Li, reli e nada era absorvido. Paro, deito e durmo facilmente, como se a mente quisesse apagar toda a realidade. Sou interrompido por um turbilhão de pensamentos que me projetam para fora da cama, mais uma vez, ansioso e perdido. Caminho no quarto pequeno, para frente para trás. Chego ao banheiro e volto.
Relembro o desespero e dramas pessoais do passado. Lembro que apesar dos aliados, cada um terá que achar a própria saída para reconstrução. Aceito.
Respiro e me esforço para que da minha mente saia alguma coisa boa. Algo que inspire e alimente a enfraquecida esperança. A escrita sai lenta, feia e irregular. As ideias confundem-se entre curtos devaneios que exigem dias melhores e a melancolia do que foi visto e vivido no domingo.
Lembro-me dos dizeres, das falas vazias, repletas de simbolismos imbecis e apolíticos: iniciavam por Deus, passavam pelos filhos, mulher, netos, etc. Citavam a ética e a moral, que nunca tiveram. Como moralistas salvadores da pátria, citavam a palavra corrupção, mesmo quase todos sendo beneficiários dela. Concluíam, com a cara lavada, típica de um pulha atuando em peça teatral, dizendo sim.
Rapidamente, pensei naqueles que entoaram com tanto ódio o Fora Dilma. Lembrei também dos que fingiam omissão, mas no fundo, no fundo tinham lado. Qual deles assumiria o apoio dado a esse ato vil, daqui algum tempo?
Tudo isso me aludia a sonhos, ou melhor, pesadelos que me acompanharam durante um período da vida. Eu gritava e a voz não saia.
Lembrei também de muitas conversas, onde eu sugestivamente explicava que essa classe golpista queria apenas tirar uma Presidenta honesta para usurpar a pátria. Como no pesadelo, todo esforço era em vão.
Alguns dos canalhas disseram que as vozes das ruas haviam sido escutadas. Mais uma vez mentiam. As vozes foram apenas usadas para completar a cena de terror que já estava com final pronto. Mais uma vez, a grande mídia havia preparado com maestria a classe média, que se sentia parte da elite, para o golpe final. E com o golpe armado, a insensata e ignorante voz das ruas, recebia o título de protagonista.
Voltando aos canalhas, os mais astutos e matreiros, citaram Getúlio. Usaram justamente o sujeito que havia sido golpeado pela mesma claque de vigaristas. Mas era preciso enganar. Citar personagens da história com papéis trocados. O mesmo Getúlio, que se suicidara acusado de corrupção, naquele domingo, era citado como vítima, não deles, mas dos que lutam pelo bem do país.
A dor ainda é forte, mas não pode ser maior que a vontade e a obrigação de se reerguer e começar tudo novamente.
Apego-me na convivência que tive durante os quatro dias de caravana. Foram muitas trocas, com pessoas de diversos lugares do Brasil, de diversas realidades socioeconômicas e culturais. A conclusão é que mesmo a elite burocrática do PT tendo se perdido da base, a base jamais se perdeu dos seus ideais.
O ressentimento com os erros e com a falta de diálogo, de tempos para cá, foram deixados de lado. Optou-se pelo perdão. Optou-se por demonstrar gratidão aos avanços e oportunidades duramente criadas. Outros partidos também deixaram de lado as diferenças e se uniram para enfrentar um inimigo sem pudor, fascista, que já trama o retrocesso.
Na volta ao Rio, o clima fúnebre tomava conta do ônibus. Uns falavam dos erros do governo, outros da falta de liderança do partido no momento crucial. Alguns se recolheram, desprezando a discussão. Apenas choravam.
O ônibus ia avançando, saindo de Brasília, adentrando em Minas. As vozes iam se enfraquecendo e entregavam-se a exaustão de uma batalha longa e supostamente perdida. O único som que se confrontou ao silêncio era o ronco do motor. Até que uma jovem, agoniada, sentada bem a minha frente, levanta-se da poltrona e diz:
– Como é que é gente? Vamos abaixar a cabeça e desanimar? Tem gente aqui que tem casa própria, está formado e não passa aperto na vida. Quando os cortes chegarem, vão para debaixo da asa dos pais e tudo fica numa boa. A minha realidade e de muita gente aqui não é essa. Eu não tenho casa própria e ainda não me formei. Moro na baixada e quem é de lá sabe como vai ser daqui para frente. Eu luto é pela minha vida.
Aquela fala entrou como uma lança afiada dentro da alma. De certa forma, senti vergonha pelos pensamentos típicos do pequeno burguês, que muitas vezes opta pela crítica moral, omitindo-se de certas lutas. Olhei para ela e sem falar nada, agradeci indiretamente, com um leve assentir de cabeça. Era mais uma fala que ensinava que o Brasil não se resume simplesmente ao que a gente vive e ao que a gente pensa. São diversos brasis, que a gente não conhece.
As conversas recomeçaram, as ideias foram ressurgindo. A cada parada os grupos se misturavam e se apoiavam.
A partir dali, tive a certeza que tudo valeu a pena. Cada mobilização, cada ato, toda a defesa. O Brasil começara, treze anos atrás a dar dignidade para quem nunca teve e é por isso que nós vamos continuar a lutar.
A doação será integral, seja no trabalho, no convívio com os amigos, nos movimentos que virão.
Voltaremos para as ruas, agora, sem o peso das ignóbeis composições. Livres das práticas e dos discursos fisiológicos que defendiam um suposto bem maior. Saímos das ruas e para elas voltaremos. Todos de cabeça erguida sabendo, mais do que nunca, o que a gente quer e o que o Brasil precisa.
Deixaremos as diferenças de lado e nos apoiaremos uns nos outros. Vamos reconstruir, passo a passo e nos tornar mais fortes do que nunca. O futuro é logo ali.
Foto: Byron Prujansky

Um comentário sobre “Olhe nos meus olhos e diga que valeu”

  1. O fato mais marcante de toda essa história que não saiu da minha memória foi ver trabalhadores do bairro onde moro soltar fogos de alegria ao anunciarem abertura do processo de cassação da presidente.
    Intimamente disse que essas pessoas não sabem da dimensão desse golpe e que seus direitos sociais e individuais estariam em risco.
    Na condição de estudante de história e futuro professor,daqui a vinte anos ,terei dificuldade de explicar aos alunos os acontecimento de hoje . Não sabemos o que dirão os livros didáticos e assim por diante .
    Não saberei que daqui á pouco vou poder falar abertamente sob o assunto,pois estaremos livres para expressarmos nossas ideias dentro do ambiente escolar por causa de leis opressoras como a Escola sem partidos que põe uma mordaça na livre expressão do professor.
    Estou pessimistas quanto ao futuro!

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