Construído por ocasião dos Jogos Pan-Americanos de 2007, o velódromo do Rio de Janeiro corre o risco de ser posto abaixo. A demolição precoce é motivada, ao menos oficialmente, pelo fato de que a instalação – tida como a mais sofisticada da América Latina – não atende aos requisitos olímpicos. Já se sabe, contudo, que, em seu lugar, será construído um empreendimento imobiliário.
Ou seja: em apenas cinco anos, uma construção que custou aos cofres PÚBLICOS R$ 14 milhões pode ser jogada no lixo por razões que põem à prova os limites da paciência de qualquer cidadão. Afinal, ou isso se deve à ignorância e falta de planejamento por parte dos responsáveis pelo projeto – de que outra forma poderia o velódromo não ter padrões olímpicos? – ou está em curso uma estratégia para atender a interesses escusos, dado que mais obras significam mais projetos na carteira de empreiteiras, mais dinheiro desviado por políticos e mais empregos para manter a “peãozada” satisfeita e pronta para pagar com votos pelo “favor” em eleições subsequentes.
Não se pode descartar ainda a possibilidade de tal situação ter sido planejada intencionalmente por representantes políticos e empresários com interesses no projeto do condomínio que poderá ser levantado no lugar do velódromo. Parece teoria da conspiração, mas, em se tratando de Brasil (onde senador cassado por corrupção vira procurador da república no dia seguinte), tudo é possível, devendo-se, portanto, considerar as mais repulsivas e asquerosas conjecturas.
Para ferver ainda mais o sangue, é digno de nota que dezenas de jovens que, hoje, utilizam as instalações para praticar ciclismo ou ginástica artística, ficarão sem local de treinamento por tempo indeterminado. Assim, futuros atletas, que poderiam conquistar medalhas pelo país nessas modalidades, ficarão a ver navios, ratificando a falta de interesse e iniciativas de longo prazo que sempre caracterizou o Brasil no que diz respeito ao esporte, além de outras áreas socioeconômicas-chave.
O caso do velódromo carioca não é, de modo algum, um fato isolado. Basta lembrar do Maracanã, que passa por sua segunda obra em menos de dez anos, e cuja capacidade de público será, depois das reformas, bem menor que os mais de 100 mil lugares de seu projeto original. Há quem diga que pelo menos dois estádios poderiam ser construídos com os recursos que já foram gastos no tradicional Mário Filho. Enquanto isso, os cariocas ficam reféns do Engenhão, cujo acesso, de tão ruim – além da acústica e outras características de qualidade duvidosa do estádio –, acabou dando origem ao apelido de “Vazião”, que hoje é usado por muitos torcedores ao se referirem ao estádio João Havelange (expressão que, pensando bem, é menos indecorosa do que o nome oficial).
Há centenas de outros exemplos gritantes e revoltantes, como o da Cidade da Música (hoje, chamada de Cidade das Artes), que, após dez anos do início de construção e mais de R$ 500 milhões gastos – investimento mais de cinco vezes superior ao orçamento inicialmente previsto –, ainda não está pronta. Há indícios, entretanto, de que a mais nova obra inaugurada pela prefeitura do Rio, a Transoeste, seja mais um caso de mau uso de verbas públicas.
Não que o empreendimento não fosse necessário. É possível que sim, embora fique a impressão de que outros modais nunca são considerados como alternativas para o transporte público – talvez por lobby da indústria automobilística e de todas as partes que enriquecem com a expansão do sistema rodoviário. Mas é revoltante que, em menos de duas semanas após sua entrega, já houvesse divisórias danificadas ou tortas na rodovia. Das duas, uma: ou os motoristas cariocas são mesmo muito ruins de roda, ou o governo está comprando material de má qualidade e contratando engenheiros incompetentes para realizar obras na cidade.
Enfim, não causará surpresa se, daqui a um ou dois anos, reformas milionárias forem anunciadas para recuperar a Transoeste. Tampouco seria espantoso imaginar o então prefeito subindo em um palanque, ao lado de Lula e Cia., para discursar e tirar fotos durante a cerimônia de reabertura da rodovia, com milhares de cabos eleitorais contratados aplaudindo e o povo esperando, sob o forte sol e em pé, para usar a rodovia, que, claro, já terá um novo pedágio para compensar a grana gasta nas obras de recuperação.
São hipóteses, não fatos. Mas a situação imaginada não deixa de ser o retrato perfeito de uma das vergonhosas faces de um Brasil que não evolui.
