O véu

Ana Amelia Guimarães*

Aribe nascera linda, nunca se tinha visto feições tão perfeitas. A boca carnuda bem delineada, nariz pequeno afilado, olhos azuis acinzentados, sobrancelhas escuras, cabelos castanho-claros. Era uma beleza de criança e se tornara uma mulher belíssima. Alta, 1,70 m, cintura fina, quadris largos, seios empinados, pés 37 bonitos, mãos e dedos de princesa.

Seu pai e os 5 irmãos, quando ela completou 10 anos, obrigaram-na a usar um véu para que ninguém visse a sua beleza. A mãe tinha pena dela, mas pedia que pelo menos dentro de casa ela ficasse sem o véu, mas se chegasse algum estranho ela teria que estar com o rosto coberto.

Na escola, na Igreja, quando saía de casa era sempre de véu. As colegas de escola acabaram se afastando, pois não queriam brincar com uma pessoa que não podiam ver o rosto. E assim Aribe era muito só.

Já moça quando fora para faculdade, achavam que ela tinha um defeito no rosto, que deveria ser muito estranho, por isso não tirava o véu. As colegas a aceitavam por piedade, os rapazes não queriam aproximação.

E assim Aribe foi ficando cada dia mais linda e mais só. Às vezes, no seu quarto, chorava muito, dizia que havia sido amaldiçoada por tanta beleza que não podia aparecer em público, e isso só lhe causava dores e isolamento. Ninguém dava importância a ela, achavam que era doente e bem feia.

Os irmãos foram casando e acabaram esquecendo dela. O pai faleceu e a mãe era a única companhia e ela continuava com o rosto coberto.

Certo dia saiu às compras, como sempre de véu, e uma ventania muito forte a pegou de surpresa que acabou por fazê-lo voar. Nesse instante havia algumas pessoas na rua, mas como ninguém lhe dava importância, ele caiu nas mãos de um rapaz que era cego, e esse sentiu o cheiro adocicado daquele tecido, o aspirou profundamente, apertando-o com as mãos.

Aribe veio ao seu encontro, que, ao sentir o perfume dela, disse: é seu moça, e o entregou. Ela percebeu que ele não enxergava, num ímpeto o abraçou e agradeceu. Ele disse espere, não vá, quero muito conversar com você. Aribe voltou, atendendo ao pedido do rapaz, que também era muito bonito, inteligente, rico, dono de uma fábrica de objetos para pessoas com deficiência física e visual.

Josué se encantou por Aribe, esse encontro mudou a vida de ambos. Em pouco tempo se casaram e ela nunca mais usou o véu, todos puderam ver a sua beleza e ficaram admirados. Alguns pediram perdão por a terem desprezado.

Josué nunca viu com seus olhos o rosto lindo de sua mulher, mas enxergou a bondade, a beleza, a generosidade que se escondia atrás daquele apetrecho que lhe casou tanto sofrimento.

Aribe ajudou a prosperar ainda mais a fábrica de seu esposo, na criação de novos recursos para as pessoas com deficiências, com vistas a lhes proporcionar uma melhor qualidade de vida.

Só enxerga bem, quem vê com os olhos do coração.

*E-mail para: meliaguima@gmail.com

Foto: Iran de Baran Lotfollahi (@baranlotfollahi)

Deixe uma resposta